Um filme dirigido por Murilo Salles com Leandra Leal.
Baseado na obra de Clarah Averbuck.

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Matéria de hoje do blog Repique, de Paula Guedes.

Vencedor em Gramado discute formato do cinema




Vencedor do prêmio de Direção de Arte em Gramado, com o filme "Nome Próprio”, Pedro Paulo de Souza, conta aqui para o Repique todas as idéias por trás do conceito, cenário e cores de um filme autoral brasileiro.

Repique - Como foi ganhar esse prêmio em Gramado?
Pedro Paulo de Souza - Foi muito bizarro. Eu fui para Gramado para a abertura do Festival, participei da coletiva de imprensa na segunda-feira, e voltei para São Paulo. No outro sábado, no dia da premiação, resolvi ligar a TV para torcer para a Lelê (Leandra Leal), quando a 1.ª coisa que vejo foi a Rosamaria Murtinho falando “Pedro Paulo por Nome Próprio” – como eu era indicado fiquei esperando ela falar os outros nomes que concorriam, e de repente vi a Leandra Leal levantando da platéia. Caraca, ganhei o prêmio!

Que delícia.

Sim. Fiquei muito feliz. Especialmente porque os prêmios de Arte, Montagem e Música em Gramado são dados por estudantes de Cinema, que são convidados pelo Festival para votarem esses quesitos. Para mim, tem um gosto especial e eu me sinto muito lisonjeado de ter sido escolhido por gente que está brigando por conhecimento, que está tentando entender as coisas de outra forma. Até o ano passado não havia no Festival o prêmio de Direção de Arte, não tinha esse quesito mais técnico.

E o que está por trás da Direção de Arte do “Nome Próprio”?

A gente partiu de um registro quase documental porque o filme precisava ser o mais natural possível. Não podia ser muito detalhista porque daria mais informação do que o público precisaria. Os ícones, a forma de discagem, a estrutura do blog - era necessário que não aparecessem tanto, porque o Nome Próprio de certa forma é um filme de época, se passa em 2001 - e isso quando falamos de blogs e internet é praticamente datado - a maioria das pessoas não tinha banda larga, a internet era discada, os navegadores eram outros, não tinha Google, não tinha Altavista. E precisava ficar claro: “Olha, estamos falando de uma época que não é hoje”.

Por que não hoje?

O filme é baseado nos livros da Clarah Averbuck, que descreve um período em que ela tinha um blog, em 2001, um tempo em que não havia esse boom de blogs, em que o blog era um espaço para se expor, por exemplo, quando ela faz a declaração “esse blog não permite comentários”. Uma época em que ela era muito assediada. Se fosse hoje seria outra coisa.

O filme é cheio de vazios.
O filme tem muito vazio. Os ambientes dela são todos vazios porque precisávamos ressaltar a riqueza do universo interior daquela mulher, para que o público tivesse atenção focada em suas reações. O cenário mudava à revelia do que ela estava pensando. Tivemos o maior cuidado que aquilo fosse realmente um ambiente natural para que o ator se sentisse à vontade. Foi uma preocupação que surgiu durante a preparação de atores em que tive que construir alguns objetos de apego – coisas que pudessem estar na bolsa dela, os discos, livros. Outra preocupação foi criar uma série de estranhezas com relação à própria continuidade do filme - objetos que estão numa cena quando ela sai do quarto e quando volta já não estão mais, roupas... porque a história não é o que está na cabeça dela, o tempo em que ela escreve não é o mesmo em que o internauta lê. Deixamos no set tudo aquilo que é para ser assistido – que é quase nada, porque tudo o que está por perto faz sentido, à meia distância, não – o que possibilitaria termos colocado uma banda lá tocando.

Adorei como os textos aparecem no filme.

Ela conta uma história sobre coisas que estão no seu imaginário. Precisei construir a palavra escrita porque estamos falando de Literatura – eu literalmente precisava colocar palavras na tela, pois o texto dito e o texto lido são diferentes, têm outro tempo.

No fim acabou que “Nome Próprio” é super atual...

“Nome Próprio” também discute formato - o filme não tem película, a captação foi toda direta em HD; discute plataforma de comunicação... foi um filme lançado através de um blog, em que pudemos construir uma conversa e passar adiante a discussão que tivemos. Foi além da projeção na tela e isso tem a ver com internet, linguagem e suporte. Tivemos esse cuidado desde o início.

Clip dirigido por Marcela Lordy (Diretora assistente de Nome Próprio), com Leandra Leal em todo o seu talento, agora também como cantora.


Para fechar o quadro de artistas plásticos que participaram do filme, Daisy Xavier.

A página de um caderno ou a tela do computador são pequenas, não dão vazão aos sentimentos. Camila precisava de espaço, de mais espaço para dar conta de si. E para acomodar essa pulsão criativa, Daisy Xavier faz da parede a moldura do fluxo de pensamentos de Camila, acolhe em colagens o transbordamento da personagem. É através de suas mãos que se forma visualmente e ganha corpo a massa complexa de intuições, anotações, decalques, e fotos de Camila.



Essa pesquisa que aparece grande e robusta no filme começou pequenininha, como um exercício nos cadernos pessoais da artista. Exercícios sem pretensão, exercícios de olhar, para o olhar. Uma livre experimentação de meios e linguagens, um prazer.

Daisy Xavier
Artista plástica e psicanalista. Sua formaçăo em artes plásticas teve início no Núcleo de Aprofundamento no Parque Lage do Rio de Janeiro em 1990, onde fez também outros cursos com Miltom Machado, Daniel Senise, Beatriz Milhazes e Paulo Sérgio Duarte. Realizou várias exposiçőes individuais, entre elas: Mesuras, nas Cavalariças do Parque Lage, 2005. Nadando, na V Bienal do Mercosul, Porto Alegre, 2005. Passantes, Instituto Tomie Ohtake, Săo Paulo, 2007. Galeria Laura Marsiaj, 2007 e 2003. Mind the net (CFAR, Londres, 2001).

Suas obras buscam investigar questões ligadas às identidades e as alteridades. Seja pela desconstrução ou pela recriação de formas e conceitos estabelecidos, a artista cria imagens de forte carga poética onde o corpo deixa de ser meramente físico e passa a representar zonas permeáveis. Elementos como a rede e a água são recorrentes nos trabalhos da artista - sejam vídeos, fotos, instalações, pinturas ou desenhos. Ambos elementos não deixam definir o que se encontra dentro ou fora, criando campos intercambiáveis, de constante mutação.

Estamos disponibilizando um pouquinho dessa pesquisa; primeiro o processo de montagem das colagens no filme e depois os cadernos.

















Pedro Paulo de Souza, nosso querido diretor de arte, revirou seu baú virtual de arquivos e fotos e encontrou uma preciosidade. Uma antiga imagem trabalhada para o filme. Um teste de como seriam usados visualmente os textos de Camila, de como as paredes e o chão iriam acolher seus pensamentos e angústias.

Pode até parecer, mas não é! A densidade é a mesma, as questões são similares, mas o estilo é distinto. Nessa parede não está Camila, e sim Pedro. Essas linhas contém não apenas o início da pesquisa estética de Pedro Paulo, mas a sua sensibilidade ao filme.


“sertão, sertão, sertão
estar diante do vasto, do que pode
ser gigante.
estar diante do que é fora sem ser
vácuo, void, vazio.
olhar para fora e reconhecer lugar
nenhum.
estar diante, estar de frente, estar
de fato.
ser, estar transitório.
ser estar contínuo.
ser tão. Como ser tão?
qual o limite de nossas
considerações?
como nos dar a medida dos
tamanhos que não cabem na
experiência do nosso corpo?
sertão interno que nos põe diante da
nossa pequenez.
doce canção de Marlene nos fazendo
supor um lugar que é home.
lugar de acolhimento, de nos trazer de volta, porto feliz.
lugar de lançamentos.”

Nessa quarta-feira batemos todos os filmes do Arteplex Unibanco! Sessão de 4:30 da tarde lotada! Que honra, Rio de Janeiro! (Só perdemos para o Batman, mas, melhor dizendo: perdemos para o Coringa, não para o Batman...)

Tivemos muito mais espectadores que: "Kung-fu Panda", "Hancock", "O Agente 117", "O Sol", "As Aventuras de Molière" e "Uma Garota Dividida em Dois".

Isso é sinal que existe uma enorme tribo de pessoas sensíveis e que querem ARTE e querem se sensibilizar. Pessoas especiais. Para ser especial é preciso sair da mesmice. Precisamos construir uma narrativa existencial que valha a pena. Precisamos escrever nossos Nomes Próprios com letra maiúscula.

Valeu, Rio de Janeiro! Vocês fizeram o nosso filme valer a pena!

(Equipe e Elenco de Nome Próprio)

Tenho trabalhado com o Murilo há alguns anos, fomos parceiros antes em Seja o que Deus Quiser e em És Tu Brasil / Alexandre Herchcovitch.

Tive desde o inicio deste projeto, muita proximidade com todo o processo e quando Nome Próprio me foi apresentado ainda se chamava Uma Menina Má, que depois se transformou em Máquina de Pinball, Vida de Gato, sendo ainda Uma História Real antes de ser lançado como Nome Próprio.

Devo dizer que o que me motivou inicialmente, visto que não sou um profissional de direção de arte apenas ligado ao cinema, foi a oportunidade de dar continuidade aos trabalhos que faço com o Murilo. Vi também a possibilidade de estar em uma produção, de baixo orçamento, cujos contornos julguei muito interessantes.

Meu ponto de vista é que, como todos sabemos, cinema é um oficio muito caro e que na grande maioria das vezes envolve dinheiro ou parceria com setores públicos, portanto estar em uma produção de qualidade que se configurava com moldes de produção de baixo custo era uma experiência muito construtiva.

O que realmente me interessa é produzir, com valores de baixo orçamento, um produto cultural de qualidade.

Acho mesmo que propostas como esta são fundamentais em um país rico, mas cheio de desigualdades.

Gosto de imaginar que estamos viabilizando um discurso potente que pode fazer alguma diferença no processo de massificação.

Um país que não pluraliza seus setores de cultura, que não dá voz a projetos individuais, corre o risco de se tornar monocórdio e desinteressante, o que mais tarde pode fazer com que todo o setor fique desqualificado.

Pode fazer com que setores de áudiovisual não respondam aos anseios de um país diverso como o nosso, deixando para nós a qualidade de irrelevantes.

Como não acho que apenas o poder público pode arcar com tal potencia, um filme produzido com baixo orçamento, alta qualidade e tecnologia específica, tem grande importância em toda esta equação de cultura.

Enfim entrei neste projeto muito pelo o que ele pode me ensinar em termos de produção, para dar vazão a produtos de qualidade, com estéticas e potências específicas, em uma tentativa de criar diversidade e tornar mais interessante o discurso áudio visual como um todo.

(Pedro Paulo Basílio de Souza
Diretor de arte de Nome Próprio)

diretor de arte de "Nome Próprio":

Fonte: Anunciato

Não foi assim exatamente uma surra, talvez esteja mais próximo de um chega para lá. Mas, um chega para lá de RESPEITO! No Rio, no Arteplex Unibanco, único cinema que dividimos salas com o morcegão, tivemos mais espectadores nas duas principais sessões: das 19 e das 21h. Se não chegamos ainda a incomodar o nosso primo rico, já podemos dizer que somos uma pedrinha na sua bota super equipada!

Em briga de Davi e Golias uma pedrinha já é uma vitória!

O artista multimídia Lucas Bambizzi fez do set de filmagem de Nome Próprio um lugar de experimentação. Incorporou o filme a sua linguagem e o retrabalhou. Retrabalhou de tal forma que fez virar outra coisa, incutiu novas questões e o seu nome ao Nome Próprio.

"Silêncio, vai rodar" ... "Mais uma"
Junto com ruídos cotidianos de um set de filmagem, essa é a principal
"trilha sonora" do trailer que Lucas Bambozzi fez com o
material de bastidores do "Nome Próprio". A repetição, a aridez e por vezes a ação contida, são a perfeita tradução do fazer cinematográfico. O vídeo revela, em cerca de 1 minuto, a concentração da Leandra, a equipe super reduzida, o apartamento real em que as cenas se passam e o clima de intimidade que todos esses elementos juntos geram.
É um olho na fechadura do filme. Uma espiada consentida, mas nem por isso menos reveladora.




Primeiro o cigarro, a bebida e depois ...

A mão trêmula, o olhar fixo e outro cigarro. + outro, uma bola, outro cigarro; uma bebida para relaxar.

Não. Não é um comercial junk de cigarro nem de bebida. É Camila tentando escrever.

Nome Próprio – remix de Lucas Bambozzi é uma série de vídeos em que o artista desenvolve um olhar pessoal sobre o filme. No primeiro, a compulsividade inerente ao set de cinema, no segundo e no terceiro a compulsividade inerente à Camila.





o projeto que deu origem a pesquisa feita junto ao filme chama-se Presenças Insustentáveis e está aqui:


_ trabalhos antigos de lucas bambozzi: www.comum.com/lucas
_ trabalhos postados aleatoriamente: www.youtube.com/bambozzi

Lucas Bambozzi é artista multimídia, documentarista e ocasionalmente faz pesquisas e curadorias em mídias digitais. Trabalha em vários meios e suportes tendo construído um corpo consistente de obras em video, filme, instalações site-specific, intervenções em mídia, videos musicais e projetos interativos. Seus trabalhos vem sendo frequentemente premiados e exibidos em festivais e mostras em mais de 40 países.

Passos, pássaros, freadas, fumaças, buzinas. Um turbilhão de estímulos nos ouvidos, olhos e narizes de São Paulo. Em meio a essa cidade pulsante; em muros, postes e viadutos, um corpo se funde à paisagem.

Quando vc menos espera, o seu olhar bate e pára. Você acaba de encontrar Alessandra Cestac.







Das ruas para dentro da casa de Camila. A parir da pesquisa dos lambe-lambes e do trabalho de intervenção urbana, Alessandra foi convidada a fazer uma intervenção no filme. É dela o corpo que flutua na parede do quarto da Camila. Ela foi uma das integrantes da festa de open house do apartamento da personagem; uma festa que nunca aconteceu.

Assim como os outros convidados, ela deixou uma marca, no seu caso, o corpo.





Além das performances na rua e no filme, Alessandra tem feito performances aqui no blog, todas 2ª, 4ª e 6ª às 21h. Quem quiser conhecer a moça, já tem um encontro marcado.

Muitas pessoas contribuíram para a constituição da personalidade e do mundo de Camila.Entre elas um grupo de talentosos artistas plásticos. Apresentaremos um pouco do trabalho de cada um deles. A forma como eles se apropriaram do filme em suas pesquisas pessoais, Edouard Fraipont e Lucas Banbozzi, ou como suas pesquisas foram apropriadas pelo filme, Alessandra Cestac e Daisy Xavier.

Começaremos pelo trabalho que apresenta o filme, o do fotógrafo Edouard Fraipont. Ele é o responsável pela linda e enigmática foto da Leandra Leal que dá corpo ao cartaz do filme. Um corpo que não se entrega, que convida, que inquieta.

No texto Definidamente pelo indefinido... do livro/catálogo do CCBB-SP “Um indeterminado”, Edouard Fraipont discute o ato de fotografar a si mesmo, suas imagens e a força da imaginação. Apesar dos trabalhos referidos no texto terem como base o corpo do próprio artista, é interessante ler e pensar como essa pesquisa se apropriou do corpo de outra pessoa. O que muda e o que permanece? Como o corpo humano interessa a Fraipont? Copiamos um trechinho para aumentar a curiosidade para aquilo que está oculto aqui

"Neste trabalho que aqui apresento, em todas as imagens, um único ser é fotografado. Com isso quero reforçar o princípio de singularidade que a imagem indicial estabelece com seu referente, único e determinado. Mas este ser, por meio da fotografia, se indetermina. Ele deixa de ser um para ser outro, ser múltiplo ou parte, para anular-se. A fotografia mexe com sua representação, com a visão de suas extensões corpóreas e forma seres semi-estranhos e imagináveis. A fotografia é, aqui, como a memória concreta de um ser que nunca existiu mas que de alguma forma se deu. Como se a fotografia fixasse imagens oníricas, imagens que se formassem somente no interior do intelecto — fotografias do númeno — apesar de sabermos serem meras transposições de fenômenos sensíveis. Mas o registro não pára frente ao fato vivido junto ao fato real, e o ultrapassa numa coreografia que espelha intenções, gestos, narrativas internas que possibilitam realizar em imagens fixas certos fluxos do imaginário. As imagens oferecem visões nas quais minha imaginação agora pode se inspirar".


Edouard Fraipont é artista visual e fotógrafo. Formado em cinema, trabalhou inicialmente como foto-documentarista. Desde 1997 desenvolve um trabalho que mescla experimentação fotográfica com a produção de retratos e performances. Teve exposições individuais na Galeria Triângulo, na Galeria Vermelho e, a última, no CCBB-SP no final de 2006. Em 2005 foi contemplado com a bolsa da FUNDARPE e em 2007 com a bolsa do ARTIST LINKS pelo British Council.











Pra quem não sabe, Viviane Mosé é a responsável pela redação e edição final dos textos escritos e ditos em off pela Camila no filme. Nem tudo que está lá foi escrito por ela, mas tudo passou pelas suas mãos, e é muito dela o tom lírico dessa voz feminina de Nome Próprio. E lendo um poema como "Outra carta", do livro já esgotado Toda Palavra, a gente entende o porquê desse convite.

Outra carta
(Viviane Mosé)

"Eu não sei se por esse vento frio entrando pela janela
ou quem sabe por esse vento frio entrando pela janela
ou mesmo por esse aconchego de meias de lãs e esse vento frio
entrando pela janela
ou por qualquer que seja o que for
[eu quero te dizer tantas coisas:
Todos os passos que dei um a um
[e todas as coisas que passaram
e tudo que foi se misturando ao que eu era.
Pra você ir sabendo o que sou
[posso cantar cada música que ouvi
e cada livro e cada bula de remédio e cada rosto
e cada tostão emprestado cada choro.
Os avisos e as ruas
[os andaimes as manchetes os incêndios os sinais.
Todas as manhãs. Todos os dias santos.
Tudo que me atravessou eu quero te mostrar
o corpo que ganhei esses anos os fios e as falhas
a voz e o avesso e o tempero e a calma.
Quero te contar o silêncio alcançado a custa de guerras
e as terras que plantei e os temporais. Os temporais.
E os nós na garganta.
É maio e eu morro de vergonha de falar de amor.
Mas esse vinho quem sabe veio aos verbos mostrar
que preciso de sua boca e seu cabelo e seu cheiro e sua mão:
eu não sou só verso
sou um corpo em lençóis de pele a te vestir como luva.
Meu corpo a te vestir
como luva.
Embriagada de vento e vinho penso na morte
e em seu pau duro".


Viviane Mosé é filósofa, professora, poeta de livros lindos, dizedora dos seus versos em palcos diversos, mãe do Davi, e responsável pela loucura maravilhosa de apresentar um quadro sobre filosofia no Fantástico. Como sempre acontece, uma função contamina a outra, a ação contagia o pensamento e bate-e-volta, e vice-versa, e o resultado é que tudo que a Viviane faz tem poesia dentro, e a poesia dela é cheia de filosofia.

Luciana Batista, nossa querida assistente de Direção, nos mandou esse lindo post sobre a sua experiência no set. Divirtam-se!

Falar em Camila não é fácil... é muito apaixonante fazer cinema, mais apaixonante ainda é fazer o cinema que a gente se identifica, que fala com o nosso universo... lembro que na primeira conversa com o Murilo, Cariri e Marcela, já entrando um pouco no universo de Camila, saquei que a balada ia ser rock n’ roll... pela energia do roteiro, pela energia da equipe, e pensei “fudeu, vai ser difícil sair emocionalmente ilesa dessa brincadeira”... não deu outra: quando vi uma parte dos meus livros, colares, bottons e sei lá eu mais o quê misturados com o universo de Camila, no figurino e no cenário dela, ficou um pouco difícil também discernir a Luciana pessoa física da Luciana Assistente de Direção... o que foi uma maluquice deliciosa,... sentir uma energia de cinema que talvez só tenha existido nos meus sonhos em participar dos filmes marginais dos anos 70, onde tudo era meio misturado, meio sonho e meio vida real,... equipe pequena, filme pequeno, e sensações grandes... De Camila levo a reafirmação do quanto é bom encher a cara de vodka e ultrapassar o limite, sempre na tentativa insana de engolir o mundo... e do filme, seguindo a tradição das frases na Ordem do Dia, fica apenas uma boa frase: “Há eventos de natureza tão delicada que fariam bem em soterrá-los e torná-los irreconhecíveis através de uma grosseria” (Friedrich Nietzche)
Lu Baptista.


Aproveitando a confusão confessa entre as Lucianas, do set e fora dele, introduzimos mais uma, a Lucina Baptista na cena, atriz!

Entrega, cumplicidade, comunhão, garra, trabalho, superação, tolerância, paixão, dores. Muitas foram as palavras que já rolaram aqui no blog para tentar definir a relação intensa que ocorreu no set de filmagem de Nome Próprio entre os seus muitos autores: seus atores e equipe.

Marcela Lordy, diretora assistente do filme, escreveu um texto dando a sua versão de como foi esse set de filmagem tão diverso e intenso e, por isso mesmo, tão próprio.


Marcela Lordy / Diretora Assistente



Mais uma divina Camila da equipe. Murilo se cercou de muitas Camilas para criar este filme. “Marcelinha, você tem que me dizer se rola, se não está exagerado, se não é um olhar masculino. eu preciso disso.” E assim fui. Entrei muito antes e sai um pouco antes também. Muita intensidade. Literatura beat, o mundo rock e o cinema. Aprendi bastante com o Murilo. Camila era uma projeção da nossa identidade, liberdade, independência, força criadora e tesão pela arte. Foi um presente trabalhar com o universo feminino contemporâneo, de jovens artistas paulistanas. Mulheres de idéias, opinião, que sabem o que procuram, vivem da sua arte e buscam o amor. Mulheres que não temem seus desejos, opções existenciais, obsessões, dificuldades, prazeres, princípios e tão pouco os preconceitos que sofrem. E lá estava eu, cada dia mais Camila, e Leandra cada dia mais Clarah, e Clarah cada dia mais próxima e Leandra-Camila ia se desenhando bem na nossa frente. Fomos nos descobrindo ao ponto de nos encontrarmos, por acaso, às cinco da manhã na torre do dr. Zero em plena quinta-feira de pré-produção. Nenhuma palavra, apenas nossos olhares. Cumplicidade. Leandra fugida do laboratório no apartamento do filme e acompanhada de Clarah, e as duas visivelmente fundidas numa só Camila. Assim foi Nome Próprio. Assim aprendi morar sozinha, ser ainda mais romântica, comecei escrever e acreditar no que realmente quero: amar e fazer cinema.

“Eu quero o seu amor, mas não quero emprestado, ter hoje e devolver amanhã” Clarah Averbuck

David Katz, ator que interpreta o personagem do Guilherme, foi a uma das pré-estréias de Nome Próprio e nos mandou esse texto com suas impressões e inquietações com o filme, com São Paulo, com a vida.

Agora que já apresentamos o personagem Guilherme, está na hora de dar voz ao ator:

De onde vem à poesia nos tempos em que vivemos? O que me inquieta em "Nome Próprio" é essa busca dissecada conduzida por Murilo em um filme urgente que transborda ao publico delicadeza, dor, intensidade e principalmente: paixão.

São Paulo guarda em suas "gavetas" habitadas heróis de curiosos romances, romances que tão raramente sabemos qual é a epopéia de nossos vizinhos, sim ainda somos gregos e trágicos, e também ainda somos românticos e renascentistas em pleno século 21. Cada herói tem sua forma de relatar sua historia, Beatriz é escritora e faz de Camila o seu veiculo de narração, de poesia. Todos nós precisamos de poesia mesmo aqueles que não entendem ou não enxergam ela em sua vida por que não se entregam ou simplesmente não sabem se entregar à poética que rege nossas vidas, nossas historias.

Eu entendo que apenas com entrega total do espectador é possível ver "Nome Próprio", não poderia ser diferente já que todos envolvidos nesse projeto tiveram coragem de se jogar nessa coisa misteriosa chamada paixão para a realização do filme. Só assim era possível contar esta historia. Existiu em nós muita urgência de vida, de contar essa historia, de narrar para poder se libertar desse silencio que nos agride tanto em São Paulo (e acredito que em todas as grandes metrópoles), em nossos apartamentos, com nossas rotinas mudas, com nossos computadores, com nossa espantosa dificuldade de se comunicar verdadeiramente com alguém. Camila/Beatriz, Marcio, Guilherme, Paula, Daniel, todos os personagens do filme tentam resolver de sua maneira
a sua solidão a sua carência por alguém com quem consiga verdadeiramente se comunicar, no fundo é o que todos nós mais queremos: ser compreendidos e amados pela nossa essência, sem maquiagens.

O olhar não mente, a fotografia e a direção de arte do filme constrói algo tão cru que você se sente nu junto com Camila, despido de qualquer mascara e em busca de algo urgente que te resolva o corpo, e então junto com ela nos diluímos em busca de um Nome Próprio que nos de algum sentido a nossa narrativa.

Como ator vivi todo o processo muito intensamente, a poesia não suporta mentiras e logo por conseqüência esse filme também não. Conduzidos por Frederico Foroni no Estúdio Fátima Toledo passamos todos por um processo muito intenso onde a insegurança, a angustia e a delicia de viver uma paixão reinou até os términos da filmagem e posso dizer por mim que até hoje tenho cada vez mais essa urgência, com certeza hoje consigo ter mais paixão e poesia em qualquer coisa que eu faça.

Penso que se o publico fizer como todo elenco e equipe fez ao gravar e se entregar com Camila em busca de seu Nome Próprio ganhará no mínimo um olhar mais sensível e intenso sobre a vida.

(David Cejkinski)

Há uns dias postamos o texto do Murilo,"Olho que olha", sobre a fotografia de
“Nome Próprio”. Murilo, que além de diretor, co-fotógrafo e câmera, teve como parceira na construção visual do filme a diretora de fotografia Fernanda Riscali.

Agora é a vez da Fernanda dar a sua visão desse processo, complementando,
acrescentando e até discordando do texto do Murilo. Afinal, esse blog é
pra isso mesmo: pra sobrepor informações, somar pontos de vista, gerar
debate. Participem!


Meu olhar sobre NOME PRÓPIO

Idéia, conceito, opção estética. Este foi o ponto de partida para a criação das imagens de NOME PRÓPRIO.

Duas pessoas num set, executando uma mesma função criativa, poderia ser um pesadelo com resultado catastrófico. Mas apesar da fotografia ter sido executada “por quatro mãos”, acredito que eu e Murilo sempre concordamos e tivemos muito claro em nossas mentes QUE FILME ESTÁVAMOS FAZENDO.

A idéia inicial de fazer um filme com LUZ EXISTENTE, uma captação quase documental, sempre norteou nosso trabalho. Nesse sentido, estudar a luz ambiente de cada locação e pensar como criar “traquitanas” para iluminar minimamente esses ambientes, foi fundamental.

Outra questão importante foi entender que estávamos fazendo um filme digital. Assumidamente digital, tanto no processo de trabalho quanto na característica das imagens. Nunca pretendemos trabalhar em película, nunca tentamos parecer película. E acredito que isso tenha sido um grande acerto.

Entretanto tenho que discordar do Murilo quando ele diz que o digital “nos liberta do poder do domínio de uma técnica”. Para traduzir idéias em imagens sempre necessitamos de uma técnica e para mim, NOME PRÓPRIO é um exemplo disso. Durante o processo do filme nós evoluímos, aprimoramos nossa técnica a serviço da idéia primordial de ser um filme do OLHAR. A meu ver, dominamos o digital com o tempo, com o conhecimento gradual da câmera, de como usar a luz a nosso favor e de como expor corretamente. Nossa concepção inicial nunca se perdeu, mas conseguimos criar imagens mais belas e mais poéticas quando entendemos como captar nossas idéias através dessa câmera. Por isso acredito que NOME PRÓPRIO é um filme OLHO, mas também um filme câmera e sobretudo um filme LUZ.

Concordo que “precisamos de pensamento, de linguagem, de conceito, de história e principalmente de poética” para fazer arte. O pensamento deve ser anterior a qualquer técnica. É ele que nos norteia e nos permite fazer uma obra coerente com nosso objetivo.

NOME PRÓPRIO é o resultado desse pensamento e da energia de todos que o compreenderam, num esforço conjunto para que ele se tornasse IMAGEM.



Elena Soarez - Roteirista
Meu Nome Próprio é Elena Soarez e, no momento, tenho 43 anos, um marido, um filho e uma filha. Comecei a escrever para cinema em 95. Antes tinha me formado em Economia mas não era economista. E tinha feito um mestrado em Antropologia sem virar antropóloga. Já estava, portanto, muito nervosa.
Escrevi 3 filmes com o Andrucha, um com o Cláudio Torres, um com a Helena Solberg, outro para a O2 de São Paulo e o "Nome Próprio" com o Murilo Salles. Atualmente escrevo a segunda temporada de uma série na HBO com o Cao Hamburguer.
Dentre as coisas boas do meu ofício estão os encontros. Quando eu sento para escrever para alguém, eu sei que em alguns meses estarei, em caráter irrevogável, misturada à essa pessoa. Em "Nome Próprio" foi um prazer e uma diversão muito grande misturar-me ao Murilo, à Clarah Averbuck, à Maria Hadock Lobo, à Melanie Dimantas e mais tarde à divina Leandra Leal.



Melanie Dimantas - Roteirista
Hoje eu ouvi que um coração aberto ilumina a noite. Era um fado. Cada um carrega o seu. Eu, o meu. Camila, o dela. E você, o seu. Enredos possíveis para vidas diversas mas, ao fim do percurso, o que queremos mesmo deles é que nos levem para "casa". Fazer um filme, é isso. Deixar os corações abertos clarearem os caminhos que nos conduzem para uma mesma casa. "Nome próprio" é uma delas. Nossa casa própria.


Viviane Mosé - Redação e edição final dos textos escritos sobre a tela e narrados em off
Nasci em Vitória, com a cabeça cheia de palavras, tantas que foram escorrendo pelo canto esquerdo da boca e pelas bordas das mãos. hoje vendo, alugo, empresto letras, mas também vozes. estudei psicologia, psicanálise, filosofia. falo meus poemas no palco, argumentos elaboro em aulas e paletras. escrevi alguns livros. mas gosto mesmo de ficar sem fazer fazer nada, contemplando paredes brancas. escrevo para ver se me esvazio.





Fernanda Riscali – Diretora de Fotografia
Nasci em São Paulo em 22 de Novembro de 1969, com sol em sagitário, lua em touro e venus em escorpião. Vinda de uma família de médicos e ovelha-negra como sempre fui, resolvi contrariar todas as expectativas familiares e me direcionar para o cinema.
A paixão pela fotografia surgiu no primeiro ano da faculdade e nunca mais me deixou. Depois de trabalhar 10 anos como Assistente de Câmera, finalmente rodei meu primeiro longa como fotógrafa: Nome Próprio. Acumulei alguns outros no currículo e agora estou na Noruega, apaixonada por essa luz tangencial , pelas imagens que tenho conseguido captar diariamente e pelos Vikings que surgem pelo meu caminho. Afinal, ninguém é de ferro e a vida não é só trabalho... Camila que não me deixa mentir!
E para fazer luz, para criar imagens, é preciso acima de tudo viver, acumular experiências. Por isso sigo rodando el mundo com amor em mi corazon. sem nenhuma tatuagem, apenas cicatrizes... E a mala sempre pronta, com o fotômetro dentro, é claro, aguardando a próxima aventura!

Marcela Lordy - Diretora assistente
Com quinze anos fui para o Peru com uma amiga. No aeroporto meu pai tirou sua máquina fotográfica do peito e ensinou rapidamente todos dispositivos mecânicos. Era uma câmera profissional, uma responsabilidade, e a primeira vez que saía do país. Voltei com imagens surpreendentemente belas e uma paixão que nunca mais me abandonou. Fui estudar fotografia e depois cinema. O cinema uniu tudo o que minha personalidade precisava: Movimento. Trabalhei, e ainda trabalho, como assistente de direção em publicidade e cinema. A publicidade trouxe conhecimento técnico, destreza no set, novos amigos. O cinema, a profundidade e a complexidade de tentar encontrar equivalentes objetivos para as sensações subjetivas, e o olhar para as contradições da nossa existência. Acho encantador olhar para o momento mais importante da vida de alguém. Cada vez mais desenvolvo projetos pessoais para cinema e tenho vontade de contar minhas próprias histórias.


Pedro Paulo de Souza - Diretor de Arte
Nome Próprio: SOUZA, pedro paulo basílio de Souza.
Nasci muito branco, sol me incomoda.
To ótimo, ficando cada vez melhor,
Aceito doações.
Devolvo se não gostar, pois deve servir para alguém.
Fiz a arte do filme e um pouquinho mais.
Gosto mesmo é de falar das coisas que observo.
Gosto de fazer curau, mas tenho andado sem tempo pra isso.

Veja o link do teaser que Pedro Paulo criou para o "Nome Próprio" a partir das fotos e referências que ele usou para contruir Camila.
http://vids.myspace.com/index.cfm?fuseaction=vids.individual&VideoID=35629071

Sacha Amback – Música Original
Músico, carioca, nasci em 62 e me lembro perfeitamente da copa de 70, já das outras...
Morei 17 anos em São Paulo, estudei música na USP, voltei para o Rio em 90. Fui largando o piano e me apaixonando mais ainda por botões e sons estranhos. Passei um tempo tocando com um monte de gente, gravando discos e fazendo shows. Mas descobri que só queria compor trilhas. Comecei com a dança, sou parceiro do João Saldanha desde 96.
No cinema comecei com a Lucia Murat em Doces Poderes, depois Madame Satã, Ônibus 174.
O Murilo é um capítulo à parte. Eu era e ainda sou parceiro da Daisy, sua mulher, em video-instalações. Ele me abduziu. Pena que a essa altura o filme já estava praticamente finalizado. Compositor sempre chega quando o melhor da festa já acabou (as filmagens). Acho que aprendi muito sobre "intensidades" com ele. E também sobre um monte de coisas que não têm nada a ver com cinema. E ainda estou devendo um bacalhau a brás.


Mariana Pamplona Iavelberg - Figurinista
Sou paulista, tenho 36 anos , me formei em Filosofia pela USP. Desde adolescente sou doida por cinema, do tipo que assiste seis filmes no mesmo dia, compulsivamente!
Trabalho como roteirista e figurinista e amo as duas funções igualmente. Fazer o figurino deste longa foi um aprendizado incrível. Foi um desafio ajudar a pensar e construir a personagem através de suas roupas e acessórios, que não deveriam ser “montados demais” e exageradamente desenhados. A gente pensou em seguir uma linha mais naturalista, que estivesse de acordo tanto com o gosto estético, quanto com o poder aquisitivo da Camila. O papel do figurino deveria ser o de ajudar a contar um história sem roubar demais a atenção do expectador . Aliás, nos seus melhores momentos, Camila quase sempre está muito a vontade.


Frederico Foroni – Preparação de Elenco

Gosto de sentir o ar, subir montanha e entrar em cachoeira. Na infância
levei muito tombo de bicicleta, rolemã, skate e jogando na rua. Conheci o
teatro e larguei todo o resto. Hoje, ofereço aulas para atores, dirijo
peça, vídeo, gosto de editar; os brinquedos mudaram e a cabeça cresceu, rs.
Buscando conhecer essências e aprender com o outro, encontrei "Nome
Próprio". Trabalhava no estúdio da Fátima Toledo e seria meu primeiro longa
sozinho. Meu irmão Kleider veio junto. A intensidade dos atores e o afeto
alto astral do Murilo tornaram a experiência inesquecível e transformadora.
O que mais gosto como Preparador de Elenco é o inefável. Aquilo que
acontece de improviso, no estado de presença, no ar que sai dos pulmões.
O corpo com poros. A gente toda, vivendo junta, Uma História Real.

Fred Foroni.



Rodrigo Lima – Design gráfico:
Cabelos castanhos, cacheados; 1,80 de puro design. com aquela pancinha de quem passou boa parte da vida no photoshop e no after effects. tenho tudo para fazer sua fantasia virar programação visual.
www.pave.art.br









Inez Torres – Design gráfico

Designer formada a 10 anos, a 3 encontrei a satisfação profissional no videografismo. hoje sou feliz ingrediente da receita da pavê.
essa vida é doce, mas não é bolinho...
www.pave.art.br

Músicas de Camila