Um filme dirigido por Murilo Salles com Leandra Leal.
Baseado na obra de Clarah Averbuck.

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Este é um POST em homenagem àqueles que andam escrevendo e pensando barbaridades sobre a personagem Camila.

Antes de tudo devemos um esclarecimento, pois tem gente que não está percebendo o óbvio: trata-se de filme sobre paixão. Paixão e Narrativa (construção de uma narrativa = paixão por cinema). Paixão encarnada numa mulher, e, simplificando, um filme sobre transbordamento, avessamento de limites. O que é lógico e conseqüente, pois esse é o problema do indivíduo: construir seus limites. A "palavra" é um limite - quando escrevemos algo, estamos fazendo uma opção por um significante/significado, portanto, excluindo todos os outros. Uma narrativa é um limite, pois exclui outras. Experimentação de limites - quem não se defronta com essas questões não faz arte. Pois ARTE é avessamento. É atravessar a fronteira do lugar comum.

Lembramos com Foulcault que não existe sujeito nem sexualidade universal, e que os "discursos" sobre o sujeito e sobre o sexo são produções determinadas historicamente.

Voltando à história : primeiro - na antiguidade as mulheres eram máquinas de parir primogênitos machos, e se assim não fizessem, perdiam o posto de ‘predileta’. No seu oposto tinha a cortesã. O lugar da mulher era o da anulação da intensidade afetiva feminina, pois voltando da guerra o homem queria uma pele perfumada e uma amante silenciosa. Depois, na idade média, as mulheres intensas viravam bruxas: as que detinham poderes misteriosos das profundezas da alma e dos mistérios humanos. Algumas poucas se transformaram em guerreiras e foram queimadas em praça pública. Guerra era para os homens. As mulheres pagavam com a vida quando traiam suas condições de "esposas" - por terem desejo, por quererem exercer sua feminilidade: Guenièvre.

É Freud no final do século 19 que postula que sexualidade é prazer. Mas diz que só há um sexo: o masculino. Portanto, mulher com muito desejo é histérica, mulher com muita vontade própria é uma "mala". Mulher que é mulher cuida da casa, dos filhos e de noite é uma gueixa. Perfumada e silenciosa. Só que não goza. Gozo, prazer é visto como excesso. Em ambos os sexos. Hedonismo.

Somente a 50 anos atrás, por causa de um evento desejado pelo homem: o controle da natalidade - com a invenção da pílula - a mulher consegue finalmente sua tardia liberdade sexual. Ela enfim tinha um órgão sexual livre do estigma da reprodução e que pode ser usado exclusivamente para seu prazer.

Pobres senhores, pois com a liberação sexual da mulher, ela deixa de ser ou reprodutora ou cortesã e passa a ser mulher, essa é a grande transformação do final do século XX - o papel psico-social da mulher e uma mudança fundamental do papel dessa mulher na relação homem/mulher em quaisquer dos campos da manifestação humana. Em vez do grande embate entre capitalismo/comunismo esperado para a segunda metade do século XX, o que aconteceu como mudança radical foi o da "ontologia" feminina.

Camila é filha da mulher liberada dos anos 70. Ela nasce e cresce consciente de seu corpo. Não acha uma fragilidade possuir uma vagina e um par de seios, pois estes são instrumentos de sua sexualidade como o pênis é para o homem. Todas as zonas erógenas são para serem usufruídas. Camila não tem problemas com isso.

As mulheres deixam o lugar da posição passiva de "escolhidas" ou "eleitas" e passam a desejar, a escolher, a não querer qualquer homem. Camila não gosta de levar cantadas idiotas, fica sim muito irritada com esse clichê masculino "a cantada". Porque a mulher agora não pode escolher? O que tem de patológico na inversão dessa posição? Sim pois rola uma acusação de patologia social de Camila porque ela se antecipa ‘agressivamente’ à cantadas machistas clichês. Essa acusação é sintoma da permanência ainda na cabeça de algumas mulheres de um conceito arcaico em Freud que diz do caráter fálico como ordenador da diferença sexual, quer dizer, como índice definidor do sexo feminino. E isso fica muito claro, inclusive, na Camila da Clarah Averbuck quando declara-se uma mulher com bolas, literalmente.

A Camila do filme não. É mais complexa e menos machista. Ela quer fundar seu estado feminino através de seu corpo e esse corpo é sua escrita. Uma operação mais 'adulta' que a Camila da Clarah Averbuck que infantilmente afirma ser uma bad-girl e, uma mulher-com-bolas, que é a busca de legitimação submetida a um discurso machista/fálico.

Camila em Nome Próprio faz questão de demarcar claramente essa diferença da Camila de Clarah Averbuck: a ordem do feminino para além da representação fálica. Por isso a nossa Camila (do filme) incomoda tanto às pessoas (homens e mulheres) ainda imersas nessa tradição machista, a do 'monismo fálico' em Freud - ou ainda mais sofisticado, em Lacan: "a mulher como um gozo para além da ordem fálica", quando este propõe: a mulher não existe, só existe um significante, o falo, o feminino está assim foracluído.

Se a lógica fálica determina a inexistência do sexo feminino, afinal, que inexistência é essa que existe tanto, pergunta a psicanalista Regina Neri em seu livro 'A psicanálise e o feminino: um horizonte da modernidade'?

Nossa Camila transborda na exposição de suas contradições para afirmar sua feminilidade contemporânea. Em seu rito apaixonado de procura por contorno e apego. Ela procura apego no chão. Procura descobrir os limites de sua feminilidade em seus ritos mais desesperados de afirmação, daí o texto copydescado pelo diretor Murilo Salles e Viviane Mosé, de Santa Tereza D'Ávila: "Nada me resta senão me perder em você, senão morrer um pouco, senão gozar sem saber do que se goza", e, no seu off, enquanto ‘rouba’ o namorado da amiga (falando sério: transar com o namorado da amiga é quase um clichê!): "Não sei se é ausência de pernas, ou de mim. Não sei se é ausência de chão. Eu sei que é um amolecimento das formas, um derramar das coisas. Um desmaio. Um suspiro sem corpo. Um bicho. É ser um bicho ou um vento. Tanto quanto pessoa na tempestade. Ou não ser. Ou ser nada e vazio". O filme aqui atinge o ponto crucial de sua questão: uma busca incessante de afirmação dessa contemporânea 'identidade feminina' que quer se descolar da mulher cuja identidade ainda é espelhada no masculino. Não é à toa que a cena seguinte da praia é um close de uma dobradiça de uma porta que se abre, marcando uma passagem. Camila adentra no limite: "fora" diz seu namorado Henri. E nesse jogo vai formatando seu corpo que será marcado por essas cicatrizes.

São desses textos que, certamente, Clarah Averbuck não gosta muito, pois os seu são contaminados de determinações machistas, e que ela, sinceramente, acredita estar sendo irônica, sarcástica e irreverente. Na verdade a irreverência - sou mulher mas com bolas - de Clarah é uma confirmação do monismo fálico de Freud. É a irreverência do fálico em Clarah Averbuck...

Outra questão recorrente é a de que Camila no filme não se relaciona com ninguém. Como assim? E com Felipe? Quem destrói/rompe uma relação assim? É quem dormiu na noite anterior com um parceiro fortuito? Não. Quem está metido num namorico de portão? Menos ainda. A fúria com que os dois destroem essa relação - porque sim, Felipe também destrói sim, ou nossos críticos não perceberam as merdas de Felipe? Pode ser que não, porque o ritual da traição é aceitável para os homens. Mas quando uma mulher trai e assume que traiu, fogueira nela. A relação Camila/Felipe existe sim e é/foi uma relação de muita intensidade, na proporção exata da paixão que é desprendida para destruí-la: como diz Camila, é muito amor! Nem todo homem está preparado para entender isso. Pois se não há amor, há indiferença. Eles podem ser tudo, menos indiferentes.

Camila é egocêntrica. Claro que é. Se não for egocêntrica será o quê? Todos começamos nossa jornada egocêntricos. O mundo e a civilização se constrói no embate do egocentrismo com o real. O egocêntrico que não se relaciona com o real morre. É simples assim, morre. Camila sobrevive. É egocêntrica. Mas, devemos ter mais cuidado com os seres que não tiverem em seu ego o seu território bem demarcado. Esse é o perigo do altruísmo. Do bonzinho... O bem e o mal estão dentro. No ser. Portanto cuide do seu ser. Camila está cuidando do dela.

Nome Próprio trata de um rito de passagem, de um processo, de uma construção de narrativa. Essa narrativa fugiu do banal e embarcou num processo de tentar dar conta da procura de um corpo. Do corpo da escrita feminina e do feminino como criação do novo. Isso torna sua personagem quase que insuportável para as mentes de seres mais opacos.

Quinta-feira passada, dia 31, foi o dia do debate de Murilo Salles no Ponto Cine Guadalupe, no Rio de Janeiro. Um debate sobre o filme como muitos outros, as intenções do diretor, a relação entre cinema e literatura, a ótima interpretação de Leandra Leal. Teria sido, se não fosse um importante detalhe: um grupo de 10 moças de Paciência.

Essas moças traziam uma questão que colocava de lado todas as outras. A sensação de ter assistido pela primeira vez um filme no cinema!
Dessa sensação ficou um apenas um sorriso, registrado ao lado do diretor.

As moças são moradoras da Comunidade Vila Paciência (Favela do Aço) localizada em Santa Cruz e fazem parte do CRAS - Centro de Referência Assistência Social de Paciência. Acompanhadas da Professora Elenice – pelo projeto Dando Asas ao futuro, uma parceria entre a Prefeitura do Rio e a Infraero, essas 10 moças tiveram a oportunidade de pela primeira vez assistirem uma sessão de cinema.

Aqui vai a nossa homenagem a elas.

Hoje começa mais uma semana. Só cinema mesmo, pra começar semana na sexta-feira, mas é assim que é. E todas as dietas que a gente marca pra começar nas segundas-feiras, todas as mudanças que a gente promete pro ano-novo, todos os acontecimentos que a gente espera pra nossa próxima idade, assim é cada sexta-feira pra um filme que está em cartaz.

A primeira sexta é sempre a fundamental, claro, como o dia do parto. Sem ela não tem nada, e o seu sucesso ajuda a determinar o que vem pela frente. Daí vem a segunda sexta, marcante, aguardadíssima, porque traz à tona o resultado da primeira e fortalece o filme.

Pois hoje começa a nossa terceira. Aquela que é meio como o filho do meio: nem o primogênito nem o caçula, a terceira semana é quando o filme já está firme nas suas pernas, o boca-a-boca teve tempo de construir a reputação, novas salas de novas cidades entram no circuito, e quando tudo isso rola sem que o filme perca espaço onde já estava é pra se comemorar mesmo.

Tudo isso não quer dizer que a gente pare de fazer a nossa mágica, de espalhar ainda mais por aí que "Nome Próprio" está em cartaz, e o filme bacana que ele é, e como essa semana é fundamental pra definir a próxima, nossa quarta semana, a entrada no primeiro mês, eta coisa boa!

Fazer um filme intimista é uma contradição em termos: cinema pressupõe equipe, que por menor que seja inclui no mínimo umas 10 pessoas, e toda a intimidade que se quer imprimir na tela tem que ser alcançada no meio de toda essa gente.

Talvez por isso as equipes de cinema virem uma espécie de família, pelo menos enquanto aquele filme específico estiver sendo feito. Todo mundo passa o dia inteiro junto, a noite inteira quando as cenas são noturnas, e se a filmagem for fora da cidade de origem passa também as horas de folga e os fins-de-semana. A maioria dos atores se inclui nessa “família”, e isso fica ainda mais forte quando há um protagonista absoluto, que filma quase todo dia, e que portanto não se afasta do set tempo suficiente pra se desligar daquela turma.

A construção dessa intimidade leva um tempo, e pode ser determinante pro sucesso de um projeto, especialmente no caso da intimidade do ator com o diretor. Representar um personagem é um processo de entrega comandado pelo instinto e pelas pesquisas do ator, e guiado por essa voz externa que é a do diretor. Esse cara que conhece o filme desde muito antes dele ser imagem, que sonhou com alguém dando voz às frases do roteiro, dando corpo às sensações, e finalmente tem um outro ali pra realizar o sonho. Mas o corpo é desse outro, a voz é dele, o olhar, e é preciso estar em sintonia pra coisa toda fluir macia.

Quando rola bem é aquela coisa: é a anti-solidão, a troca exata, a sintonia perfeita. E aí a gente corre pro cinema pra ver na tela grande essa química acontecer.

Tatuagem nunca precisou de explicação, mas tem quem tente. Talvez porque seja mesmo um mistério essa coisa de marcar o corpo por vontade própria, essas cicatrizes coloridas e belas, virar vaca com o nome do dono marcado a ferro quente. O dono pode ser uma imagem, uma palavra, um nome. "Tatiana". Um coração fundido em coração. "Paz". E podem ser muitos donos, os donos de cada momento, pra sempre impressos na pele. "made in brazil", flores variadas, "Felipe", uma Betty Boop, símbolos chineses, "Amor".

Às vezes elas servem pra marcar fases, e se multiplicam como estampa. Outras vezes uma só basta, e reina absoluta. Algumas são feitas pra serem vistas, outras vivem escondidas, secretas. Tem quem morra de vontade e não tenha coragem. Tem quem nem pense nisso, tem quem só pense nisso. Tem de tudo no mundo, afinal. Até tatuagem que rende foto, capa de livro e poema.




















Conceitos, palavras.
Que tem a pele com isso?
Certezas podem ser carne sem ser tinta.
Podiam.

Carrego a palavra nas costas
além de no fundo do peito e na ponta da língua.

Base das minhas asas invisíveis,
soco na boca do estômago,
filho de 7 letras de 20 minutos de gestação.

Um dia crianças vão deitar sobre o meu corpo pra aprender a soletrar.

Talvez quando essa perenidade me tomar por inteiro
passe essa surpresa, esse medo,
talvez o que hoje é susto vire orgulho do percurso,
e a palavra, embora brasa, cesse de queimar.

Maria Rezende

O psicanalista Contardo Calligaris escreveu hoje em sua coluna semanal na Folha de S. Paulo:

"Aviso urgente. "Nome Próprio", de Murilo Salles, estreou na sexta passada em poucas (mas boas) salas de várias capitais do país. Com a extraordinária interpretação de Leandra Leal, o filme leva para a tela o mundo impetuoso, fragmentado e tocante do blog e dos romances de Clarah Averbuck.
É imperdível para quem vive amores inquietos (ou seja, para quase todos) e, óbvio, para quem é atormentado pela paixão de escrever.
Participo assim da campanha para que o filme permaneça em cartaz o (longo) tempo que ele merece."

"Um livro polêmico". "Uma declaração polêmica". "Uma instalação polêmica". Deveria ser somente um adjetivo, mas no mundo contemporâneo virou um elogio.

O valor intrínseco da polêmica é uma das invenções do mundo contemporâneo. E ao virar valor, cria distorções malucas. Porque polêmica deveria ser resultado do desejo real de dizer algo a que o ouvinte não esteja acostumado, um ponto de vista inesperado e cuja proclamação seja inevitável, de tão verdadeira. Quando o desejo da polêmica vem antes da necessidade de expressar essa visão, qualquer visão, qual o sentido?

Imagine uma pessoa que estivesse sempre em busca do espanto, que disesse cada frase antevendo as reações explosivas de discordância, que pautasse suas ações pelo impacto desestabilizador que elas pudessem causar em quem estivesse por perto. Ai, que cansaço! A vontade adolescente de chocar virando atestado de qualidade, e o mundo se enchendo de polêmicas murchas como bolas em fim de festa de criança.

Que prazer, pelo contrário, quando surge no meio da multidão uma voz que deseja ardentemente expôr suas verdades, e que tem no meio delas partes inesperadas e inusitadas, que nos fazem reagir com veêmencia porque nos sentimos obrigados a questionar, porque nossas verdades foram postas em cheque. Quando a polêmica é conseqüência e não objetivo principal, quando ela é resultado e não meio.

Longa vida à boa polêmica!

Tenho trabalhado com o Murilo há alguns anos, fomos parceiros antes em Seja o que Deus Quiser e em És Tu Brasil / Alexandre Herchcovitch.

Tive desde o inicio deste projeto, muita proximidade com todo o processo e quando Nome Próprio me foi apresentado ainda se chamava Uma Menina Má, que depois se transformou em Máquina de Pinball, Vida de Gato, sendo ainda Uma História Real antes de ser lançado como Nome Próprio.

Devo dizer que o que me motivou inicialmente, visto que não sou um profissional de direção de arte apenas ligado ao cinema, foi a oportunidade de dar continuidade aos trabalhos que faço com o Murilo. Vi também a possibilidade de estar em uma produção, de baixo orçamento, cujos contornos julguei muito interessantes.

Meu ponto de vista é que, como todos sabemos, cinema é um oficio muito caro e que na grande maioria das vezes envolve dinheiro ou parceria com setores públicos, portanto estar em uma produção de qualidade que se configurava com moldes de produção de baixo custo era uma experiência muito construtiva.

O que realmente me interessa é produzir, com valores de baixo orçamento, um produto cultural de qualidade.

Acho mesmo que propostas como esta são fundamentais em um país rico, mas cheio de desigualdades.

Gosto de imaginar que estamos viabilizando um discurso potente que pode fazer alguma diferença no processo de massificação.

Um país que não pluraliza seus setores de cultura, que não dá voz a projetos individuais, corre o risco de se tornar monocórdio e desinteressante, o que mais tarde pode fazer com que todo o setor fique desqualificado.

Pode fazer com que setores de áudiovisual não respondam aos anseios de um país diverso como o nosso, deixando para nós a qualidade de irrelevantes.

Como não acho que apenas o poder público pode arcar com tal potencia, um filme produzido com baixo orçamento, alta qualidade e tecnologia específica, tem grande importância em toda esta equação de cultura.

Enfim entrei neste projeto muito pelo o que ele pode me ensinar em termos de produção, para dar vazão a produtos de qualidade, com estéticas e potências específicas, em uma tentativa de criar diversidade e tornar mais interessante o discurso áudio visual como um todo.

(Pedro Paulo Basílio de Souza
Diretor de arte de Nome Próprio)

O Overmundo é um site que tem tudo a ver com o espírito de "Nome Próprio". Além do excelente texto "A blogosfera chega às telas", de Milu Leite, já linkado aqui anteriormente, eis agora outra ótima resenha publicada por lá: "A rede à flor da pele", de Sérgio Batisteli.

A rede à flor da pele

Uma bela jovem nua briga com o seu namorado, Felipe (Juliano Cazarré), é expulsa de sua própria casa e vai para um apartamento de um fã em Brasília. Ela pede uma bebida, mas não tem. Então Camila Lopes (Leanda Leal) vai escrever para se acalmar e diz “Escrevo porque preciso. Melhor, vivo porque escrevo”.

A menstruação inesperada pega Camila de surpresa que sai para comprar absorvente no supermercado à noite, aproveita para comprar duas caixas de cerveja e dormir nem pensar. Ela vai para frente do computador que levou para a casa do fã e escreve textos para o seu blog.

(Nome Próprio, Brasil – 2007, HD, 120 min.) é o sétimo longa-metragem do diretor Murilo Salles que trata, além da situação de jovens urbanos atualmente, a história de uma desequilibrada e famosa blogueira que tem o sonho de publicar um livro. Assim, como em Nunca Fomos Tão Felizes (84), Faca de Dois Gumes (88), Seja o Que Deus Quiser (2002), ele deixa uma das suas marcas registradas, que é contextualizar o comportamento humano em complicadas situações de vida. Murilo constrói personagens e suas próprias verdades independentemente de uma moral pré-estabelecida pela sociedade.

O roteiro do filme é uma adaptação dos livros Máquina de Pinball (2002) e Cama de Gato (2004) da escritora gaúcha Clarah Averbuck, 28 anos. Ela é o fruto da mais recente forma de mídia e divulgação que conhecemos - a internet. O seu blog chegou a ter mais de 1800 acessos diários, foi o ponto de partida para ela mostrar os seus textos. Clarah é como esse novo meio de comunicação, ou seja, ela é libertária, revolucionária, sem limites e influenciada por outras formas de manifestação, entre eles os escritores (John Fante, Charles Bukowski, Paulo Leminski) e o rock and roll.

Murilo Salles explora de forma primorosa os espaços internos dos apartamentos, onde Camila tem o seu quartel general da expressão literária. Com travelling aéreo, super close, GC (gerador de caracteres) que ajuda enfatizar a poesia quando a sua desmedida personagem escreve o blog. Nas cenas de amor, Murilo desfoca a câmera e trabalha com pouca luz. Esses são alguns dos elementos que compõem a linguagem fílmica de Nome Próprio

O fio condutor da história é Camila, vivido pela atriz Leandra Leal, 25 anos. Certamente esse é o principal papel cinematográfico na carreira de Leandra, até o momento. Na telona vemos uma excelente atuação da protagonista carioca. Uma mulher despudorada, corajosa e intensa a cada minuto.

Camila fuma um cigarro atrás do outro, liga desesperada para uma amiga, no seu coração sente um tremendo vazio e ela fica esperando algum contato de Felipe. Começa a pensar em escrever o seu livro, bebe muito, se entope de tranqüilizantes e não come. Como desgraça pouco é bobagem, a escritora tem um saldo devedor de R$ 400, faz um saque emergencial e paga o aluguel do apartamento que está hospedada.

Compulsão, compulsão e compulsão...
A blogueira lava a louça, mas não para sob o efeito da bebida e remédios, ela limpa o chão da cozinha, as paredes, limpa a casa inteira. Vai parar no lado de fora do apartamento, onde esfrega até o chão da escada e totalmente tresloucada leva um tombo digno de ser filmado.
Finalmente, Felipe toca a campainha e exige que Camila retire os textos do blog. Como uma mulher apaixonada ela fraqueja, pergunta para ele se a ama e o beija na boca. “Minha vida é uma merda”, escreve a carente personagem.

A escritora vai para o Rio de Janeiro, com um clima propiciado por uma trilha sonora alegre num bar, se apaixona pelo francês Henri (Alex Disdier) que literalmente a deixa de quatro. Ela descobre que Henri tem uma mulher e filho, através de fotos.
A sua vida segue de bar em bar, Camila se encontra com um casal de amigos e a inveja feminina, somada pelo abuso do álcool toma conta dela. O espectador é brindado com a belíssima fotografia de um mergulho noturno na praia carioca, que termina em uma tórrida cena de amor. A blogueira fica com o namorado dessa amiga e o francês os vêem. Novamente ela fica sozinha, sem dinheiro para pagar o aluguel e sem amor! Pira e compra uma bota caríssima, sai para encher a cara, é despejada do apartamento e pede ajuda aos fãns do seu blog.
Surge um típico garoto nerd, Guilherme (David Katz), cheio de espinha na cara e sem a menor habilidade para conquistar uma mulher.

O filme deixa clara a rede de pessoas que giram em torno de um blog, como suas vidas virtuais podem se tornar presenciais e expostas sem o menor pudor.
A mãe da escritora aparece em forma de postal, ela entrega uma caixa escrita “kit sobrevivência” com doce caseiro diet, biscoitos e xampu.

Camila, amante de noitadas e bebedeiras, faz a sua balada agora em Sampa. Conhece Rodrigo (Ricardo Garcia), ela quer ser dominada, mas seu novo affair está mais para escravo do que pra dominador.
A baladeira reflete, “Meu problema é achar que caos é ordem, eu preciso organizar o caos que eu sou”.

“Vou pra mulher objeto, isso que é vida”, esbraveja a blogueira.
Numa outra balada, ela encontra com mais um fã do seu blog, que se correspondia com ela através de um personagem. O perfeito Daniel (Gustavo Machado) e diz “Você é muito para mim, da voz ao tamanho do pau”. Ela acha que com ele encontrou o seu verdadeiro amor.

Sobre o final, Salles deixa em aberto para o espectador ter pelo menos duas interpretações sobre realmente quem é Camila. Acima de tudo, ela tem uma alma apaixonante que exala viscerais sentimentos pelos poros de sua pele.

Nome Próprio está em cartaz nos cinemas.

Criatividade própria

Como critico observador e jornalista, não posso deixar de falar sobre a campanha de divulgação do filme “Nome Próprio”. Um marketing viral criativamente honesto e bem sucedido; com a criação do completo e interativo blog: http://nomepropriofilme.blogspot.com

Um espaço que de fato o espectador do filme pode se comunicar com todos os envolvidos na produção do longa-metragem, utilizando-se das mais novas ferramentas de divulgação como o MySpace, Twitter e teasres. Por exemplo, consegui o convite de uma pré-estréia através de um comentário que fiz no blog.

A página na internet de “Nome Próprio” traz várias informações que vão desde as salas de exibição, até o endereço da danceteria onde artistas do filme irão discotecar. Mas principalmente, nos aproxima de três pessoas fundamentais para a realização de tudo isso: o diretor Murilo Salles, a escritora Clarah Averbuck e a atriz Leandra Leal.

O cinema agradece e tenho certeza de que mestres como Glauber Rocha e Rogério Sganzerla, se estivessem vivos aprovariam essa idéia.

Reproduzido do blog do autor: http://sergiohpg.blig.ig.com.br//2008/29/daqui-a-pouco-a-cr.html
20/7/2008

VALEU, Amigos!

CONSEGUIMOS dobrar a segunda semana nos CINEMAS graças a mobilização que partiu da INTERNET. Essa é a NOVA força/arma das pessoas, da livre circulação das idéias e de troca de informação. Vocês, SIM, vocês que acessam este blog e fizeram CIRCULAR E DIVULGAR o nosso manifesto ‘Cinema da Crueldade’ sobre a importância de assistir "Nome Próprio" na primeira semana, vocês fizeram a diferença, tornaram esse lançamento algo ESPECIAL! Agora, a luta continua!

ALÔ, ALÔ, SÃO PAULO! Sempre achamos que "Nome Próprio" fosse a cara das meninas de São Paulo. Das milhares de Camilas com que cruzamos pelas suas avenidas. Por que OS CARAS de Camila em Sampa são bacanas, menos "machistas". Mas está faltando o comparecimento dos PAULISTAS no cinema. O que será que está acontecendo? Alerta para a militância paulista! Vamos reagir ao marasmo do cinemão bobão.

Será que as pessoas só querem diversão e pão? NÃO ACREDITAMOS NISSO. As pessoas querem ARTE, sensibilidade, querem afetar e serem afetadas. Querem pão sim! Mas, ARTE também! Está faltando a consciência que é preciso sair de casa e ir até a Rua Augusta no Espaço de Cinema, ou dar uma chegada no Arteplex do Shopping Frei Caneca para assistir ao filme.

NÃO É UMA QUESTÃO DE GRANA, não é uma questão de "propaganda para ganhar dinheiro". Esse filme é incentivado. Foi feito com dinheiro público. É UMA QUESTÃO DE AFIRMAR com números de ingressos vendidos que EXISTE SIM um público para um cinema sensível, inteligente, autoral, intenso. Isso é uma questão de afirmação de IDENTIDADE, senão esse cinema vai desaparecer. Vai para a Galeria de Arte. Só vai sobreviver o cinemão! (Nada contra o bom cinemão, somos fãs incondicionais do grande cinemão – que não gosta de um excelente Batman?) MAS O PROBLEMA É QUE SE NÃO FORMOS ASSISTIR AOS FILMES do Beto Brant, do Carlão, do Zé Eduardo Belmonte, do Lírio Ferreira (entre vários colegas com cinematografias exemplares) esse cinema tende ao desaparecimento!

Queremos registrar que Fortaleza reagiu! Postamos um apelo no sábado aqui no blogue e no Domingo a freqüência do Dragão do Mar dobrou. Isso é um sinal que a militância cinematográfica de Fortaleza é uma realidade! No entanto, ainda continuamos com uma freqüência muito baixa em Belém e Natal.

Atenção, essa não é uma luta pela bilheteria de "Nome Próprio", é uma luta por uma militância em prol do cinema nacional. Para fazer com que os filmes sejam vistos e discutidos, que proliferem pólos de cinema nas principais cidades brasileiras, que se fomentem cinefilias regionais fortes.

Vamos voltar a brigar pelo Cinema! Alô, quem ama cinema, vamos discutir os planos, a estética, os temas, os conteúdos: vamos voltar a ver Cinema!

(Equipe do blog Nome Próprio)

"Uma casa maldita". "Aquele maldito menino". "Esse maldito trabalho". Ninguém diria que essas frases têm como objetivo falar bem dos respectivos casa, menino ou trabalho, certo? A palavra "maldito", por si só, carrega um inegável peso de coisa ruim, que se quer evitar. Certo?

Não no mundo artístico de hoje. Se o leitor se depara com as expressões "poeta maldito" ou "artista maldito" entende logo que se trata de um poeta e um artista que merecem atenção, poeta e artista de qualidade, mas incompreendidos pela "mídia", um poeta e um artista sem medo de chocar - e olha a polêmica aí de novo.

E aí virou moda ser maldito. Jovens autores cortam os pulsos na capa dos livros, beldades literárias descrevem suas noites de degradação moral no mundo milionário de Paris, cantoras expõe ao mundo sua sucessão de bebedeiras e semi-overdoses, e o mundo aplaude, e louva, e compra livros e discos.

Mas por que não é considerado maldito o autor daquele livro genial que editora nenhuma publica, e que trabalha de 9h às 18h pra pagar suas contas em dia, leva os filhos na escola de manhã e dorme cedo? Ele também não é visto pela mídia, mas ah, não tem glamour nenhum.

E parece que o valor das obras está na vida tresloucada de quem as compõe, e não na obra em si. E a gente quase se espanta quando descobre que a dona da voz que nos encanta faz comida no almoço e lava a louça no final, e que sua geladeira tem mais legumes que vodca. Que vida normal, que tédio...

Ser maldito não devia ser valor nenhum, apenas uma constatação de um estilo de vida. Estilo de vida aliás que, pra dizer a verdade, pode ser insuportável pra quem está por perto e, principalmente, pra quem vive.

Não foi assim exatamente uma surra, talvez esteja mais próximo de um chega para lá. Mas, um chega para lá de RESPEITO! No Rio, no Arteplex Unibanco, único cinema que dividimos salas com o morcegão, tivemos mais espectadores nas duas principais sessões: das 19 e das 21h. Se não chegamos ainda a incomodar o nosso primo rico, já podemos dizer que somos uma pedrinha na sua bota super equipada!

Em briga de Davi e Golias uma pedrinha já é uma vitória!

Silabas traçantes voando. Frases de efeito moral disparadas. Quem já errou que atire a primeira ofensa.

Nos blogs web afora, têm rolado uma série de criticas ao filme e à Clarah Averbuck, confundindo as duas coisas e falando mal sem inclusive terem visto o filme. No meio da disputa entre as duas Camilas irmãs, separadas pelo fosso da adaptação, caem os primeiros civis. Blogueiros atingidos após um debate. E o pior, por fogo amigo, de quem está cuspindo no prato que comeu e que ainda come, só que com outra louça.

Como uma boa ofensa não vem sozinha, logo aparecem os primeiros árduos defensores dos blogs, da liberdade e da igualdade. Uma simples briga de família começa a tomar maiores proporções.

A guerra entre a Camila da Clarah e a Camila do filme vai durar ainda por um bom tempo. É inevitável. O que podemos e devemos fazer é separar os seus autores! O filme não é o "Filme da Clarah", como escreve Cardoso no blog contraditorium.

Clarah é Clarah e "Nome Próprio" é "Nome Próprio". Não façam das palavras dela as nossas. Isso aqui não é o adioslounge!

A briga por qual é a melhor Camila ou por defender tal e qual estilo de escrita, não passa da mesma disputa. Uma disputa que não reconhece nem valoriza a diferença. Que prega o autoritarismo do melhor, daquele que se acha melhor. Uma disputa para soldados de chumbo. Soldados de uma guerra que poderiam ser de uma única e mesma brincadeira; uma brincadeira com a vida. Pois tanto a Camila da Clarah quanto a nossa, a escrita acadêmica quanto a escrita cotidiana do blog, tentam dar conta da mesma coisa: viver.

A paixão é uma faca de muitos gumes: move o mundo, promove mudanças e revoluções, é propulsora de impulsividades em geral, sejam elas viagens, cortes de cabelo ou crimes sangrentos. Ser passional é qualidade e defeito, é elogio e maldizer, tudo depende do ponto de vista do ouvinte e da entonação do dizente.

Porque paixão todo mundo tem - ou quase, que seja. Quase todo mundo experimenta a paixão, mas quase ninguém a vive no limite, a embute no cotidiano, a ponto de nem entender a vida sem ela. Gente pra quem o dia-a-dia é um disco arranhando de tanto repetir se não tiver paixão. Gente pra quem a paixão é o motor de tudo, seja pra trepar, pra trabalhar ou lavar o chão: nada passa batido, nada é ligeiro, tudo é intenso e manchado pela força da paixão.

Daí pode-se deduzir que quando essa gente se apaixona é de tremer o chão e incendiar as estrelas. Porque se a paixão pelas coisas em geral é fundamental, quando o alvo dela é gente é melhor sair de baixo, sair da frente, que tudo fica maravilhoso e incontrolável. Quem tem medo de intensidade não agüenta nem um mês. Quem gosta da coisa, e portanto é tão passional quanto o apaixonado em questão, devolve na mesma medida, e aí é crise na certa.

Paixão: haja sanidade pra encarar o furacão.

Em tempos de exaltação de tudo o que é orgânico, a atuação da Leandra em Nome Próprio deveria ser vendida em lojas de produtos naturais e hortifrutis pelo Brasil afora.

E se a performance da Leandra é totalmente fluída, natural, orgânica, o figurino do filme entra no tom e não desafina. É um figurino não "figurinesco", um guarda-roupa muito do real, com peças que se misturam em combinações variadas no decorrer das cenas: uma camisetinha de alcinha usada com calça aqui e só com uma calcinha colorida acolá, uma saia jeans com blusa rosa de bolinha pro dia e com jaqueta preta pra noite, como é na vida de todo mundo, gente! Nada daquele desfiar interminável de "looks" a la Sex in the City, nada de marcas, nada de não repetir roupa, e apesar disso muita vaidade!

O mais legal é que isso fica estampado na tela porque toda essa fluidez rolava também no cotidiano do set: a Mariana Pamplona Iavelberg, figurinista do filme, concebeu esse guarda-roupa despojado e com cara de vida real que ficava numa arara indo pra lá e pra cá em todas as locações, e a própria Leandra escolhia o que vestir a cada cena, respeitando as regras de continuidade entre as cenas, claro, porque afinal de contas natural não é real, e o cinema, ainda que orgânico, tem as suas lógicas...

"Querido Mário,
Como fiz durante anos te escrevi uma carta e demorei tanto para postar que ela ficou velha. Então resolvi começar de novo. Era mais fácil escrever para você quando você morava longe e não sabia o que acontecia comigo e eu contava que estava doente, que não podia mais beber e você me respondia dizendo que andava viciado em Jack Daniel´s, mas que não tinha dinheiro e então tomava um conhaque vagabundo mesmo. Tive muita saudade de você, porque ficamos muitos anos separados. Você teve outras namoradas e eu tive outros namorados que me perguntavam de quem eram aquelas cartas. Eram todas do meu futuro marido, mas eu ainda não sabia disso.
Eu coloquei muitas cartas numa caixa de correio que tinha ali perto da FAAP porque eu fazia uma peça lá. Aquela caixa de correio era a coisa mais legal que tinha ali porque eu sabia que uns dois dias depois você receberia minha carta e eu poderia inventar qualquer coisa e, porque a gente não se via, aquilo seria verdade. Eu morava num prédio que não tinha elevador e uma vez caí feio na escada porque subi correndo para ler uma carta sua que tinha chegado. Fiquei com um roxo na perna e me lembrava de você: "foi o Mário". Não tinha sido, mas eu queria que tivesse. E então um dia a gente se casou. E aquele moleque que eu achei lindo e para quem eu sorri descaradamente, que ficou conversando e bebeu comigo e tinha uma voz muito grossa que eu gostava de ouvir, o cara que tocava blues e escrevia peças e entrava em cena de um jeito que eu nunca tinha visto, meu Deus, esse cara agora era meu marido. E então eu teria que ser bacana mesmo, porque eu não podia mais escrever para você. Não podia mais me inventar para você. E eu beberia, dormiria e tomaria coca-cola na padaria com você. Apresentaria a você meu lado B e provocaria uma coleção de brigas cheia de figurinhas repetidas. Mas a gente tinha um colchão. E uma TV velha. E finalmente tínhamos um ao outro. E você era tudo o que eu queria. E todos os dias seriam plenos de amor e ódio. Ódio de ser contrariada, de ser abandonada em minha imaginação fértil e má. E você não sairia de dentro de mim nunca mais. Muitas vezes. E hoje quando você está na rua e liga para casa marcando de se encontrar comigo no cinema ou em qualquer outro lugar eu fico ansiosa e tenho taquicardia quando olho de longe e te vejo me esperando. E então eu sinto sua mão na minha cintura e sei que você é o mesmo cara que me escrevia e recebia meus postais vagabundos. E percebo que nunca, nunca mesmo, vou me acostumar com você. Você bem sabe do que tenho medo: de que você morra antes de mim e eu fique aqui com essas cartas e essas fotos. Eu que nunca me acostumei com você terei que me acostumar a viver sem você e então sentirei sua falta para sempre.E essa sim será uma grande sacanagem. Não faça isso com aquela garota que sorriu para você, roubou seu chopp e sentou no seu colo. Porque ela é sua agora. Um beijo enorme. Com amor, Fernanda."


Fernanda D'Umbra.

E-mail emocionado que Murilo Salles recebeu do escritor e roteirista Reinaldo Moraes na época da Mostra Internacional de Cinema de SP.

***

De: "Reinaldo Moraes"
Data: 31 de outubro de 2007 15h8min14s
To: Murilo Salles
Subject: VIVA O NOME PRÓPRIO!

Só escrevo pra dizer que o filme de ontem bateu fundo pá daná.

Tudo surpreendente, inventivo, tocante, desconcertante. A Leandra é a própria rainha-diaba bukowskiana tentando agarrar o diabo do amor pelo rabo enquanto a vida rola escada abaixo.

O uso do texto como cenografia eletrônica das seqüências ficou demais. E eu nunca tinha visto em cinema um sexo tão climático, dramático, sob aquela trilha pontual, precisa. É filme pra papar todos os prêmios em Cannes ou Veneza, se alguém, no lugar certo, tiver o bom senso de indicá-lo.

Quando o filme acabou, e eu consegui finalmente me descolar na poltrona, disse pro Murilo que tinha achado fantástico, claro. É o que todo mundo diz ao diretor no dia da estréia, mas, com um filme daqueles, é impossível o cara duvidar dos elogios. Na seqüência, ainda com alma de ponta-cabeça, usei um adjetivo deslocado: "Difícil." Claramente eu queria dizer forte. Fortíssimo. Uma paulada poética, estética, ética atrás da outra.

Cinemadireto na veia.

abraços cinemacôpicos - Reinaldo Moraes

Textos num blog que geram textos em outros blogs que sáo copiados pra outros blogs que são comentados em outro blog, na grade teia literal que é a web. Tá rolando aqui direto: os comentários estão cada vez mais animados, quem deixa comentários nos leva pra outros blogs, e assim por diante. Já rolou até poema nos comentários!

Mas a gente quer mais. A gente quer fazer daqui um espaço de repercussão de idéias, não só sobre o filme mas sobre esse universo todo que tem a ver com ele. A escrita. A urgência. A mulher e seus desejos. Quem achar que tá nessa onda, manda seus links pra gente publicar. E como a internet é feita de bem intencionados "roubos", fiquem ligados porque estamos à caça por aí!

O texto aí embaixo foi "roubado" do blog Mona Lisa Station, da Violet Scott. Ela andou por aqui, deixando recados, e a gente acabou descobrindo lá um post que cabe perfeitamente no nosso clima. Ou alguém acha difícil imaginar Camila com essas botas vermelhas?

***

"Amor, sexo, vício e prazer. Está tudo em volta desse quadrado perigoso.

Praticamente um fenômeno. Aquela meia arrastão eu comprei em uma vendinha popular por um preço ridículo. Me senti gostosa nela. Aquele vestido é simples demais, sem graça que dói. Então tive de comprá-lo e costurar em cima para que ficasse digno de uma (uhum), de mim, naquela ocasião. As botas vermelhas vieram da Europa, mas não são Dior e nem nada do gênero. São de algum brechó em Paris.

Subi naquele palco com tanta vontade que achei que fosse ficar rouca. Tanta vontade. O que eu mais queria era ver você me olhando, morrendo de tesão e sem poder fazer nada. Pelo menos, não naquela hora. Ou melhor, hora nenhuma. Você viria me encontrar no backstage e eu não estaria disponível pra você. Hoje não.

Eu adoro, enlouqueço, quando todos os acordes se calam e a minha voz praticamente some. Adoro isso nos outros primeiro, depois em mim. Eu fiz questão de abaixar, como se ajoelhasse para deitar no palco, para olhar bem pra você e ter a certeza que você não sabia onde enfiar as mãos. Aquela calça nunca ficou tão apertada. Seus braços me pareciam trêmulos, nervosos e sem lugar. Por que você não tentou me alcançar no palco? Qualquer relada no meu corpo te faria bem.

Aquela exposição toda me deixou em transe. Don't you wanna be licked?

Saí completamente molhada, prazer puro sem qualquer exaustão. Deixei o ambiente que era ensurdecedor e libidinoso. Adio."

(Violet Scott)

Músicas de Camila