Um filme dirigido por Murilo Salles com Leandra Leal.
Baseado na obra de Clarah Averbuck.

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Juliano Gomes

Nome Próprio só aparece na tela no fim do filme, sobre a imagem das Camilas. Parece que a partir daí tudo se acalma; resolve-se a crise. Como se o problema fosse que ela não coubesse em uma só.
Próprio "é o que pertence ao sujeito da oração", e também "adequado, conveniente, que serve a determinado fim, apropriado". Enfim, acho um nome bem feliz pro filme, mas me suscita a curiosidade de saber se é um nome conquistado ou dado, saber o que você acha disso. Não poderia ser um nome comum? Ou impróprio?

(Formado em cinema, jornalismo e publicidade na PUC-Rio, Juliano Gomes trabalhou como assistente de direção no longa Filhas do Vento, de Joel Zito Araújo. Desde então, realiza documentários, ficções e institucionais. Organiza também, desde 2005, o cineclube CINEPUC. Atualmente, é mestrando da ECO-UFRJ e colaborador do DocBlog, organizado pelo crítico Carlos Alberto Mattos. Foi membro do Júri da Mostra Visões do 1º Festival de Cinema Fantástico do Rio de Janeiro – RIOFAN).


MURILO

Juliano, acho que a sua pergunta refere-se mais a questão do nome, se é próprio, ou impróprio, ou comum. Acho que a melhor forma de responder a isso é falando um pouco da história do nome do filme; porque esse filme foi procurando o seu nome próprio.

Ele começou como “Máquina de Pinball”, igual ao livro. Já no primeiro tratamento do roteiro, que feito pela Helena Soares, o filme passou a se chamar “O Mundo Segundo Clarah Averbuck”. Do segundo tratamento em diante, ele virou “Pinball” e ficou “Pinball” durante um tempo enquanto íamos escrevendo. Eu gostava da imagem, não gostava da máquina de pinball, porque não acho que é essa a questão. O que era interessante ali para mim era a bola. Ela é uma coisa que vai daqui pra lá, bate, volta, bate nos pontos, se movimenta. Mas, também não queria que o filme se chamasse bola de pinball. Acabei abandonando essa idéia porque eu queria tornar o meu personagem em autor e não numa conseqüência de comando de um outro autor.

Quando chegou perto da filmagem, como eu estava brincando com essa questão do quê é narrado e o quê é vivido por Camila, pelas duas Camilas, eu transformei o filme em “Uma História Real”. Eu estava brincando com esse conceito, do quê que é verdade, o quê que você posta num blog e o quê você vive na vida real; de como a gente se ficcionaliza. Porque, no final das contas, é essa a questão.

O filmei foi todo feito com a claquete Um História Real; comecei a montar o filme ainda com esse nome. Então, quando a montagem foi chegando no final, além do fato de já ter alguns filmes com nome de Uma História Real, comecei a achar que o filme não é uma história real, aliás é tudo o que ele não é. Fiquei com isso na cabeça, achando que o filme tinha que ter outro nome. Procurei e cheguei ao nome “Impressão Digital”, mas achei que era um pouco literal demais; eu gostava e não gostava.

Até que um dia, fazendo uma sauna com a minha senhora, ela começou a falar que o filme tinha que ter um nome próprio, muito próprio. Quando ela voltou a frisar muito próprio, eu disse assim: “Caramba Deyse! Porque não “Nome Próprio?” E a Deyse adorou. Comentei com o Avellar, que gostava muito do “Impressão Digital”, e dois dias depois ele me manda um texto do Otávio Paes, falando sobre a questão do nome próprio, falando de uma forma tão pungente e pertinente com o filme que até hoje esse texto é a introdução ao filme no meu site. Logo depois disso, comentando com a Viviane Mosé, ela sacou um poema dela, que fala sobre no nome próprio. Era coincidência demais. Apesar de algumas pessoas acharem um pouco pedante esse nome, eu gostei muito. Acho muito próprio o filme se perguntar pelo seu próprio nome. Por tudo isso, acho que esse é um nome conquistado arduamente, um nome que se conquista.

Concordo com você quando diz que pode ser que Camila não se baste em uma, não se caiba em uma. Essa é uma das teses boas para o final do filme.

Juliano Gomes

Os escritos que habitam a tela no início do filme, que ficam entre os espectadores e as imagens, são uma expressão direta de Camila. Num segundo momento, pulando pra terceira pessoa, eles parecem vir de um narrador externo, de quem "faz" o filme. No final, vemos que Camila escreve também em terceira pessoa; o "personagem-narrador" se desfaz.
Queria perguntar até que ponto o filme se deixa contagiar pela Camila e até que ponto ela se contagia pelo filme. Porque me parece que estas partes são diferentes, que as crises da narrativa são "do filme", de como apresentar este personagem, de como fazer cabê-lo na tela. Sinto uma crise de representação no filme e acho que pra viver isso se escolheu uma personagem de convulsões, de montanhas-russas, pra que haja um "ou vai ou racha".

(Formado em cinema, jornalismo e publicidade na PUC-Rio, Juliano Gomes trabalhou como assistente de direção no longa Filhas do Vento, de Joel Zito Araújo. Desde então, realiza documentários, ficções e institucionais. Organiza também, desde 2005, o cineclube CINEPUC. Atualmente, é mestrando da ECO-UFRJ e colaborador do DocBlog, organizado pelo crítico Carlos Alberto Mattos. Foi membro do Júri da Mostra Visões do 1º Festival de Cinema Fantástico do Rio de Janeiro – RIOFAN).


MURILO
A primeira questão é sobre os textos que vão possuindo a tela no início do filme. Esses realmente são escritos da Camila. São todos uma provocação ao Felipe. Há uma ligação direta, os textos estão em “sinc” com ela; vemos os seus dedos digitando e o texto surgindo na tela em seguida.

O primeiro momento de desconstrução é a cena em que ela vai para o Estádio de Futebol. É ali que aparece o primeiro texto de fora: “eu engoli uma pedra. Tem uma pedra dentro de mim. Tem uma pedra. Tudo é dentro”. Esse bonito texto da Viviane Mosé é o primeiro texto que não está em sinc com a ação de Camila e sim com os seus sentimentos.

A primeira intervenção realmente poderosa é logo após ela conhecer o Henry, quando ela está na praia transando com o namorado da amiga. “Nada me resta senão me perder em você, senão morrer um pouco, senão gozar sem saber do que se goza”. Essa fala, que na verdade é da Santa Tereza D’Ávila, é uma violenta ação de um texto sobre a imagem. O texto desfoca a imagem, a sua entrada é avassaladora. O texto possui a imagem. Ali alguém começa a escrever. É ali que começa. É ali que começam todas as questões.

O segundo momento que vc comenta, quando os textos começam a vir na terceira pessoa, começa praticamente só na metade do filme e aparece como uma descontrução. Camila fala em off no presente e na primeira pessoa, enquanto que o texto que aparece na tela é escrito no futuro e na terceira pessoa. É assumidamente uma desconstrução verbal. Queríamos provocar uma sensação de que alguém poderia estar escrevendo aquela fala, que existiria uma outra narrativa por detrás daquelas imagens.

Enfim, Juliano, eu discordo um pouco de você. Esse filme é um filme sobre narrativa, sobre construção de narrativa. Mas, não é porque utilizo um processo de desconstrução, que vai inserindo no filme textos na terceira pessoa e com isso a narração vai sendo paulatinamente tomada por um segundo narrador, que há uma “crise de representação”. Não acho que o personagem narrador se desfaz, pelo contrário, eu acho que ele se constitui. O personagem narrador só se constitui ali no fim. No fim, há uma possibilidade de que aquela segunda Camila seja o personagem narrador. Mas, pode haver outras interpretações também; segundo o Felipe Bragança, aquela segunda Camila sou eu. Eu estou mais para a opinião do Felipe.

Não acho que essa ação de escrever contamina a personagem. É mais do que isso, acho que elas se complementam. É por isso que digo que elas se constituem ao invés de se desfazerem, como você diz. Nada do que é escrito muda a ação da personagem, os textos são muito mais uma complementação da idéia que está sendo narrada. O que está sendo escrito só narra o que a gente está vendo, como na cena final em que Camila sai da festa, entra no ônibus e vai até a casa. Nada do que é escrito faz o personagem mudar qualitativamente. O narrar é uma outra instância, uma instância que está em comunhão com a imagem.

O uso do texto no filme sinaliza esse gradual desvelar de um segundo narrador, de uma segunda instância narradora. Por exemplo, a gente vê em duas cenas uma mão de mulher escrever e-mails de homem. O Daniel existe a partir de e-mails que estão sendo escritos por uma mulher. Toda vez que tem um e-mail do Daniel, com exceção da primeira vez, quando Camila usa o computador do Henry, aparece a mão de uma mulher digitando esse texto. Isso remete a possibilidade de Daniel ser uma invenção sim, dele ser uma coisa da cabeça dela.

Então, eu acho que o filme interage nessas duas camadas, como disse o Felipe Messina, Nome Próprio é um filme em camadas, um filme que fala sobre a paixão e sobre narrativa. As camadas se comunicam, mas não interagem. Elas formam um todo coeso.

Melhor FILME EM GRAMADO!!!!
Que honra!
Vindo de um corpo de jurados de excelência:
Ana Carolina - Presidente do Júri
Carlos Gerbase
Lina Chamie
Roberto Guervitz
E Marcelo Janot - crítico de cinema.






FIZEMOS ESSE FILME COM PAIXÃO, e foi lançado com igual paixão. Transformamos nossa energia nessa FORÇA BRUTA que se chama Nome Próprio
.

Um filme que escreve a sua HISTÓRIA a cada dia!
Sou muito grato por esse carinho enorme e entrega de todos. O lançamento foi uma ação ESPETACULAR da equipe, do elenco e das pessoas que acompanham e participaram diariamente do nosso blog. Fizemos esse filme acontecer na marra! E agora vem esse reconhecimento também ESPETACULAR!

VOCÊS FORAM TODOS RECONHECIDOS NESSE PRÊMIO, pois existe o de melhor diretor e não ganhei, GANHAMOS O DE MELHOR FILME E ESSE PRÊMIO É DA EQUIPE, DO ELENCO E DOS AMIGOS DE NOME PRÓPRIO.

PARABÉNS A TODOS!

Murilo Salles.

O 36º Festival de Cinema de Gramado anuncia os grandes vencedores desta edição do maior festival cinematográfico do país.

Longa-Metragem Brasileiro:

Melhor filme de longa-metragem: NOME PROPRIO de Murilo Salles
Melhor Diretor: Domingos Oliveira pelo filme JUVENTUDE
Melhor Ator: Daniel de Oliveira pelo filme A FESTA DA MENINA MORTA
Melhor Atriz: Leandra Leal pelo filme NOME PROPRIO
Melhor Roteiro: Domingos Oliveira pelo filme JUVENTUDE
Melhor Fotografia: Lula Carvalho pelo filme A FESTA DA MENINA MORTA
Prêmio Especial do Júri: A Festa Damenina Morta de Matheus Nachtergaele
Premio de Qualidade Artística: para os Atores Aderbal Freire Filho,
Domingos Oliveira e Paulo Jose pelo filme JUVENTUDE
Melhor Diretor de Arte: Pedro Paulo de Souza pelo filme NOME PROPRIO
Melhor Música: Matheus Nachtergale pelo filme A FESTA DA MENINA MORTA
Melhor Montagem: Natara Ney pelo filme JUVENTUDE
Prêmio da Crítica: A Festa Da Menina Morta de Matheus Nachtergale
Melhor filme do Júri Popular: A Festa Da Menina Morta de Matheus Nachtergale

Parabéns a todos da equipe! E obrigada a todo o público que está contribuindo para a sua permanência nos cinemas. Estamos cada vez mais orgulhosos desse trabalho!!!


Fonte: Site Oficial do Festival de Cinema de Gramado
Fotos: Divulgação -
Edison Vara / Pressphoto

FELIPE MESSINA

Camila vive o efêmero. Há, por um outro ângulo, uma relação distinta entre a velocidade com a qual a personagem muda de casa, muda de amigos, muda de amores e a maneira como processa em texto estas experiências. Cada dia de blog é mais um dia que segue, é mais uma página que passa. Mas, ao mesmo tempo, está tudo gravado, é tudo acessível, é tudo passível de se reviver, de se relembrar. Se cada post é um retrato de um dia, de um beijo, de uma angustia; se cada experiência nova é perseguida obsessivamente; se cada página pertence a seu próprio tempo; os tempos se mantém no digital. A escritora persegue certa permanência das experiências e a obra “nunca termina”. Nome Próprio pode ser encarado como um retrato de situações de seu tempo. Um retrato composto por várias mãos. Há nele as intervenções das vivências dos roteiristas, do diretor, da autora, da atriz. Nesta maneira de lançar o filme, o autor busca uma participação ainda maior do espectador e demais sujeitos deste blog. Além disso, o filme e o blog podem passar a ser elementos complementares de forma profunda. Até onde você pretende manter relações de criação com este projeto do ponto de vista da sua intervenção criativa? Em algum momento você pretende tirá-lo do ar ou pretende deixá-lo (filme/blog) correr vida própria? Ou, mais ainda, pretende participar da atualização deste blog continuamente compondo uma obra quase sem fim?

(Felipe Messina, jornalista formado pela UFRJ, cobriu o circuito de festivais de cinema para o site Imprensa Jovem (2000 a 2004). Atualmente escreve para o DocBlog da Globo.com, editado por Carlos Alberto Mattos. Dentre os textos destacados: cobertura e redação de resenhas do É Tudo Verdade (2007/2008) e Festival do Rio (2007). Como realizador, produz com outros parceiros um filme sobre o projeto Semente da Música Brasileira e seus bailes no Clube dos Democráticos)


MURILO

Felipe, estou lendo a sua pergunta hoje, estamos no dia 8 de Agosto, iniciando a quarta semana de projeção do filme. O blog que já teve mil visitas por dia, está hoje com umas quatrocentas e poucas. Eu sabia que ia ter uma tendência de esvaziamento, cheguei até a conversar várias vezes com o Léo Bittencourt, o editor do blog, sobre o quê a gente iria fazer. Eu achava que a gente devia continuar o blog, não apenas como um blog sobre o filme e sim como uma experiência de um espaço existencial, de afirmação existencial de uma galera que está aí perdida pelo Brasil e quer falar, quer fazer arte e quer pensar mais profundamente o seu cotidiano. Sempre achei que o blog poderia ir por esse caminho; mas isso tem que acontecer de forma espontânea, da mesma forma como surgiu a idéia do blog, de forma simples e natural, sem ser forçado.

O Blog do filme Nome Próprio foi criado pela Clarah e pela Leandra no início do lançamento do filme. Foram elas duas que tomaram a iniciativa e criaram o blog. Nessa época, eu estava numa luta desesperada para arrumar dinheiro para lançar o filme e o dinheiro não vinha, tive então uma proposta da “Oi” de disponibilizar o filme num site, no portal da Telemar. Fiquei pensando um tempo sobre o assunto e comecei a achar que aquilo tudo era muito “oficial”, não tinha haver com o filme. Na conversa com um dos parceiros do lançamento, o Beto Topczewski da Big Bonsai, tive a consciência de que o filme não precisava de um site, nem de um super portal, ele precisava ter um blog. Foi junto com o Beto que percebi que a pertinência do lançamento desse filme era ter essa unidade de linguagem; de fazer o filme continuar num blog, dele se perpetuar no relato e na relação direta com as pessoas. Foi nessa época que eu assumi e comprei a idéia de lançar o filme inteiramente através do blog.

É muito legal ler a sua pergunta agora. Porque estamos repensando o blog. Eu sempre achei que o filme poderia continuar no blog. Mas, na verdade, o cotidiano dos Posts e dos comentários tem caminhado para uma direção que eu não esperava. Imaginava que as pessoas fossem se colocar mais, usar mais esse espaço que a gente abriu. Nós provocamos, instigamos, mas não deu muito resultado; com exceção do concurso do trailer que foi um puta sucesso. Os textos e materiais mais filosóficos e artísticos foram enviados por pessoas amigas, parceiros, a Alessandra Cestac, Lucas Bambozzi, Edouard Fraipont, Deisy Xavier e de algumas pessoas da equipe do filme. Agora, poucas pessoas realmente escreveram comentários e textos interessantes, que se colocaram mais pessoalmente. Tivemos boas e gostosas surpresas com a Violet Scott e o Rodrigo Luques, além de outras pessoas que me fugiram o nome agora. Teve um cara que viu o filme lá no Ponto-Cine, mandou uma poesia e a gente publicou, mas foram casos isolados. Enfim, eu meio que desanimei um pouco. Essas coisas têm que surgir de forma espontânea, ou então não faz sentido. Não dá para forçar. Dá para instigar e isso a gente tem feito. Estou mantendo até agora o blog, pagando para ver. Ainda vou escrever mais algumas coisas. Pode ser que enquanto a gente tiver energia aqui no escritório, eu e o Léo, a gente vá mantendo o Blog, vamos ver até quando.

FELIPE MESSINA
O plano pessoal da escritora é a matéria-prima de sua literatura. Mais do que inspiração, trechos de vida Camila são escritos e lidos. Das diferentes interpretações de “Escrevo porque preciso. Melhor, vivo porque escrevo.”, é possível chegar em “Vivo (certas circunstâncias) porque necessito delas para escrevê-las.” Seus relacionamentos são mais do que relacionamentos... são objetos de textos. Se ao final vemos uma escritora que se parte em duas, fundamentalmente ela também se funde em uma só. Seus amantes não são “apenas” amantes, são personagens. Seus tormentos não são “apenas” tormentos, são citações. Camila é sua obra.

Onde está o limite de Murilo Salles em sua arte? Onde está o limite de Murilo Salles em Camila? Em qual medida há Murilo Salles em Nome Próprio?

(Felipe Messina, jornalista formado pela UFRJ, cobriu o circuito de festivais de cinema para o site Imprensa Jovem (2000 a 2004). Atualmente escreve para o DocBlog da Globo.com, editado por Carlos Alberto Mattos. Dentre os textos destacados: cobertura e redação de resenhas do É Tudo Verdade (2007/2008) e Festival do Rio (2007). Como realizador, produz com outros parceiros um filme sobre o projeto Semente da Música Brasileira e seus bailes no Clube dos Democráticos)


MURILO
Onde estão os limites entre Murilo Salles e Camila? Essa é uma boa questão. Quando procurei esse filme, quando eu estava no processo de pesquisa, havia uma coisa que me encantava: a internet. A questão da internet surgiu para mim no meu filme anterior, no “Seja o que Deus Quiser”.

Terminei de filmar o “Seja o que Deus Quiser”, no dia 11 de Setembro de 2001. Estava fazendo as malas para vir para o Rio, quando os aviões entraram nas Torres Gêmeas. Eu vi. Vi ao vivo o segundo avião colidir. Desde essa época, estou ligado nessa questão da Internet. Depois que começou a surgir o fenômeno brasileiro no Orkut, eu passei a ficar ainda mais interessado na relação entre internet e Brasil. Eu via na internet um Brasil possível, um Brasil estranho, bizarro.

Nos meus dois filmes anteriores, “Como Nascem os Anjos” de 1996 e o “Seja o Que Deus Quiser” de 2002, eu estava discutindo um outro Brasil, uma outra visão do Brasil. O “Como Nascem os Anjos”, o filme dos dois garotinhos na favela, é uma tragédia anunciada. O que é óbvio. O quê eu ia fazer ali? Não dava para modificar aquele fim, eu só radicalizei o fim. Mas, na verdade, eu construí aquilo como uma brincadeira, como uma tentativa de discutir o verossímil no cinema. Todas aquelas citações são irreais, são inverossímeis, uma discussão de como a gente consegue criar verdade no cinema. No entanto, o que ficou dali foi a questão da cidade partida; o filme foi visto mais como um precursor da discussão da cidade partida, que pra mim, mesmo naquele momento, já era uma coisa meio velha. Eu não queria focar nisso, até porque as crianças estão brincando com isso, tem um tom de comédia evidente no filme, de brincadeira evidente, como tem no “Seja o que Deus Quiser”. Mas, quando você brinca com divisões, com questões tão grandiosas desse Brasil dividido, desse Brasil desigual, você não é muito perdoado, as pessoas não têm jogo de cintura para brincar com isso e essas duas brincadeiras minhas meio que se deram mal.

Então, resolvi fazer uma outra operação nesse filme novo. Tudo partiu da Internet e do Orkut. Foi por acaso que descobri a Clarah Averbuck. Estava lendo a coluna da Cora Rónai no Globo, quando descobri que naquela época, final de 2002, o Blog da Clarah era um dos blogs pessoais mais vistos no mundo. Fiquei interessado. Mandei um e-mail para a Clarah e ela me respondeu imediatamente. Tudo rolou muito rápido, comprei os direitos do livro com um dinheiro que tinha ganho num desenvolvimento de projeto da Telemar e fechamos o contrato. Foi então que parei para ler o livro. Só que naquele momento eu não estava dando conta, estava finalizando o “Seja o que Deus Quiser” e logo depois eu tinha o projeto do “Árido Movie” com o Lirio. Então, me afastei um pouco do projeto.

Chamei a Elena Soarez e a gente conversou muito sobre a Clarah e sobre essa questão do narrar. Convidei-a para escrever o primeiro tratamento. A pegada da Elena foi mais pela comédia, ela fez um roteiro cômico. No roteiro, tinha a presença de uns dez fãs como personagens. Acontecia uma série de relações, os fãs iam procurar a Camila e não a encontravam nunca; enfim, o filme ia muito por aí.

Esse roteiro ficou guardado por um tempo. Quando reli, quis desistir do projeto. Não me via ali, eu não achava graça naquilo, quer dizer, eu achava graça nessa questão do que é real e o quê é virtual, essa questão de construção de narrativa. Agora, o roteiro da Elena tinha uma coisa muito legal, que é essa estrutura que o filme tem hoje. Quer dizer, eu fiz algumas modificações, tirei os fãs e comecei o filme com a Camila se separando. Quis manter a Camila, a minha Camila, se comunicando com os fãs, mas pouco e totalmente enclausurada. Eu parti para a clausura e a partir daí comecei a descobrir a questão da paixão. Fui me esfregando, tentando me descobrir ali. Até porque, nesse momento, eu já tinha gasto um dinheiro, tinha que fazer o filme. Eu disse: “cara como eu vou fazer esse filme?” Eu tinha que criar uma pega, eu tinha que me jogar inteiro, para dentro.

Então, até que ponto está o Murilo no filme? Na verdade, durante três anos eu fui descobrindo o filme, fui me empenhando profundamente em descobrir o que eu queria. Fui descobrindo as questões da paixão e do transbordamento. Durante três anos fui me tornado a Camila, descobrindo a minha Camila. Eu até brincava com a Clarah, dizia: “Eu sou a melhor Clarah Averbuck”. Porque, na verdade, a escrita é da Clarah, seria da Clarah, só que eu fui descobrindo outros temas. Fui querendo tornar minha personagem mais densa, menos piadista; fui tornando-a mais entregue à paixão, mais desesperada com a busca dos seus contornos, de se jogar e se arrebentar, de se entregar aos homens para descobrir os seus limites. Pois, é assim, homens e mulheres só descobrem os seus limites se entregando às aventuras amorosas e paixões, até que um dia encontramos alguma coisa além, encontramos a nós mesmos.

O Felipe Bragança fez uma piada, lá no Festival de Tiradentes, dizendo que aquela outra Camila, a que aparece no final do filme, sou eu. E ele está certo, eu sou a melhor Camila.

FELIPE MESSINA
O roteiro do filme apresenta uma série de lacunas, desde o princípio. O espectador pode simplesmente ignorar a falta de informação anterior à cena ou pode abstrair e criar seus próprios preenchimentos destas gavetas entreabertas. Do ponto de vista da construção do perfil da personagem, partimos de uma situação em que não sabemos nada sobre a anterioridade da briga entre Camila e seu namorado. As possíveis “razões” que a levaram a ser pega na cama com outro homem são apresentadas em suas falas iniciais, cada um pode construir a pré-separação da forma que quiser. Na seqüência, “conhecemos” melhor os episódios vividos por Camila. A obsessão e a compulsão; a exposição de sua vida pessoal; as repetições dos episódios de transas com outros amantes; o surgimento da mãe e de relacionamentos mais próximos; a entrega que faz à literatura. Expostos em ordenamentos distintos, as facetas de Camila podem gerar ao espectador um apreço diferente pela personagem. As seqüências do filme, em vários casos, poderiam ser apresentadas em outra ordem e construir uma terceira narrativa e ainda conter o sentido principal. Como foi o processo de elaboração do roteiro e o que definiu o percurso de construção da personagem?


(Felipe Messina, jornalista formado pela UFRJ, cobriu o circuito de festivais de cinema para o site Imprensa Jovem (2000 a 2004). Atualmente escreve para o DocBlog da Globo.com, editado por Carlos Alberto Mattos. Dentre os textos destacados: cobertura e redação de resenhas do É Tudo Verdade (2007/2008) e Festival do Rio (2007). Como realizador, produz com outros parceiros um filme sobre o projeto Semente da Música Brasileira e seus bailes no Clube dos Democráticos)

MURILO SALLES

Nome Próprio realmente poderia ter sido apresentado, montado, em diversas ordens, construindo outras narrativas. Inclusive, já tivemos 4 horas e 30 de filme montado, não de material bruto; 4h e 30 de material editado mesmo. Na versão que foi para o cinema, ele tem 1 hora e 54 minutos de filme corrido. Obviamente a gente tirou muita coisa, mexemos em muita coisa, inclusive criamos algumas descontinuidades, o que as pessoas reclamam um pouco.

Mas, eu concordo: poderíamos ter ordenado esse filme de diversas formas. Só acho que aprendi com esse filme que quando escolho uma palavra, uma cena, estou fazendo uma opção de recorte, um recorte pessoal daquele universo. O que tomei mais cuidado no roteiro foi para construir uma narrativa de uma narrativa. Nós filmamos com esse intúito, isso não foi inventado na montagem.

Eu tinha uma versão para o final do filme com Camila escrevendo num caderninho, a câmera saia do caderno e vai subindo até chegar ao olho, até um close. Um plano lindo da Leandra, só o olho dela em foco. Esse era um movimento que eu acreditava representar a passagem da literatura para o cinema. Ela escrevia num papel, toda a imagem fora de foco, quando terminava de escrever, a câmera ia subindo pelo braço dela e só focava quando chegava no olho. Achava que era nesse rito de passagem onde eu inaugurava a questão do cinema. Mas, tudo isso foi tirado.

Estou contando isso pra dizer que eu construí uma narrativa suficientemente suculenta para que eu pudesse mexer depois na montagem. O Roteiro já foi escrito pensando na posse da escritura, dos textos sob a tela; na segunda camada de significados que você comentou na sua primeira pergunta. Mas, você transformou essa questão em três camadas diferentes que se interpenetram. Eu tenho uma tendência a achar que são apenas duas. O tempo todo existe esses dois campos.

Construí o filme de forma a ter opções na manga. No roteiro eu já tinha várias cenas da Camila escrevendo no teclado, pois eu sabia que o tempo todo eu poderia cortar pra tela, enfim, ele já tinha alguns recursos que eu poderia usar e que sabia que seriam úteis na edição. O roteiro não foi feito com nenhuma artimanha, ele foi feito com o que está no filme, aliás, esse filme é muito fiel ao seu roteiro. Eu não improviso, eu improviso na hora de roteirizar. É ali que eu decido o quê quero e o quê que eu não quero. A hora de roteirizar pra mim é a grande hora criativa, é por isso que eu fico dois anos escrevendo um roteiro.

Gosto de escrever de forma que eu já começo a cena no meio; nunca revelo os prolegômenos e tento evitar o fim da cena também. Esse filme já começa com o que eu chamo de liturgia da suspensão. Existe esse desejo meu de criar uma situação sem os seus alicerces. Apesar de eu fazer um cinema narrativo, tento desconstruir as determinações que constroem uma cena. Fico criando o espaço, a cena, quero remeter para o cinema. Não interessa a historinha, interessa sim o cinema.

A primeira cena do filme, por exemplo, remete para um estado suspenso, tão suspenso que várias pessoas acham que a Camila nunca teve uma relação séria na vida. Como assim? Como as pessoas podem achar isso? Isso acontece porque há uma falta do olhar de cinema, dessa questão do tempo. E a depressão de Camila? E a destruição dela e do Felipe? Os dois estão destruindo uma relação, ninguém destrói uma relação desse jeito sem que tenha sido uma relação impactante. Felipe e Camila eram intensos, tinham uma relação séria e de longo tempo; acho que isso está claro no filme.

As pessoas acham que a Camila é uma piranha, por quê? Por causa do machismo dominante. O filme é muito sobre isso. Aliás, eu postei um texto com esse tema: Quem tem medo de Camila Lopes, um texto que discute esse machismo; um machismo que existe inclusive na cabeça das mulheres.

Estaremos publicando ao longo desta semana a entrevista feita por Felipe Messina e Juliano Gomes com Murilo Salles, a cerca do processo de construção do filme Nome Próprio. A cada dia, postamos uma das seis perguntas.

FELIPE MESSINA:

Nome Próprio é um filme focado primordialmente em seu personagem principal. Desde o principio acompanhamos os choques e as rupturas que Camila sofre com seus espaços e as relações que a circundam. É possível absorver uma leitura dual entre uma vivência impregnada de um espírito de liberdade ou de um sabor de aprisionamento. Talvez uma falsa liberdade, talvez uma falsa prisão, talvez uma prisão libertária. Dentre os espaços construídos no filme, notamos fortemente três camadas principais, três espaços principais: o espaço das relações pessoais, o espaço da criação artística e o espaço físico do mundo e seus cubículos de cimento. , A imagem e as relações destes lugares são fortemente construídas do ponto de vista visual. Eles se confundem e se mesclam na trama e no quadro. A vida pessoal com o blog e seus leitores, os quartos e os planos fechados (em circunstâncias que beiram a claustrofobia) e as letras que invadem a tela. Cada qual com uma marca específica mas que, em alguns momentos, transbordam uns para os outros. Como foi o processo de elaboração destas imagens, da formação dessas diferentes camadas? Em que momento do processo de criação do filme esta questão surgiu? Era uma preocupação inicial já na elaboração do roteiro? Como se deram as etapas de construção desta interação dos espaços de Camila?

(Felipe Messina, jornalista formado pela UFRJ, cobriu o circuito de festivais de cinema para o site Imprensa Jovem (2000 a 2004). Atualmente escreve para o DocBlog da Globo.com, editado por Carlos Alberto Mattos. Dentre os textos destacados: cobertura e redação de resenhas do É Tudo Verdade (2007/2008) e Festival do Rio (2007). Como realizador, produz com outros parceiros um filme sobre o projeto Semente da Música Brasileira e seus bailes no Clube dos Democráticos)


MURILO:

Esse filme fala mesmo pela imagem; mas a imagem vista em todo o seu complexo, quer dizer, com texto, com som. Vc fala em três camadas, mas a sonoridade também poderia ser uma quarta camada. O Léo tinha comentado que achava que a quarta camada seria o imaginário de Camila. Eu acho que isso está na mescla dessas três camadas que vc comenta; a quarta camada seria mesmo o som, o uso do som.

O processo de elaboração das imagens foi feito aos poucos, foi sendo construído por camadas mesmo. Existiu primeiro um olhar sobre o trabalho da Clarah Averbuck, sobre o que me interessava na Clarah. Era um olhar sobre as historias dela, não um olhar sobre a sua literatura. A literatura dela não me interessava, nunca me interessou. Me interessava o factual das histórias e também a operação que ela fazia. Na verdade, esse filme fala mais da Clarah do que do livro dela. O que me interessa é a sua operação: uma menina querendo ser escritora, que se isola, que escreve um blogue e que usa a sua vida para criar os contornos da sua literatura.

Existia também a questão sobre a construção de narrativa, que pra mim é também o segundo vértice ou vertente importante. Na verdade, eu acho que esse filme tem duas camadas, com subcamadas que se interpolam. Para mim, existe a camada que é a historinha factual e existe a história que está sendo narrada.

Como você mesmo coloca, Felipe, essa é uma parábola da contemporaneidade; uma falsa sensação de universalidade que a gente tem através da Internet. Esse paradoxo acaba criando uma clausura de verdade. Nós somos obrigados a estar fixados à tela do computador para estarmos conectados com o mundo, e isso é um paradoxo. Hoje em dia, com a Internet mudando para o celular, talvez isso mude. Mas, no momento em que o filme se passa, em 2001, não havia jeito, para ganhar a liberdade virtual você tinha que perder a real, tinha que ficar confinado.

Então, existe o nível das histórias da Camila, da sexualidade de Camila, da afetividade de Camila, dos transbordamentos dela. Mas, tem também existe toda uma intenção de criar um segundo nível, o nível de quem está escrevendo essa história e que vai possuindo lentamente o filme. O primeiro corte tinha uma câmera que era o olhar daquele personagem final. Acabei cortando essas câmeras da montagem porque tive medo de ficar muito claro, de bandeirar demais. Eram câmeras em geral mais tremidas, uma linguagem meio MTV, camerazinha tremidinha, na mão, fechada ... Eu não queria trazer isso para o filme, não tinha nada a ver; esse filme é um filme clássico, ele é filmado classicamente, apesar de ter planos bacanas, ele tem uma tranqüilidade na linguagem que foi muito procurada, pensada.

O que ficou no filme foram as câmeras de cima, que provocam um lugar de um olho, um olhar de Deus. Por exemplo, quando eles estão transando na praia, a Camila e o namorado que ela rouba da amiga, da Mary, é um olhar de Deus, de cima; como se levantasse a pergunta: quem está olhando ali? E não é apenas a câmera que aponta para esse personagem que está "fora". O texto da praia, que aparece escrito sob a imagem da transa, é pungente, domina e avassala a cena. Aquele é um texto que avassala, porque aquilo é um pensamento! Tem alguém pensando aquelas frases, aliás, a estrutura toda da praia; desde a utilização do sambinha. A cena do sambinha foi criada para gerar estranhamento com aquela situação, um distanciamento mesmo, porque aquela música é a única música que não tem nada a ver com o filme. Aquilo é para nos remeter à idéia de que tudo ali pode ser ficcional. Por exemplo, a chegada do Henry na praia, como é que ela se dá? Tudo ali está no limiar. E aquela praia? Onde é aquela praia? Se você observar bem, não tem nenhum carro passando. A gente ficou ali esperando até não passar nenhum carro. É a Av. Atlântica, mas ela está vazia, ninguém passa ao fundo, nenhum carro passa ao fundo, não tem seres habitando aquela cidade, é uma cidade vazia.

É nesse sentido que foi feita toda a construção do filme. A gente filmou em três apartamentos. Tinha uma operação inicial mais radical, que ia desvendar essa questão. Só que, já na primeira montagem, ficou claro que era muito didático. Revelava-se muito claramente a casa, o nome da autora final. A autora final, aquela da última cena do filme, tem um nome, Beatriz. É ela lá no bar com o homem de Ribeirão Preto. É a Beatriz, não é Camila. Enfim, é real. Tudo nesse filme é real, por isso ele se chamava uma história real.

Existe realmente essa tentativa de construir uma operação de alguém que está pensando aquele narrar, possuindo aquele narrar. Por isso, os textos vão para a tela. Isso pode parecer uma outra camada, mas não é. É a mesma camada. Não existe essa quarta camada que o Léo Bittencourt associava à imaginação. Na verdade, esse filme só tem duas camadas: o real, a historinha de Camila, e o pensado, o construído, que talvez seja a história que Beatriz esteja construindo e impregnando o filme, possuindo todo o filme com ela. No entanto, ela só se revela totalmente na última cena.

36° Festival de Cinema de Gramado - Coletiva de imprensa com a equipe do filme Nome Próprio. Foto Edison Vara/PressPhoto

Aconteceu nesta manhã o debate sobre o filme Nome Próprio. A platéia do Auditório Locatelli foi composta por críticos de cinema, estudantes, jornalistas e pelo júri popular, além de cinéfilos. O diretor Murilo Salles, a escritora Clarah Averbuck, a co-roteirista Viviane Mosé e o diretor de arte Pedro Paulo de Souza fizeram parte da mesa de discussões.

Murilo falou sobre o processo de construção da personagem Camila, interpretada por Leandra Leal. Para o cineasta, a elaboração se deu muito através da cumplicidade estabelecida entre eles. “Ou a Leandra ‘comprava’ o projeto junto comigo, ou o filme não teria acontecido. Neste sentido, acho que ela é co-autora da produção”, salienta Salles. Para o diretor, ao contrário do que possa parecer, existe pouca casualidade na produção”. Murilo diz que houve espaço para improviso, mas havia um roteiro bem estruturado para ser seguido.

Para Salles, a escolha de Leandra Leal foi um grande acerto. Murilo considera que existe o ator certo para um determinado personagem. “Vimos vários testes e o da Leandra se impôs com contundência máxima”, elogia. O filme foi realizado com tecnologia digital. Para o diretor a câmera foi fundamental nesse processo. “A Camila está nua o tempo todo, mesmo quando está vestida. Isso exige uma postura de câmera diferenciada”, comenta.

O diretor de arte Pedro Paulo de Souza salientou que todos os objetos de cena foram escolhidos de forma que houvesse uma ligação verdadeira com a personagem. Deste modo, os livros, os CD’s, ou qualquer outro elemento cenográfico estabeleciam uma ligação verdadeira com o universo de Camila.

Para Leandra Leal o convite para viver Camila representou um desafio aos seus limites. “Decidi aceitar esse papel porque quis como atriz fazer esse trabalho radical de entrega. Pensei: é aqui que eu vou gritar para mim mesma que eu sou atriz. Foi muito gratificante”, revela Leandra.

Para Clarah Averbuck, o autor deve manter um distanciamento da produção e não interferir no resultado final. “Autor bom é autor morto. Autor não tem que se meter e reclamar”, mas a escritora diz que gostou do filme e que havia ficado claro desde o princípio que o longa seria inspirado em sua personagem, mas não seria a filmagem fiel de seu livro Máquina de Pinball, obra que deu origem ao longa.

Viviane Mosé, poetisa e co-roteirista de Nome Próprio passou a integrar o filme na fase final, quando a captação de imagens estava praticamente pronta. Alguns de seus desafios consistiam em resgatar a questão do transbordamento e do excesso. Mosé finalizou todos os textos de os off’s e, também, os que aparecem na tela.

Fonte: Assessoria de Imprensa do Festival de Gramado

36° Festival de Cinema de Gramado - Coletiva de imprensa com a equipe do filme Nome Próprio. Foto Edison Vara/PressPhoto

Alemir Coletto, Presidente do Festival de Cinema de Gramado, a atriz Leandra Leal e o diretor Murilo Salles do filme Nome Próprio. Foto Edison Vara/PressPhoto

Alemir Coletto, Presidente do Festival de Cinema de Gramado, a atriz Leandra Leal e o diretor Murilo Salles do filme Nome Próprio. Foto Edison Vara/PressPhotoo

Seguindo a onda de refletir sobre o filme a partir de vários aspectos, 2a feira dia 28 de julho vai rolar o debate "Blografias". Quem for ao cinema ver a última sessão, às 20:30, poderá depois acompanhar o debate no qual os escritores/blogueiros Ana Paula Maia, Maria Rezende e Ramon Mello se reúnem com a crítica literária Beatriz Resende e o cineasta Murilo Salles para um papo sobre a (r)evolução dos blogs no Brasil.

Quem tá organizando tudo é o Ramon, jornalista que se formou defendendo uma monografia com esse nome e, além de blogueiro e escritor, edita o bacanérrimo 'Click(IN)VERSOS', blog de entrevistas com novos autores.

Fiquem ligados: 2a feira, 28 de Julho, em seguida à sessão das 20:30, no cinema Armazém Digital no Rio Design Center do Leblon.

Murilo Salles - cineasta, diretor de fotografia e roteirista.

Beatriz Resende - crítica literária, professora de Literatura Comparada e Teoria Literária da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), coordenadora / pesquisadora do Cnpq da Universidade do Rio de Janeiro (UNI-RIO).

Ramon Mello - escritor e jornalista, autor do livro "Tumorgrafias" (Editora Cartaz/2006). Mantém o blog 'Sorriso do Gato de Alice' e o Click(IN)VERSOS, no portal Click21 – especializado em entrevista com jovens escritores. Atualmente, finaliza o seu primeiro romance 'all star bom é all star sujo'.

Maria Rezende - é poeta e fala poesia. Em 2003 lançou seu primeiro livro de poemas, 'substantivo feminino'. Com Rodrigo Bittencourt dirigiu por três anos o projeto multimídia Te vejo na Laura. Teve poemas publicados na revista Playboy e na antologia Imagining Ourselves, do International Museum of Women de São Francisco, ao lado de obras de mulheres do mundo inteiro. Prepara o lançamento do segundo livro de poesias, 'Bendita Palavra' (7Letras), para novembro de 2008, e publica no mariadapoesia.

Ana Paula Maia – carioca, autora dos romances "O habitante das falhas subterrâneas" (7 letras/2003) e "A Guerra dos Bastardos" (Língua geral/2007). Participa de diversas antologias, entre elas, "25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira" (Record/2004). Em 2006 publicou na internet a novela "Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos". Escreve na web no bBlog 'Killing Travis'

Dizem que Camila é explosiva, apaixonada, louca. Uma mulher. Uma mulher complexa. Nessa semana vamos colocá-la contra a parede! Analisar cada ato, cada pulsão, entrar ainda mais em seu mundo tão peculiar.

Amanhã, dia 21, terça, 22, e na quinta, dia 24, faremos uma seqüência de debates no Armazém Digital do Leblon, no Rio. Quem for ao cinema ver a última sessão, às 20:30, poderá acompanhar o debate com o psicanalista e dramaturgo Antonio Quinet, na segunda, com a filósofa e poetisa Viviane Mosé, na terça e com os Psicanalistas Cláudio Campos Filho e Lindemberg Rocha, na quinta. Todos os debates contaram com a presença do diretor, Murilo Salles.

Aguardamos vocês.

HOJE, quarta-feira, às 19hs na Fnac Pinheiros, em São Paulo, vai rolar bate-papo e lançamento do filme “Nome Próprio” com a presença de Clarah Averbuck e Murilo Salles. Eles discutem sobre os caminhos e segredos de uma adaptação cinematográfica. Também integram a mesa os escritores Xico Sá e Marcelino Freire.

A Fnac Pinheiros fica na Av. Pedroso de Moraes, 858, Fórum de Eventos, 3o. andar. O telefone é (11) 3579-2000. Entrada Franca. Capacidade 100 lugares. Chegue cedo para garantir o seu lugar!

Sallomão se antecipou e já abriu o debate com um bonito texto nos comentários deste post!

A Black Curtain promovida pelo MySpace Brasil para a pré-estréia de "Nome Próprio" lotou uma das salas do Unibanco Arteplex ontem, em São Paulo. Leandra Leal, Murilo Salles, Clarah Averbuck e grande parte do elenco e da produção estiveram presentes.

Público chegando à sala

Promoters MySpace Brasil

Leandra Leal e Murilo Salles

Leandra Leal

Depois da sessão rolou um acalorado debate entre Murilo, Leandra e Clarah, que defenderam suas idéias e responderam perguntas da platéia.







E foram apresentados os vencedores do concurso de trailer, Philippe Grilo e Léo Grijó.


Nossos agradecimentos à toda equipe e usuários do MySpace Brasil, ao Unibanco Arteplex, Pro Cultura, Philippe e Leo e todos que apostam e acreditam nesse grande trabalho conjunto!

Vejam mais fotos da pré-estréia em nossos álbuns no MySpace, Orkut e Flickr.

Update: Matéria da MySpace TV com entrevistas c/ Leandra, Murilo, Clarah e presentes na sessão.

O filme "Nome Próprio", de Murilo Salles, terá pré-estréia grátis para usuários do MySpace neste domingo, 13/08, Dia Internacional do Rock n' Roll

Depois de curtir trechos exclusivos e montar o trailer do filme, agora os usuários do MySpace poderão conferir o longa-metragem "Nome Próprio" antes mesmo da estréia nos cinemas. E o que é melhor: de graça. A exibição será no dia 13 de julho, domingo, às 21h30, no Unibanco Arteplex, sala 9, em São Paulo.

A exibição contará com a presença do diretor Murilo Salles, da atriz Leandra Leal e da escritora Clarah Averbuck, que depois da sessão, terão uma conversa com todos os presentes!

Para pegar a PULSEIRA que dará acesso à sessão é simples:

- Imprima seu perfil MySpace
- Vá até o Unibanco Arteplex do Shopping Frei Caneca e procure os promotores MYSPACE. Daí, é só trocar o perfil pela pulseira que VALE COMO INGRESSO PARA O FILME!

Os promotores estarão no local neste domingo, das 14h até a hora do evento! Não deixe para a última hora!

O Unibanco Arteplex do Shopping Frei Caneca fica na Rua Frei Caneca, 569, 3o. piso, próxima à Estação Consolação do Metrô, em São Paulo, Capital.

www.myspace.com/nomepropriofilme

Tire seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor.
Guilherme de Brito em música de Nelson Cavaquinho.

Este POST é uma homenagem / é tirado do livro ‘O Ponto da Partida’, o novo romance de Fernando Molica
Fernando me fez perceber que a “minha” Camila (que discussão pequena e imbecil!) , na verdade, descobri isso na semana passada, é uma homenagem a Nelson Cavaquinho. Assim se refere a ele o personagem principal do Fernando:
“O Nelson sempre viveu ferrado, sempre tomou porrada, sempre se lixou pra essa porra de mercado. Tava com fome? Vendia um samba, o dono do boteco virava parceiro porque deixou o Nelson comer de graça. Nelson do Cavaquinho foi o compositor mais generoso da música brasileira. Tem parceiro dono de boteco, de puteiro, gerente de hotel vagabundo, de espelunca. Os herdeiros desses caras devem estar até hoje orgulhosos: papai foi parceiro de Nelson Cavaquinho. É, parceiro: entrou com o bife, com o quarto, com a puta. Quer saber? O Nelson estava certo, danem-se. Chegou a dizer isso num samba dele e do Guilherme: “Eu que já vaguei nas madrugadas / E já fui o dono das calçadas / Pra todos aqueles que me estenderam a mão / Dividi meu coração. Olhem só que coisa superior: “Dividi meu coração”. Ele não reclama, não diz que foi salvo, que comeu, que bebeu, que trepou graças aos que lhe estenderam a mão. E, em troca, simplesmente, dividia seu coração. Poderia ter uma vida melhor? Podia. Mas não seria o Nelson Cavaquinho, o dono das calçadas.

Murilo Salles.

Exibição contará com a presença do diretor, da atriz Leandra Leal e da escritora Clarah Averbuck

Depois de curtir trechos exclusivos e montar o trailer do filme, agora os usuários do MySpace poderão conferir o longa-metragem “Nome Próprio” antes mesmo da estréia nos cinemas. E o que é melhor: de graça. A exibição será no dia 13 de julho, domingo, e contará com a presença do diretor Murilo Salles, da protagonista Leandra Leal e da escritora Clarah Averbuck. A cidade e o local dessa sessão exclusiva serão anunciados no dia 08, no perfil do filme (www.myspace.com/nomepropriofilme).

“Nome Próprio” é uma livre adaptação cinematográfica dos livros "Máquina de Pinball" e “Vida de Gato”, de Clarah Averbuck, e de seus textos publicados na Internet, no site e no seu blog pessoal. Clarah é um jovem talento que migrou do boom de blogs da internet brasileira para a literatura. O longa estréia dia 18 de julho nos cinemas.

A pré-estréia exclusiva faz parte de uma série de ações do filme no MySpace. Vídeos exclusivos, teasers e cenas que não entraram no longa-metragem já estão disponíveis na rede e o público pôde interagir com a obra pela promoção “Monte Seu Trailer”. Foram disponibilizados 20 minutos do filme para que os usuários criassem o seu próprio trailer até o dia 6 de julho. O vencedor entrará nos extras do DVD, ganhará destaque na home da rede social e será exibido no dia da pré-estréia.

Estamos postando agora a segunda parte do texto que Murilo Sales distribuiu para a equipe, durante o processo de concepção de Nome Próprio.

Na verdade, esse não é um texto sobre o filme, mas sobre o próprio Murilo. Sobre as suas buscas pessoais, visuais, éticas. Um pedido de comunhão à equipe, de comunhão estética.

Um texto de quem está à procura. À procura de cinema, de um cinema de liturgia.



Que filme estamos fazendo? II
texto escrito em 26/02/2006


Cinema de Liturgia

Procurei por um tempo um conceito que pudesse definir um certo cinema que persigo e que gosto. Não sou um cineasta que faz o "cinema de poesia" Pasoliniano por definição, como Rui Guerra em Estorvo, ou Julio Bressane em Filme de Amor. Meus filmes são narrativos, gosto de emocionar, gosto do "como contar" histórias, quer dizer, gosto de linguagem.
Portanto, persigo um cinema que se constrói pela imagem, por isso gosto MUITO do L'Humanité e de Elephant, que são filmes que narram histórias mas que constroem sua forma específica e absolutamente criativa de narrar, pela imagem. Ser narrativo não é oposto de ser inventivo ou criativo. Bertolucci é narrativo e Godard faz cinema de poesia, não narrativo. Eu gosto muito de ambos.
Faço cinema para me entender no mundo e entender o mundo. Gosto de olhar, não é à toa que sou fotografo. Acho que esse filme vai ter uma levada contemplativa.
Temos que descobrir a forma para contar essa história real. Formular os conceitos que irão nortear nosso trabalho.
Então, quero definir um estética, uma ética cinematográfica.
Fui então procurar um conceito que definisse o que visualizo como estética narrativa imagística. Nessa busca, me lembrei da minha primeira comunhão. Sim, sou de família católica, principalmente meu pai. Fiz primeira comunhão. Vivi o ato da minha "primeira comunhão" com muita intensidade.
Essa lembrança me levou ao "insight" de que a intensidade simbólica da comunhão é muito cinematográfica e define com bastante clareza o que PROCURO quando penso como fazer um filme: fazer um cinema radicalmente cinematográfico.
O momento da "comunhão", com seu ritual, com os sinos tocando, com o mantra rezado pelo padre, o eco dos sons na igreja, o gestual do padre em "elevar a hóstia", o cálice de ouro, os crentes de joelho, tudo isso adiciona sentidos para criar uma narrativa para emocionar quem acredita.
Mas quero chegar nisso: é pura imagem, é pura encenação, a música (os sinos tocados pelo sacristão), o efeito (o eco, a espacialidade da igreja) a locação, o ator/personagem (padre) etc. Tudo é som+imagem, com poucas falas (mais mantras). Tudo formatando uma narrativa para emocionar.
Poderia dizer o mesmo de uma cerimônia de um casamento judaico, ou um ritual de iniciação no Candomblé. São encenações cheias de sentido narrativo com extrema força visual. Isso é CINEMA.
Por isso intitulo a idéia do cinema que persigo de "cinema de liturgia".
Ícones do meu cinema de liturgia:
GESTOS - gestual é uma "ação" muito cinematográfica. Procurar gestos delicados, intensos, descontraidamente desenhados. Falar com o CORPO. O gesto pensa.
OLHAR - Falar com os olhos. A história do olho, olhar. Um órgão investigador, com "pulsão própria", que cria uma linguagem própria. Uma forma particular e específica de produção de linguagem.
ATITUDE - a atitude é embutida, é gestual, é espiritual, é ideológica, é POLÍTICA.
Se expressa pela voz, pela entonação da voz, pelo vestir, pelo andar, pela ocupação do espaço. Sai pelo gesto. Sai pela fala, pelo conteúdo. Atitude.
TEMPO - A elaboração do tempo interno da ação e da emoção. O tempo da explosão histérica. O tempo da contemplação. O tempo do speed químico. O tempo de tomar uma atitude. A elaboração do tempo em suas diversas matizes, que sempre deve nos surpreender. A repetição (dos tempos internos e da ação) leva à banalização porque torna o tempo previsível. O tempo, sempre, tem que nos surpreender.
ESPAÇO - O espaço é nosso palco. Mas no cinema ele é tridimensional. O espaço fala. O espaço tem conceito. Nossa ação no espaço diz sobre nós e o que queremos, um dizer visual, icônico. Espaço é vital nesse filme.
ROUPA - Nossa segunda pele. Nossa atitude. Nosso desejo, nossa limitação. Nos representa e nos enclausura. Por isso, Camila despe-se.
RITUAIS CORPORAIS - Estou interessado nos rituais corporais de nosso cotidiano. Nosso desafio é converter atividades básicas tais como, comer, escrever num computador, tomar banho, limpar a casa, em processos esculturais. Usar o gesto para preencher o espaço de forma escultural, em dinâmica com a pulsão que emana da energia do personagem na cena. O processo escultural é o resultado formal do uso dessa pulsão gestual.
O corpo é o lugar de criação nesse filme.
Uma autenticidade que é construída na/pela ficção.
O que esse filme revela? A 'honestidade existencial' de cada um dos personagens. Por mais diversos e estranhos que os personagens sejam, eles têm que emanar uma integridade existencial para serem verdadeiros.
Nada nesse filme deve ser composto com um olhar de fora, de nós os artistas técnicos. Devemos pensar, criar e trabalhar a partir das subjetividades que irão emanar dos personagens. Vamos ajudar os atores a construir essa subjetividade.
Por exemplo: o figurino são roupas que os personagens usam na vida normal/real, os "looks" não são "looks", o "look" é uma palavra que vem da MODA e aqui não existe moda, existe a atitude de cada personagem.
Cada um deles tem que emergir com verdade orgânica e singular. Temos que construir essa subjetividade no todo da imagem que CERCA o personagem. No espaço, nos objetos, na roupa, nas cores, na luz, na locação.
A continuar... um dia.

Há muitas instâncias em uma mesma arte. Fazer cinema. Pensar o cinema. Pensar o cinema dentro dos próprios filmes, metalingüisticamente. É possível também pensar o cinema ao fazê-lo, pensar de dentro mas olhando de cima, pra fazer melhor.

Foi isso que o Murilo resolveu fazer logo antes do início das filmagens de "Nome Próprio", que ainda se chamava "Uma história real". Esse texto, que vamos publicar em duas partes, propunha à equipe uma reflexão sobre o filme, sobre cinema, pra que todos juntos fizessem o filme que eles queriam fazer, e não o filme que surgisse. Um filme pensado, sem perder a espontaneidade.

Aqui é possível ver (ler) o início do processo de construção de "Nome Próprio". Uma espécie de making of dos pensamentos. Um privilégio, portanto, ter acesso a esse material. É pra ler, reler, e refletir...

Que filme estamos fazendo?

texto escrito em 28/01/2006 e enviado a equipe de Uma História Real

Este texto serve para o exercício de conceituação do filme.

Para ajudar a pensar e a investigar sobre o filme que estamos fazendo.

Esse filme, em primeiro lugar, é uma homenagem à ficção. É na ficção que o homem experimenta o seu melhor e pior, é o lugar onde ele formula seu ideário artístico e existencial, seu sonho, sua utopia; onde exalta de alegria, onde expõe seu sofrimento e sua perplexidade diante do desconhecido.

A ficção é a mais sofisticada forma de "representação" dos humanos. Podemos pensar num quadro de Renoir como uma ficção, ou qualquer outro pintor. A obra de Duchamps é FICCIONAL TOTAL, é pura "produção de pensamento".

Vamos ao que interessa. NOSSAS QUESTÕES:

Que cinema queremos praticar?

Do que trata esse filme?

Essas duas são as questões básicas sobre as quais devemos nos debruçar.

Pensar que tipo de cinema nós queremos fazer, que narrativa queremos construir.

Sem essa reflexão não vamos produzir nada que seja específico, singular, "desse filme", com a personalidade que o filme necessita.

Como fazer deste filme um filme delicado (pois se trata de um filme sobre feminilidade) e brutal (pois fala, ao fim, como sempre, sobre a vida) ao mesmo tempo?

Como filmar a história de Camila?

Essa história tem que emanar muita verdade. Mas não como num documentário, pois documentários são construídos pelo rigor/pensamento -montagem- no uso do acaso.

Na ficção trabalhamos muito mais com a construção de linguagem.

Construir uma história com uso, gasta pela sua trajetória, pelo seu tempo anterior.

Uma história reforçada por detalhes que nós, que trabalhamos criativamente no filme, vamos 'adicionar' de nossas histórias pessoais na história real. Só assim construímos algo com singularidade: verdadeiro?

Quais TEMAS abordamos nessa história real?

1- Desamparo: Camila se largou na vida. O filme é um rito da afirmação desse desamparo. Sem tal enfrentamento, não nos tornamos humanos viáveis. É um filme sobre desamparo, sobre gente desamparada, largada no mundo e que tem que dar conta de tudo sozinha(os)

2- Feminilidade: Um filme encarnado em uma MULHER. Inevitavelmente um filme sobre o feminino. Assunto cabeludo. Podemos iniciar conceituando que é um filme sobre excesso.

Excesso da presença da protagonista: desejos, obsessões, dificuldades, prazeres. Por isso, um filme difícil para mim, Murilo. Para tal tarefa me cerquei de mulheres sensíveis e inteligentes, desde o roteiro e, principalmente, na filmagem. Dependo da sensibilidade e inteligência das minhas companheiras de equipe. Preciso do olhar atento e da razão crítica aguçada das minhas colaboradoras para que o "olhar sensível" do filme seja, se possível, organicamente feminino.

Estamos postando hoje um texto sobre a fotografia de Nome Próprio.

Fotografia como extensão do corpo, do olho do diretor. Diretor que é fotógrafo e câmera. Uma fotografia nascida da relação de intimidade entre dramaturgia, atriz e espaço.

O diretor Murilo Salles apresenta a estética de Nome Próprio, filme olho.



FILME OLHO

Nome Próprio é um filme olho.

É o resultado da esfregação do olho de uma câmera com a potência do corpo encarnado de uma atriz.

Esse filme também é a história da conjunção do Diretor com o Fotógrafo num ser. É o primeiro Longa em que Murilo Salles/diretor é também co-fotógrafo e principalmente câmera.

Nome Próprio foi feito com uma equipe pequena por opção estética, porque é um filme sobre intimidade. Qualquer ruído entre a câmera e a atriz dispersaria a energia que fluiu entre um corpo sujeito e a lente.

Camila existe nas telas, pois estava presente no corpo e na alma da Leandra, habitou um espaço ‘elaborado’ por Pedro Paulo de Souza e sua precisão temporal foi esculpida por Vânia Debs.

Nome Próprio emana uma enorme energia que foi sugada do elenco/equipe.

É um filme-câmera, no recorte dos espaços, na exposição da exuberância barroca do corpo, da captação da luz naturalista concebida com a radical coragem de ser quase nada. Luz de lâmpadas de 100 volts, 200 volts ou florescentes. A luz que esculpe uma verdade. Uma luz ética, pois prescinde da sedução do efeito, do truque do falso contraste de pedestal enterrado. O digital sem enganação. O digital que vai dominar, pois é libertário.

Libertário de um poder da técnica do Diretor de Fotografia. Que encobre suas limitações exercendo esse 'domínio'. O uso abusivo da 'ferramenta' para encobrir a falta de pensamento estético, a falta de pertinência na adequação fotográfica e principalmente a ignorância mesmo. Agora, com o Digital, o olhar está libertado para além da técnica, pois no digital tudo vira preset.

O que interessa agora é a questão da inteligência do olhar. Do saber olhar.

Nome Próprio inaugura isso radicalmente. Não é um filme ‘da luz’ é um filme ‘do olhar’. Do desejo do olhar. Do pensar como olhar. Do construir o olhar. Que destaca inclusive o 'recorte da luz', mas agora não mais como uma técnica que se impõe, pois não é o que vai fazer a diferença.

O Digital é libertário como o ato Duschampiano: nos liberta do poder do domínio de uma técnica.

Não precisamos mais do domínio do pincel para fazer ARTE. Precisamos de pensamento, de linguagem, de conceito, de história e principalmente de poética.

Na fotografia ocorre o mesmo, precisamos da inteligência no olhar ( para recortar, decupar, enquadrar) para a construção da poética da imagem. Enfim, precisamos de inteligência, não de um Dom que Deus nos deu.

Nome Próprio foi feito também porque era para ser em câmera Digital, e ele é digital na forma e no conteúdo, assim procura sua coerência estética e formal.

SOBRE A FOTOGRAFIA do FILME
Texto escrito em 25/01/2006 para ser trabalhado com Fernanda Riscali / Diretora de Fotografia


Hoje não tenho a menor idéia de como é a fotografia que esse filme precisa. Temos que procurá-la, temos que encontrá-la. Ela será resultante dessa busca e das realidades que formos encontrando.

Fizemos uma OPÇÃO RADICAL: a via digital do filme. Isso tem a ver com o assunto do filme, o mundo virtual, a escrita via internet, o blog de Camila, e aí, na base disso tudo, o pixel. A estrutura do ASSUNTO está na base de nossa captação: o dígito. O zero e o um. A passagem da luz e a opacidade.

Essa opção vai influenciar/determinar completamente o trabalho de criação das imagens: sim, no UHR, estamos mais próximos de uma nova imagem, de uma imagem de constituição pixial, não granular. Uma questão nova.

A cor no pixel é o registro de três valores de brilho, um para cada cor primária: RGB. Não adianta tentarmos "aplicar" conceitos fotográficos/cinematográficos pois eles não irão funcionar da mesma maneira, apesar de podermos falar de brilho, contraste, iluminação, latitude, grão... e cor. Mas com um NOVO PENSAMENTO. Temos que aprender a pensar essa nova concepção pictórica. Pois, na fotografia digital vamos procurar "o que brota dessa nova base". Trabalhar o específico do digital ainda com compressão. SIM, porque estaremos trabalhando/gravando imagens com uma compressão 4:2:2 e projetando em 4:2:0. Não estaremos trabalhando com 2.2 milhões de pixels em nosso CCD (Alta Definição) com 1.920 linhas por 1080. Estaremos trabalhando no mundo muito menos definido e com menos informação de cor (720p). Não adianta querer brigar contra isso: é isso e vamos nessa, procurar uma imagem inteligente e pertinente nesse formato.

Nosso filme será um filme de câmera/um filme de olhar.

Portanto precisamos apurar a inteligência/sensibilidade do nosso OLHAR.

O conceito de "Cinema-Poesia" de Pasolini, eu substituiria aqui por "olhar-poesia" mantendo o rigor de percebermos o tempo todo que existe uma câmera como posicionamento estético.

PREVILEGIAR a relação de intimidade da câmera com CAMILA.

Esses são nossos CONCEITOS, nossos OBJETIVOS. Narrar com a câmera, uma imagem silenciosa que tenta desvendar os mistérios de Camila .

Existe um OLHAR FEMININO? O que é isso? Enquadramento, fotografia? Como criar uma "subjetividade feminina" na imagem? Como a câmera vai "exalar" um estamento feminino com seu olhar para as coisas e para a realidade?

COMO CONSEGUIR ISSO?

Essa é a nossa questão. E você como MULHER tem que me ajudar MUITO a pensar isso tudo. Esse é um primeiro "menu" de questões que temos que pensar e tentar responder, pesquisar, adormecer com elas, sonhá-las e resolvê-las.

Acho que o CONCEITO FOTOGRÁFICO vai surgir na junção de dois fatores:

1- A câmera que vamos usar; e, 2- As locações que serão escolhidas.

- Quando tivermos esses dois fatores 'sobre controle', vamos passar para uma fase experimental: gravar as locações com a câmera e ver como reagem a luz existente, de dia e à noite em todas suas sutis variações.

- Depois desse check-up, vamos decidir o que PODEMOS e o que DEVEMOS fazer.

- Nessa experimentação é que vamos DESCOBRIR o estilo visual e fotográfico do filme UHR.

Acho que do "paper" de PRODUÇÃO podemos tirar as seguintes questões:

1- Estudar um conceito de luz para cada locação - interior / exterior / dia / noite.
2- Resolver o problema de correção de cor quando misturarmos Luz Daylight com Lâmpadas Incandescentes (2.800K) na filmagem.
3- Criação, desenvolvimento e construção das "luzes", das traquitanas, e das "luminárias" auxiliares para a fotografia do filme.
4- Estudar qual a melhor e mais fácil traquitana para colocar a câmera pendurada no teto de ponta-cabeça.
5- Outra coisa IMPORTANTE E URGENTE PARA IRMOS PENSQUISANDO: qual o tamanho da nossa equipe? Quem são?: de elétrico, de movimento e o ajudante para os dois.

Músicas de Camila