Um filme dirigido por Murilo Salles com Leandra Leal.
Baseado na obra de Clarah Averbuck.

FELIPE MESSINA

Camila vive o efêmero. Há, por um outro ângulo, uma relação distinta entre a velocidade com a qual a personagem muda de casa, muda de amigos, muda de amores e a maneira como processa em texto estas experiências. Cada dia de blog é mais um dia que segue, é mais uma página que passa. Mas, ao mesmo tempo, está tudo gravado, é tudo acessível, é tudo passível de se reviver, de se relembrar. Se cada post é um retrato de um dia, de um beijo, de uma angustia; se cada experiência nova é perseguida obsessivamente; se cada página pertence a seu próprio tempo; os tempos se mantém no digital. A escritora persegue certa permanência das experiências e a obra “nunca termina”. Nome Próprio pode ser encarado como um retrato de situações de seu tempo. Um retrato composto por várias mãos. Há nele as intervenções das vivências dos roteiristas, do diretor, da autora, da atriz. Nesta maneira de lançar o filme, o autor busca uma participação ainda maior do espectador e demais sujeitos deste blog. Além disso, o filme e o blog podem passar a ser elementos complementares de forma profunda. Até onde você pretende manter relações de criação com este projeto do ponto de vista da sua intervenção criativa? Em algum momento você pretende tirá-lo do ar ou pretende deixá-lo (filme/blog) correr vida própria? Ou, mais ainda, pretende participar da atualização deste blog continuamente compondo uma obra quase sem fim?

(Felipe Messina, jornalista formado pela UFRJ, cobriu o circuito de festivais de cinema para o site Imprensa Jovem (2000 a 2004). Atualmente escreve para o DocBlog da Globo.com, editado por Carlos Alberto Mattos. Dentre os textos destacados: cobertura e redação de resenhas do É Tudo Verdade (2007/2008) e Festival do Rio (2007). Como realizador, produz com outros parceiros um filme sobre o projeto Semente da Música Brasileira e seus bailes no Clube dos Democráticos)


MURILO

Felipe, estou lendo a sua pergunta hoje, estamos no dia 8 de Agosto, iniciando a quarta semana de projeção do filme. O blog que já teve mil visitas por dia, está hoje com umas quatrocentas e poucas. Eu sabia que ia ter uma tendência de esvaziamento, cheguei até a conversar várias vezes com o Léo Bittencourt, o editor do blog, sobre o quê a gente iria fazer. Eu achava que a gente devia continuar o blog, não apenas como um blog sobre o filme e sim como uma experiência de um espaço existencial, de afirmação existencial de uma galera que está aí perdida pelo Brasil e quer falar, quer fazer arte e quer pensar mais profundamente o seu cotidiano. Sempre achei que o blog poderia ir por esse caminho; mas isso tem que acontecer de forma espontânea, da mesma forma como surgiu a idéia do blog, de forma simples e natural, sem ser forçado.

O Blog do filme Nome Próprio foi criado pela Clarah e pela Leandra no início do lançamento do filme. Foram elas duas que tomaram a iniciativa e criaram o blog. Nessa época, eu estava numa luta desesperada para arrumar dinheiro para lançar o filme e o dinheiro não vinha, tive então uma proposta da “Oi” de disponibilizar o filme num site, no portal da Telemar. Fiquei pensando um tempo sobre o assunto e comecei a achar que aquilo tudo era muito “oficial”, não tinha haver com o filme. Na conversa com um dos parceiros do lançamento, o Beto Topczewski da Big Bonsai, tive a consciência de que o filme não precisava de um site, nem de um super portal, ele precisava ter um blog. Foi junto com o Beto que percebi que a pertinência do lançamento desse filme era ter essa unidade de linguagem; de fazer o filme continuar num blog, dele se perpetuar no relato e na relação direta com as pessoas. Foi nessa época que eu assumi e comprei a idéia de lançar o filme inteiramente através do blog.

É muito legal ler a sua pergunta agora. Porque estamos repensando o blog. Eu sempre achei que o filme poderia continuar no blog. Mas, na verdade, o cotidiano dos Posts e dos comentários tem caminhado para uma direção que eu não esperava. Imaginava que as pessoas fossem se colocar mais, usar mais esse espaço que a gente abriu. Nós provocamos, instigamos, mas não deu muito resultado; com exceção do concurso do trailer que foi um puta sucesso. Os textos e materiais mais filosóficos e artísticos foram enviados por pessoas amigas, parceiros, a Alessandra Cestac, Lucas Bambozzi, Edouard Fraipont, Deisy Xavier e de algumas pessoas da equipe do filme. Agora, poucas pessoas realmente escreveram comentários e textos interessantes, que se colocaram mais pessoalmente. Tivemos boas e gostosas surpresas com a Violet Scott e o Rodrigo Luques, além de outras pessoas que me fugiram o nome agora. Teve um cara que viu o filme lá no Ponto-Cine, mandou uma poesia e a gente publicou, mas foram casos isolados. Enfim, eu meio que desanimei um pouco. Essas coisas têm que surgir de forma espontânea, ou então não faz sentido. Não dá para forçar. Dá para instigar e isso a gente tem feito. Estou mantendo até agora o blog, pagando para ver. Ainda vou escrever mais algumas coisas. Pode ser que enquanto a gente tiver energia aqui no escritório, eu e o Léo, a gente vá mantendo o Blog, vamos ver até quando.

10 comentários:

.lucas guedes disse...

pô murilo, que história é esta de desânimo? bom, por um lado acredito que o blog deveria continuar porque sempre vai ter alguma coisa pra falar sobre o filme. ele ainda está em cartaz e vai ficar por mais tempo. logo vem dvd (espero) e por aí vai. por outro lado, a partir do momento que o filme já foi lançado e as pessoas vão assistindo, não há muito o que comentar por aqui, a não ser algumas impressões e pronto. por isso (acredito eu) o número de acessos tem caído. resumindo: o blog foi uma ÓTIMA iniciativa. acompanho o lançamento do filme desde o ano passado e o blog foi uma ótima ferramenta. se o blog acabar, ok. se não, ok também. outros filmes teus virão e com eles, novos blogs. parabéns ao pessoal que atualiza este aqui.

Gabi disse...

Às vezes tenho a impressão de que o Murilo Salles se sente o grande salvador da arte brasileira. As pessoas podem criar seus próprios blogs, inventar novas intervenções, reunir grupos de discussão e produção. Acho um tanto quanto petulante se decepcionar pq elas não vieram fazer isso aqui no blog. Não que elas não possam, eu mesmo venho e gosto bastante, mas só pq o blog é legal e não a última salvação do espaço criativo no Brasil.

Anônimo disse...

talvez muitos não saibam do blog... só.
mas vale a pena estar aqui.

Ryane Siqueira disse...

O primeiro site que entro ao ligar o computador é este blog, e mesmo que seja um dia sem atualizações, eu deixo aberto, pra ficar ouvindo música, pra depois ler um post antigo, assistir algumas pequenas edições postadas aqui.
Eu concordo com o 'anônimo aí de cima', vale a pena estar aqui. Acho que muita gente escreve sobre o filme, não aqui, mas no próprio blog. E fiz isso, mas comento aqui sometimes, porque sempre tem algo interessante, artístico, poético. E a maioria das pessoas acabam incorporando o filme em si, nas suas palavras, na sua rotina, no seu intenso, acho que essas manifestações acabam ocorrendo diariamente, não necessariamente por aqui, mas na vida, em 'uma história real'.
Gosto daqui.

Victor disse...

Murilo espero que leia isto!
Sou de Santos-SP, assisti o filme duas semana e meia atras com o pessoal da faculdade, nós estavamos de férias fui eu q agitei pra galera ir....hehehe Estou escrevendo porq entrei no site de noticias e vi q o filme tinha ganhado varios premios, fiquei com uma duvida e vim ver se encontrava a resposta. Não encontrei, mas tive a resposta mas fiquei com algumas dúvidas e com vontade de falar quando vi o seu posti dizendo que as pessoas usam pouco este espaço, e acho q isso é verdade. Acho q falta pra grande maioria das pessoas saber q a gente pode fazer alguma coisa, seja essa coisa postar em um blog e colocar a sua opinião como tambem mudar algo simples no nosso dia-a-dia que pode ou não fazer alguma diferença, e essa atitude se quer é tomada para aí então sabermos se podemos ou não mudar algo. Ficaria aqui filosofando(kkk) sobre algumas questões que vc levantou mas acho q esta bom por este post, mas chega de encher né....
Na minha classe foram interessante as coclusões sobre o filme em si e sobre a personagem Camila, e quando chegar amanhã vou avisar a galera sobre este espaço q foi aberto por vcs para que haja esse tipo de troca....
Parabens pelo filme e espero poder trocar outras ideias aqui..
Minha pergunta: O filme foi feito com uma dessas novas cameras que gravam em formato cinematográfico? (espero poder ter a resposta)
Abçs a todos,
Victor

Luciana Motta disse...

Quando acabamos de ver um filme ou ler um livro que gostamos muito, temos a impressão de ter ficado órfãos. Com o livro, às vezes retardo o momento, com o filme nem sempre é possível. Ainda mais quando assistimos um filme no cinema.

Assim me sinto com Nome Prório. Queria saber dela, como uma amiga que não vejo a algum tempo. Quero saber se ela conseguiu virar escritora e coisas do seu cotidiano. Tem algo de voyeur acompanhar a vida de uma pessoa num blog.

Algo de Big brother. Sei que se falarmos de BBB, enfrentarei um preconceito por parte de quem lê aqui o blog. Mas pode perguntar a qualquer telespectador de BBB o que ele sente quando uma versão termina. As pessoas querem saber daquele personagem, o que acontece depois da vida de um anônimo que entra no BBB. Não tem mais câmera para acompanhar. Só site de fofoca e olhe lá. Depois esquece porque é efêmero. Não há muita profundidade neste tipo de programa.

Há uma preocupação da nossa sociedade que está sempre sendo vigiada de saber o que acontece na vida alheia. No passado tínhamos uma novela com começo meio e fim. Mas as pessoas gostam de vida real. Percebo que muitas biografias são best-seller.

E agora quando as histórias não terminam. O que fazer com este sentimento de vazio? Que torna mais confuso, que estamos conectados na internet porém desconectados de tudo mais.

Acompanho este site como forma de saber da Camila. É como se aqui fosse a continuação da vida dela.

Como sugestão, deveria abrir espaços para outras Camilas se expressarem como escritoras. Abra um espaço para contos. Pensando numa continuação do filme ou da vida Camila.

Luciana Motta disse...

Só esqueci de comentar uma coisa. Quando eu era criança achava que seria escritora. Quando cresci esqueci disso um pouco. Então com o filme relembrei este desejo e até fiz um blog como exercício da minha criatividade. Até para me descobrir o meu estilo e se tenho realmente talento pra isso.

Subiro abrir espaços para blogueiras. Tem tantas que fazem sucesso na net. É só descobrí-las.

Um abraço e parabéns pelos prêmios no Festival de Gramado. Vocês mereciam.

Nome Próprio disse...

Graças a Deus, ou melhor, graças a muita gente espalhada pelo Brasil, o blog Nome Próprio está longe de ser a última salvação do espaço criativo brasileiro.

Gabi, nem sequer o Murilo acha isso! O que ele gostaria é que o blog transcendesse o espaço do filme e virasse um lugar de encontro e visibilidade para pessoas que se identifique com as mesmas questões que nós. É um desejo, apenas isso. Esse blog é para nós muito mais que um mero espaço de propaganda do filme e tenho certeza que para muita gente também.


Léo Bittencourt

Nome Próprio disse...

Olá Vitor, o filme foi feito com a Panasonic HVZ200. Ela grava em 720P, ou seja, em 720 linhas, quadro a quadro, não há entrelaçamento de quadros. Não é mais vídeo, porque não se trata de um processo analógico, não há mais gravação em fitas. É um processo totalmente digital, binário.

Essas câmeras novas têm surgido e melhorado muito rapidamente o que favorece a queda dos preços. Mas, o principal não é ter uma puta qualidade de imagem. Têm filmes ótimos feitos por camerazinhas vagabundas, principalmente documentários mais alternativos. Não fique esperando a câmera dos seus sonhos, filme os sonhos com o que a realidade te dá.

Nome Próprio disse...

Luciana, esse espaço está aberto! Nós já postamos alguns textos de outros blogueiros aqui. Já postamos críticas e poesias de pessoas que visitaram o blog. Teremos o maior prazer em publicar um conto de alguém que se identifique com o universo da Camila. O problema é que pouquíssimas pessoas se pré-dispuseram a nos mandar alguma coisa. Porque vc não nos manda algum texto? Prometo que leremos com carinho e se tiver haver com o blogue publicamos com o maior orgulho. Bem, fica aí o convite.

Léo Bittencourt.

Músicas de Camila