Um filme dirigido por Murilo Salles com Leandra Leal.
Baseado na obra de Clarah Averbuck.

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Jornal do Comércio -Critica de Hélio Nascimento, 29/8/2008.


Fragilidades

O novo longa-metragem de Murilo Salles, filmado e exibido na forma digital, confirma que o cineasta merece ser incluído no grupo de realizadores brasileiros dignos de toda a atenção. Ele tem voz própria, não segue correntes e pratica um cinema urbano, voltado para setores da classe média para cima. Mesmo que a partir de segundo filme não tenha realizado obra tão admirável como Nunca Fomos Tão Felizes, o notável opus um de sua filmografia, ele nunca deixou de ser um autor de filmes e não um mero encenador. Filmes como Faca de Dois Gumes e Como Nascem os Anjos, assim como primeiro, também exibidos - e injustiçados - no Festival de Gramado, são trabalhos de nível bem superior à média de nosso cinema, reveladores de um processo investigativo que evidencia que os males de uma sociedade não devem ser limitados ao método que escolhe a miséria exposta como o único caminho. De certa forma, sem significar que o cinema de Murilo Salles seja um descendente deles, o cineasta de Nome Próprio prolonga o cinema de realizadores como Walter Hugo Khouri e Arnaldo Jabor, na medida em que escolhe um universo distanciado das palavras de ordem e do discurso. Murilo prefere alcançar o espectador acompanhando a trajetória de seus personagens, pois nela vê os sinais reveladores, os sintomas de desajustes, a evidência de fragilidades emocionais.
Nome Próprio, o novo filme do diretor, desta vez vencedor do Festival de Gramado, reafirma a preferência do realizador por personagens que, vivenciando uma solidão quase insuportável, procuram uma afirmação pela busca de ligações humanas que os salvem do desastre. O filme é obra de um verdadeiro autor. Só o desconhecimento ou a falta de memória poderia permitir que não fosse visto no filme de agora um prolongamento de Nunca Fomos Tão Felizes. Aqui, outra vez o cenário do apartamento vazio, na segunda metade da narrativa, expressa essa solidão. Eis um ponto de ligação que merece ser melhor explorado pelo observador. Uma crítica que poderia ser feita ao filme é a de que ele não aborda a relação da protagonista com sua família. Mas essa crítica não seria justa, pois esquece que um filme se insere numa filmografia, numa obra maior, faz parte de um discurso mais extenso. No filme de estréia, o filho deixado num apartamento vazio pelo pai envolvido em luta política expressava a dor do abandono e da solidão, tema que voltaria depois a ser expresso em Faca de Dois Gumes, sem esquecer que duas crianças são de certa maneira vítimas em Como Nascem os Anjos. Assim, se não vemos em Nome Próprio a infância da protagonista, se as figuras dos pais estão ausentes, tal carência é explicitada nos filmes anteriores e, de certa forma, é repetida aqui no plano em que o pai de um dos jovens com que Camila se relaciona praticamente a expulsa de casa. É uma cena rápida, ocupa poucos minutos da narrativa, mas é suficiente para tornar claras as causas de todas aquelas fragilidades emocionais da protagonista, como se o diretor estivesse recorrendo a uma volta ao passado.
Eis aqui outro tema importante do filme e que aparece pela primeira vez na obra do cineasta. A personagem principal praticamente não se afasta de seu computador. É através dele que busca alcançar a bóia salvadora ou a âncora que lhe permita algum tipo de estabilidade. É quando o contraste surge de maneira bem clara, quando as imagens e as situações do filme colocam em cena a incômoda verdade que constata ser o progresso tecnológico inversamente proporcional ao aperfeiçoamento emocional dos indivíduos. Quando, numa de suas melhores cenas, o filme mostra a personagem procurando colocar ordem no seu cenário, em luta inútil contra o caos que a cerca, fica exposta toda a intensidade desse drama que flagra a protagonista tentando recuperar o perdido, procurando voltar a um mundo do qual foi expulsa. O filme procura flagrar o ser humano na luta para recuperar a harmonia desfeita. A variação proposta pelo cineasta em torno do tema da incomunicabilidade merece ser conhecida. No painel que sempre deve ser uma cinematografia a presença de um filme como Nome Próprio não deve passar despercebida.

Matéria de hoje do blog Repique, de Paula Guedes.

Vencedor em Gramado discute formato do cinema




Vencedor do prêmio de Direção de Arte em Gramado, com o filme "Nome Próprio”, Pedro Paulo de Souza, conta aqui para o Repique todas as idéias por trás do conceito, cenário e cores de um filme autoral brasileiro.

Repique - Como foi ganhar esse prêmio em Gramado?
Pedro Paulo de Souza - Foi muito bizarro. Eu fui para Gramado para a abertura do Festival, participei da coletiva de imprensa na segunda-feira, e voltei para São Paulo. No outro sábado, no dia da premiação, resolvi ligar a TV para torcer para a Lelê (Leandra Leal), quando a 1.ª coisa que vejo foi a Rosamaria Murtinho falando “Pedro Paulo por Nome Próprio” – como eu era indicado fiquei esperando ela falar os outros nomes que concorriam, e de repente vi a Leandra Leal levantando da platéia. Caraca, ganhei o prêmio!

Que delícia.

Sim. Fiquei muito feliz. Especialmente porque os prêmios de Arte, Montagem e Música em Gramado são dados por estudantes de Cinema, que são convidados pelo Festival para votarem esses quesitos. Para mim, tem um gosto especial e eu me sinto muito lisonjeado de ter sido escolhido por gente que está brigando por conhecimento, que está tentando entender as coisas de outra forma. Até o ano passado não havia no Festival o prêmio de Direção de Arte, não tinha esse quesito mais técnico.

E o que está por trás da Direção de Arte do “Nome Próprio”?

A gente partiu de um registro quase documental porque o filme precisava ser o mais natural possível. Não podia ser muito detalhista porque daria mais informação do que o público precisaria. Os ícones, a forma de discagem, a estrutura do blog - era necessário que não aparecessem tanto, porque o Nome Próprio de certa forma é um filme de época, se passa em 2001 - e isso quando falamos de blogs e internet é praticamente datado - a maioria das pessoas não tinha banda larga, a internet era discada, os navegadores eram outros, não tinha Google, não tinha Altavista. E precisava ficar claro: “Olha, estamos falando de uma época que não é hoje”.

Por que não hoje?

O filme é baseado nos livros da Clarah Averbuck, que descreve um período em que ela tinha um blog, em 2001, um tempo em que não havia esse boom de blogs, em que o blog era um espaço para se expor, por exemplo, quando ela faz a declaração “esse blog não permite comentários”. Uma época em que ela era muito assediada. Se fosse hoje seria outra coisa.

O filme é cheio de vazios.
O filme tem muito vazio. Os ambientes dela são todos vazios porque precisávamos ressaltar a riqueza do universo interior daquela mulher, para que o público tivesse atenção focada em suas reações. O cenário mudava à revelia do que ela estava pensando. Tivemos o maior cuidado que aquilo fosse realmente um ambiente natural para que o ator se sentisse à vontade. Foi uma preocupação que surgiu durante a preparação de atores em que tive que construir alguns objetos de apego – coisas que pudessem estar na bolsa dela, os discos, livros. Outra preocupação foi criar uma série de estranhezas com relação à própria continuidade do filme - objetos que estão numa cena quando ela sai do quarto e quando volta já não estão mais, roupas... porque a história não é o que está na cabeça dela, o tempo em que ela escreve não é o mesmo em que o internauta lê. Deixamos no set tudo aquilo que é para ser assistido – que é quase nada, porque tudo o que está por perto faz sentido, à meia distância, não – o que possibilitaria termos colocado uma banda lá tocando.

Adorei como os textos aparecem no filme.

Ela conta uma história sobre coisas que estão no seu imaginário. Precisei construir a palavra escrita porque estamos falando de Literatura – eu literalmente precisava colocar palavras na tela, pois o texto dito e o texto lido são diferentes, têm outro tempo.

No fim acabou que “Nome Próprio” é super atual...

“Nome Próprio” também discute formato - o filme não tem película, a captação foi toda direta em HD; discute plataforma de comunicação... foi um filme lançado através de um blog, em que pudemos construir uma conversa e passar adiante a discussão que tivemos. Foi além da projeção na tela e isso tem a ver com internet, linguagem e suporte. Tivemos esse cuidado desde o início.

Hoje na coluna da Monica Bergamo, da Folha de S. Paulo:

ATRÁS DE UM SONHO

Com quatro filmes no currículo, Juliano Cazarré (na foto, com o gato Alabar) vai estrear na TV em "Alice". Na série que a HBO exibe a partir de setembro, será um funcionário de financeira que sonha -e consegue- virar DJ. Foi em busca do sonho de ganhar a vida interpretando que Juliano trocou Brasília por São Paulo, há um ano e meio. Atualmente, grava "Som e Fúria", minissérie de Fernando Meirelles. Nela, será o cômico namorado de Andréa Beltrão. Ele está em cartaz nos cinemas em "Nome Próprio" -faz o primeiro namorado de Leandra Leal.

ZERO HORA - Matéria do dia 22 de Agosto

Escrever para viver
Estréia “Nome Próprio”, de Murilo Salles, filme vencedor do Festival de Gramado

Poucos filmes brasileiros ganharam tanto destaque no Estado nos últimos anos quanto Nome Próprio. Seja pela participação da escritora gaúcha Clarah Averbuck no projeto do diretor Murilo Salles, pela impressionante atuação de Leandra Leal, pela polêmica estratégia de lançamento do filme, a disputa e a surpreendente vitória no Festival de Gramado.

Todos estes temas renderam assunto. Muito falado, o longa pode a partir de hoje também ser visto em duas salas da Capital: Unibanco Arteplex 1 e Arcoíris Rua da Praia1.

Realizado em vídeo digital e com orçamento modesto (R$ 1,2 milhão), Nome Próprio é a imersão de Salles em um universo que, segundo ele, ainda não tem sua importância reconhecida pelo cinema brasileiro.

– Queria abordar essa geração que se relaciona e conhece o mundo pela internet – diz Salles. – Não se pode ignorar fatos como o Brasil ter o maior número de usuários do Orkut no mundo.

Diante da proposta, o caminho de Salles inevitavelmente cruzou com o de Clarah, escritora pioneira no uso da internet no Brasil para divulgar seus textos. A partir de relatos confessionais da autora em blogs e também em livros, o diretor apresenta como protagonista Camila (Leandra), jovem que chega a São Paulo aspirando ser escritora e se lança em uma ciranda de excessos – amorosos, emocionais e etílicos –, transformando essa intensidade autodestrutiva, e algo amoral, em um constante fluxo narrativo no teclado de seu computador. Camila não sabe se escreve para viver ou vive para escrever.

– Conheci os textos da Clarah antes de começar a filmar. Quando cheguei ao set sabia muito de cada cena, daquele universo – lembra Leandra, que destaca a liberdade que obteve do diretor para contribuir na construção da personagem, que lhe valeu um aclamado Kikito de melhor atriz em Gramado.

Murilo completa:

– Um filme que com essa intensidade só pode ser feito quando existe total intimidade e cumplicidade no set.

Ao mesmo tempo em que comemora a vitória em Gramado, Salles lamenta o fato de Nome Próprio ter sido recusado em vários festivais internacionais

– É um filme moderno, urbano, que vai contra a imagem que as curadorias estrangeiras têm do Brasil. Elas apreciam mais temas como miséria e violência. Temos de fugir desse coitadismo no cinema brasileiro.

1 - Efeito Kikito

Entre os seis longas nacionais em competição no Festival de Gramado, Nome Próprio era favorito apenas ao prêmio de atriz para Leandra Leal. O Kikito de melhor filme surpreendeu o próprio Murilo Salles. O diretor espera que a visibilidade e os prêmios conquistados na Serra despertem o interesse do público onde o longa estréia hoje (Porto Alegre e Florianópolis) e nas próximas semanas (Curitiba e Salvador). O efeito Kikito já fez o filme voltar a cartaz em Brasília. Nome Próprio soma 25,4 mil espectadores.

2 - É ou não é?

O roteiro de Nome Próprio é inspirado em textos da escritora gaúcha Clarah Averbuck, publicados nos livros Máquina de Pinball e Vida de Gato, além de relatos dela em seus blogs. Desde o lançamento do filme, Clarah insiste que a personagem de Leandra Leal, apesar de ter pontos em comum com sua trajetória, não é ela. A escritora e Murilo Salles costumam contrapor um ao outro sobre o grau de semelhança entre Clarah e Camila. O roteiro conta com textos da filósofa Viviane Mosé. Para pôr fim, ou mais lenha, na discussão, Murilo diz: “A Camila sou eu”.

3 - Boca a boca

O lançamento de Nome Próprio no centro do país, em 18 de julho, contou com uma estratégia de guerrilha na divulgação. Murilo Salles lançou uma campanha viral pela internet, na qual criticava o atual modelo de distribuição no Brasil e apelava para que o filme fosse visto no primeiro fim de semana em cartaz. Esperava ele que a propaganda boca a boca garantisse uma segunda semana de exibição:

– Ninguém queria estrear junto com o Batman. Fiz um lançamento pequeno em meio à ocupação. Achava que teria só 5 mil espectadores. Só posso comemorar.

MARCELO PERRONE

O clipe de "Nome Próprio", música tema do filme composta pela banda mineira Porcas Borboletas, estréia dia 12/08, terça-feira, no MTV Lab e no MTV Lab - Cult Trash. O vídeo também estará disponível no MTV Overdrive.



O Globo Online

Texto: Sergio Batisteli

RIO - Uma bela jovem nua briga com o namorado, Felipe (Juliano Cazarré), é expulsa de sua própria casa e vai para um apartamento de um fã em Brasília. Ela pede uma bebida, mas não tem. Então Camila Lopes (Leandra Leal) vai escrever para se acalmar e diz "Escrevo porque preciso. Melhor, vivo porque escrevo"

Blog do Bonequinho: leia resenha do filme no lançamento do Festival do Rio

("Nome Próprio", Brasil - 2007, HD, 120 min.) é o sétimo longa-metragem do diretor Murilo Salles que trata, além da situação de jovens urbanos atualmente, da história de uma desequilibrada e famosa blogueira que tem o sonho de publicar um livro. Assim, como em "Nunca Fomos Tão Felizes" (1984), "Faca de Dois Gumes" (1988), "Seja o que Deus Quiser (2002)", ele deixa uma das suas marcas registradas, que é contextualizar o comportamento humano em complicadas situações de vida. Murilo constrói personagens e suas próprias verdades independentemente de uma moral pré-estabelecida pela sociedade.

" Murilo constrói personagens e suas próprias verdades independentemente de uma moral pré-estabelecida pela sociedade "


O roteiro do filme é uma adaptação dos livros "Máquina de Pinball" (2002) e "Cama de Gato" (2004) da escritora gaúcha Clarah Averbuck, 28 anos. Ela é o fruto da mais recente forma de mídia e divulgação que conhecemos - a internet. Seu blog chegou a ter mais de 1800 acessos diários, e foi o ponto de partida para ela mostrar seus textos. Clarah é como esse novo meio de comunicação, ou seja, é libertária, revolucionária, sem limites e influenciada por outras formas de manifestação, entre eles os escritores John Fante, Charles Bukowski, Paulo Leminski, e o rock and roll.

Murilo Salles explora de forma primorosa os espaços internos dos apartamentos, onde Camila tem o seu quartel general da expressão literária. Com travelling aéreo, super close, GC (gerador de caracteres) que ajuda enfatizar a poesia quando a sua desmedida personagem escreve no blog. Nas cenas de amor, Murilo desfoca a câmera e trabalha com pouca luz. Esses são alguns dos elementos que compõem a linguagem fílmica de "Nome Próprio".

O fio condutor da história é Camila, vivido pela atriz Leandra Leal, 25 anos. Certamente o principal papel cinematográfico na carreira de Leandra, até o momento ( leia entrevista com a atriz ). Na telona vemos uma excelente atuação da protagonista carioca. Uma mulher despudorada, corajosa e intensa a cada minuto.

" O filme deixa clara a rede de pessoas que gira em torno de um blog e como suas vidas virtuais podem se tornar presenciais e expostas sem o menor pudor "


Camila fuma um cigarro atrás do outro, liga desesperada para uma amiga, sente um tremendo vazio no seu coração e fica esperando algum contato de Felipe. Começa a pensar em escrever o seu livro, bebe muito, se entope de tranqüilizantes e não come.

O filme deixa clara a rede de pessoas que gira em torno de um blog, e como suas vidas virtuais podem se tornar presenciais e expostas sem o menor pudor.

Sobre o final, Salles deixa em aberto para o espectador a interpretação sobre que é realmente Camila. Acima de tudo, ela tem uma alma apaixonante que exala viscerais sentimentos pelos poros de sua pele.

"Nome Próprio" está em cartaz nos cinemas. Consulte os horários no Guia de Lazer

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Jornal Zero Hora, caderno Donna, matéria publicada no dia 03 de Agosto, Domingo.
Por PATRÍCIA ROCHA.

Leandra Leal é o Nome Próprio

Atriz ficou amiga de Clarah Averbuck, a escritora que inspirou o filme



Leandra Leal fez cenas ousadas no filme

Nome Próprio é Leandra Leal. É ela que move o filme de Murilo Salles, adaptado da obra de Clarah Averbuck. Em cena, a atriz de 26 anos despiu a roupa e os pudores e tem impressionado com sua atuação visceral para Camila, uma aspirante à escritora que vive e sofre intensamente e dá vazão a tudo isso pela escrita, seja no blog ou no chão da sala. Um papel oposto à solar Elzinha, da novela das seis, Ciranda de Pedra, e a outras meninas doces e espevitadas que Leandra já viveu.

– Fica uma boa sensação de ter cumprido até o fim o desafio que me impus. Sou super-orgulhosa do filme – diz Leandra, por telefone desde o Rio.

Do filme também ficaram novos amigos. Entre eles, Clarah Averbuck. Murilo havia aconselhado Leandra a não contatá-la durante a construção da personagem, mas a atriz seguiu a intuição e ligou para a escritora. Ficaram amigas, e Clarah brinca que Leandra era sua agente infiltrada nas filmagens. Foi pelas mãos dela, por exemplo, que o pôster dos Strokes saiu da parede da casa da escritora e foi parar no set. Juntas, incrementaram o figurino da personagem com roupas delas e de amigas. Tudo que tivesse a cara da Camila.

Em breve, Leandra mostrará outras caras. Nesta semana volta a cartaz em São Paulo a peça Mercado e Futuro, que ela produziu e co-dirigiu, e em janeiro estréia o filme Bonitinha mas Ordinária.

Donna ZH – Sua atuação tem sido muito elogiada, descrita como visceral. Como foi a experiência?
Leandra –
A entrega foi total. Não dava para não ser. O tempo inteiro a personagem está em cena, sozinha, com poucos atores. Há muita coisa apenas com a câmera, que capta tudo. Seria impossível não estar inteira.

Donna ZH – Você disse que iria avisar sua mãe (a atriz Ângela Leal) sobre as cenas de nudez. Você se sentiu muito exposta?
Leandra –
Não. Você se sente muito exposta quando não quer ser exposta. Se as cenas de nudez fossem algo problemático, não poderia fazer esse filme. Era uma condição para fazê-lo.

Donna ZH – Você já era leitora da Clarah Averbuck?
Leandra –
Não. Então, comecei a escutar as bandas que ela cita nos livros... Na época, ela estava descobrindo Strokes. Depois, li aqueles livros que estão na estante da personagem e tive conversas com o Murilo (Salles, diretor) sobre o roteiro, o que ele esperava, o que eu poderia contribuir. Tive duas semanas de ensaio com os outros atores. Mas foi um processo muito solitário, eu andando à noite por São Paulo, eu naquele apartamento sozinha... Fiquei morando uma semana no apartamento do Márcio (nome do personagem que hospeda Camila em um velho apartamento, uma das locações do filme), o mais trash...

Donna ZH – Como a Clarah influenciou na construção da personagem?
Leandra –
A Clarah é uma figura muito forte. Acrescentou muito com suas visões de mundo: o humor, os comentários, a vida dela. Nossa relação foi além do filme. Quando a conheci, a gente se encontrou às 15h e só foi se desgrudar as 11h do dia seguinte. Fizemos mil coisas. Fomos para minha casa, para a casa dela, fomos dançar, tomar café da manhã... Ela é uma figura incrível para você rir e para você chorar da vida. Principalmente para rir.

Donna ZH – Como Camila, você tem blog (alicemepersegue.blogger.com.br). Como é a sua relação com a escrita?
Leandra –
Minha relação maior com a escrita não se dá pelo blog. Já escrevi uma peça (Impressões do Meu Quarto, em parceria com Bianca Gismonti). O blog é um canal de expressão do que, mesmo ocupando espaço na mídia, tenho pouco espaço para falar. Mais nova, eu precisava escrever o tempo todo, hoje descobri outros lugares. Mas ainda escrevo. Nem que seja para me entender. Mas meu blog não é exposição, porque não publico essas coisas mais pessoais.

Donna ZH – Durante Páginas da Vida, você criticou a novela no blog (Leandra questionou os rumos da trama e ironizou a interpretação da colega Danielle Winits), o que foi muito comentado. Como você lida com a repercussão de uma opinião na internet?
Leandra –
Está na chuva é para se molhar... Honestamente, não tenho muito paciência para falar disso.

Donna ZH – A situação tem muito a ver com a filosofia da Camila: uma vez que entrou na rede...
Leandra –
As relações que acabam sendo formadas a partir das reações, da exposição do que você pensa, qual o limite, é algo que eu mesma
ainda me sinto aprendendo. E aprende- se com erros e acertos.

Donna ZH – Qual a sua expectativa para a exibição de Nome Próprio no Festival de Cinema de Gramado?
Leandra –
Não sei. É difícil ver esse filme sendo lançado. Teve tantos cortes, e eu me envolvi tão além do que normalmente o elenco se envolve. Acompanhei várias montagens, trocamos opiniões sobre o que deveria sair ou ficar. Por isso, no lugar em que um filme pode ser de um ator, digo que é muito meu. Mas agora a minha expectativa é que pelo menos o filme consiga ficar em cartaz um tempo.

O jornal Zero Hora, de Porto Alegre, dedicou capa e várias páginas do caderno feminino Donna ZH a "Nome Próprio" trazendo ótimas entrevistas com Clarah Avebuck e Leandra Leal.




Correio Braziliense – Brasília, 24 de julho de 2008

RICARDO DAEHN



MURILO SALLES DIRIGE LEANDRA LEAL NO FILME NOME PRÓPRIO, BASEADO
NA OBRA DE
CLARAH AVERBUCK: O SER HUMANO EM ESTADO BRUTO

O paradoxo de uma blogueira isolada do mundo, mas bastante conectada, foi a pérola encontrada por Murilo Salles para abastecer o roteiro de Nome próprio. “É a metáfora do desamparo com que o ser humano tem lidado no século 21”, resume o cineasta. Com personagem intensa – “como viveram a maior parte dos escritores da beat generation” –, Salles se orgulha de ter feito “o primeiro road movie trancado dentro de um apartamento”, como define. “A protagonista segue uma linhagem definida: beat, em que a literatura só é verdadeira se vivida. Mas a Camila faz um percurso curioso: ela não é ‘on the road’, sua estrada é a internet”, explica. Com pena de quem “não tem uma paixão para viver”, Salles aposta na identificação do público com o sentimento forte vivido por Camila. “A paixão dela é escrever; a minha, fazer filme. Quem vive uma paixão sabe bem deste estado: perder os limites, tudo se torna intenso, o sangue sobe à cabeça, a temperatura corporal se altera, perdemos o sentido de limite, transgredimos, ficamos egoístas, nosso coração palpita, nosso humor se altera. Este é o preço da paixão: ela não é boa nem ruim, é um estado”, avalia. Na “possessão” da personagem, uma intervenção na tela (escrita por ela) deixa clara a falta de limites: “Ninguém vive a paixão impunemente”. O ser humano em estado bruto é, na visão do diretor, o suporte para um “filme extremamente delicado: nos enquadramentos, na fotografia, na música e na montagem”. “Nada é bruto no sentido de primitivo, de sujo e de rock ’n’ roll. Todo o filme é construído”, reforça. A condição do feminino está ente os temas mais candentes do filme. Na seqüência das mulheres parideiras, das cortesãs, daquelas tidas como bruxas, malvadas ou perversas, como lista o diretor, ele centrou o foco nas histéricas e, modernamente, “loucas”. “O que quero dizer está nas mulheres que não cumprem o papel instituído. São as que expressam seus excessos femininos, tachadas de egocêntricas, depressivas e autodestrutivas, num sem número de adjetivos que na verdade expõem o quão superficial e machista é o julgamento humano. Fiz um filme sobre essa complexidade feminina, com homenagens a Clarice Lispector, Ana Cristina César, Hilda Hirst, enfim, a um registro de transbordamento”, entrega. Tendo como público-alvo “pessoas sensíveis, inteligentes, antenadas com a expressão da individualidade na internet”, Salles conta que buscou estratégia de lançamento coerente com forma e conteúdo digitais que embalam o filme. Com prêmio de R$ 150 mil da Petrobras para promoção e divulgação, a equipe aplicou as forças na internet, com exposição da fita ajustada em formato de blog (nomepropriofilme.blogspot.com). Numa caça mais modesta de público, a estrela Leandra Leal chegou a panfletar no Rio de Janeiro, às vésperas da estréia. Mais um motivo de orgulho para o diretor coruja: “A Leandra doa uma das grandes interpretações femininas do cinema brasileiro, pois encarna uma personagem complexa, dando humanidade inacreditável a isso. É memorável”.



SEM DESVIAR DO CLICHÊ

Juntas, as roteiristas Elena Soarez e Melanie Dimantas encararam a missão de adaptar para as telas parte dos escritos de Clarah Averbuck.Responsável pelos roteiros de fitas com forte carga intimista, como Vida de menina,Elena, diante da exposição vista nos textos de Clarah, não viu necessidade de conhecê-la pessoalmente.“O que interessou o Murilo foi a porção de Clarah que ela deliberadamente escolheu para expor em seus livros e blog. Se isso é verdade, se isso tem alguma coisa a ver com ela na vida real, não acho que seja relevante.De resto, tudo é ficção”, explica.Tendo o universo dos blogueiros como suporte para a escrita da protagonista,Elena conta que não houve muito como desviar do clichê dos escritores alimentado pelo cinema, sempre “sorumbáticos, profuuuundos”.“A personagem da Clarah vive um pouco esse clichê por ser uma jovem em seu ritual de iniciação no ofício da escrita. Às vezes, ela se leva um pouco a sério demais nessa iniciação”, comenta. Colega de ofício de Elena, Melanie Dimantas (de Copacabana) também embarcou na intensidade desmedida da personagem. A internet foi fonte de pesquisa, apesar das ressalvas da roteirista.“Às vezes, as informações se confundem.Tudo pode ser encontrado ali, mas pouco fica, cola ou flui. Não tenho prazer em ler blogs nem vontade de fazer um”, diz.


TRÊS PERGUNTAS //MELANIE DIMANTAS

“Roteirista é escritor cineasta”

Existia possibilidade de incorrer no estereótipo do escritor? Como vocês fugiram disso?

Ninguém fugiu, estamos aqui. Roteirista não é escritor escritor, é escritor cineasta. Por mais que nos deleitemos, as nossas descrições no último dia de filmagem, ou talvez depois da montagem, vão parar no lixo, que é o seu lugar. Filme pronto é o destino inexorável de todo roteiro.

Qual o apoio para um roteiro tão centrado numa só figura?

Nome próprio é centrado numa personagem, que também é narradora de uma existência obscura. Não sabemos se é real ou virtual. Isso não importa, afinal, como disse Mário Quintana, “a mentira é uma verdade que não aconteceu”. Em relação à construção de Camila, apesar de tratarmos de eventos tão episódicos e tão entremeados por palavras, o suporte que a define é seu corpo, que transborda otempo todo pelas paredes, pelos olhares dela e dos outros.

Para a consistência na escrita é necessário despender toda aquela energia apresentada?

Aquela energia? Ainda guardo bastante dela para viver. Gasto mais energia cuidando dos meus cachorros... e talvez em sentir culpa por não gastar a tal energia em coisas mais duradouras. Falo da energia vital. Por outro lado, a consistência da escrita me parece apavorante de perseguir. Ela geralmente é resultado da hesitação, da sensação de fracasso e nulidade, do medo de se expor e do ridículo. Talvez você tenha razão na sua pergunta: “aquela energia” negativa e terrível que mina nossos critérios vai todapara os dedos que teclam e se escondem. Se isso resulta em algo consistente, deixemos que nos julguem. De resto minha convicção é de que tudo é de total irrelevância.


O psicanalista Contardo Calligaris escreveu hoje em sua coluna semanal na Folha de S. Paulo:

"Aviso urgente. "Nome Próprio", de Murilo Salles, estreou na sexta passada em poucas (mas boas) salas de várias capitais do país. Com a extraordinária interpretação de Leandra Leal, o filme leva para a tela o mundo impetuoso, fragmentado e tocante do blog e dos romances de Clarah Averbuck.
É imperdível para quem vive amores inquietos (ou seja, para quase todos) e, óbvio, para quem é atormentado pela paixão de escrever.
Participo assim da campanha para que o filme permaneça em cartaz o (longo) tempo que ele merece."

Arnaldo Jabor fez uma ótima crítica ao Nome Próprio ontem na rádio CBN. Vale a pena parar, ouvir e se deixar levar ...

O Overmundo é um site que tem tudo a ver com o espírito de "Nome Próprio". Além do excelente texto "A blogosfera chega às telas", de Milu Leite, já linkado aqui anteriormente, eis agora outra ótima resenha publicada por lá: "A rede à flor da pele", de Sérgio Batisteli.

A rede à flor da pele

Uma bela jovem nua briga com o seu namorado, Felipe (Juliano Cazarré), é expulsa de sua própria casa e vai para um apartamento de um fã em Brasília. Ela pede uma bebida, mas não tem. Então Camila Lopes (Leanda Leal) vai escrever para se acalmar e diz “Escrevo porque preciso. Melhor, vivo porque escrevo”.

A menstruação inesperada pega Camila de surpresa que sai para comprar absorvente no supermercado à noite, aproveita para comprar duas caixas de cerveja e dormir nem pensar. Ela vai para frente do computador que levou para a casa do fã e escreve textos para o seu blog.

(Nome Próprio, Brasil – 2007, HD, 120 min.) é o sétimo longa-metragem do diretor Murilo Salles que trata, além da situação de jovens urbanos atualmente, a história de uma desequilibrada e famosa blogueira que tem o sonho de publicar um livro. Assim, como em Nunca Fomos Tão Felizes (84), Faca de Dois Gumes (88), Seja o Que Deus Quiser (2002), ele deixa uma das suas marcas registradas, que é contextualizar o comportamento humano em complicadas situações de vida. Murilo constrói personagens e suas próprias verdades independentemente de uma moral pré-estabelecida pela sociedade.

O roteiro do filme é uma adaptação dos livros Máquina de Pinball (2002) e Cama de Gato (2004) da escritora gaúcha Clarah Averbuck, 28 anos. Ela é o fruto da mais recente forma de mídia e divulgação que conhecemos - a internet. O seu blog chegou a ter mais de 1800 acessos diários, foi o ponto de partida para ela mostrar os seus textos. Clarah é como esse novo meio de comunicação, ou seja, ela é libertária, revolucionária, sem limites e influenciada por outras formas de manifestação, entre eles os escritores (John Fante, Charles Bukowski, Paulo Leminski) e o rock and roll.

Murilo Salles explora de forma primorosa os espaços internos dos apartamentos, onde Camila tem o seu quartel general da expressão literária. Com travelling aéreo, super close, GC (gerador de caracteres) que ajuda enfatizar a poesia quando a sua desmedida personagem escreve o blog. Nas cenas de amor, Murilo desfoca a câmera e trabalha com pouca luz. Esses são alguns dos elementos que compõem a linguagem fílmica de Nome Próprio

O fio condutor da história é Camila, vivido pela atriz Leandra Leal, 25 anos. Certamente esse é o principal papel cinematográfico na carreira de Leandra, até o momento. Na telona vemos uma excelente atuação da protagonista carioca. Uma mulher despudorada, corajosa e intensa a cada minuto.

Camila fuma um cigarro atrás do outro, liga desesperada para uma amiga, no seu coração sente um tremendo vazio e ela fica esperando algum contato de Felipe. Começa a pensar em escrever o seu livro, bebe muito, se entope de tranqüilizantes e não come. Como desgraça pouco é bobagem, a escritora tem um saldo devedor de R$ 400, faz um saque emergencial e paga o aluguel do apartamento que está hospedada.

Compulsão, compulsão e compulsão...
A blogueira lava a louça, mas não para sob o efeito da bebida e remédios, ela limpa o chão da cozinha, as paredes, limpa a casa inteira. Vai parar no lado de fora do apartamento, onde esfrega até o chão da escada e totalmente tresloucada leva um tombo digno de ser filmado.
Finalmente, Felipe toca a campainha e exige que Camila retire os textos do blog. Como uma mulher apaixonada ela fraqueja, pergunta para ele se a ama e o beija na boca. “Minha vida é uma merda”, escreve a carente personagem.

A escritora vai para o Rio de Janeiro, com um clima propiciado por uma trilha sonora alegre num bar, se apaixona pelo francês Henri (Alex Disdier) que literalmente a deixa de quatro. Ela descobre que Henri tem uma mulher e filho, através de fotos.
A sua vida segue de bar em bar, Camila se encontra com um casal de amigos e a inveja feminina, somada pelo abuso do álcool toma conta dela. O espectador é brindado com a belíssima fotografia de um mergulho noturno na praia carioca, que termina em uma tórrida cena de amor. A blogueira fica com o namorado dessa amiga e o francês os vêem. Novamente ela fica sozinha, sem dinheiro para pagar o aluguel e sem amor! Pira e compra uma bota caríssima, sai para encher a cara, é despejada do apartamento e pede ajuda aos fãns do seu blog.
Surge um típico garoto nerd, Guilherme (David Katz), cheio de espinha na cara e sem a menor habilidade para conquistar uma mulher.

O filme deixa clara a rede de pessoas que giram em torno de um blog, como suas vidas virtuais podem se tornar presenciais e expostas sem o menor pudor.
A mãe da escritora aparece em forma de postal, ela entrega uma caixa escrita “kit sobrevivência” com doce caseiro diet, biscoitos e xampu.

Camila, amante de noitadas e bebedeiras, faz a sua balada agora em Sampa. Conhece Rodrigo (Ricardo Garcia), ela quer ser dominada, mas seu novo affair está mais para escravo do que pra dominador.
A baladeira reflete, “Meu problema é achar que caos é ordem, eu preciso organizar o caos que eu sou”.

“Vou pra mulher objeto, isso que é vida”, esbraveja a blogueira.
Numa outra balada, ela encontra com mais um fã do seu blog, que se correspondia com ela através de um personagem. O perfeito Daniel (Gustavo Machado) e diz “Você é muito para mim, da voz ao tamanho do pau”. Ela acha que com ele encontrou o seu verdadeiro amor.

Sobre o final, Salles deixa em aberto para o espectador ter pelo menos duas interpretações sobre realmente quem é Camila. Acima de tudo, ela tem uma alma apaixonante que exala viscerais sentimentos pelos poros de sua pele.

Nome Próprio está em cartaz nos cinemas.

Criatividade própria

Como critico observador e jornalista, não posso deixar de falar sobre a campanha de divulgação do filme “Nome Próprio”. Um marketing viral criativamente honesto e bem sucedido; com a criação do completo e interativo blog: http://nomepropriofilme.blogspot.com

Um espaço que de fato o espectador do filme pode se comunicar com todos os envolvidos na produção do longa-metragem, utilizando-se das mais novas ferramentas de divulgação como o MySpace, Twitter e teasres. Por exemplo, consegui o convite de uma pré-estréia através de um comentário que fiz no blog.

A página na internet de “Nome Próprio” traz várias informações que vão desde as salas de exibição, até o endereço da danceteria onde artistas do filme irão discotecar. Mas principalmente, nos aproxima de três pessoas fundamentais para a realização de tudo isso: o diretor Murilo Salles, a escritora Clarah Averbuck e a atriz Leandra Leal.

O cinema agradece e tenho certeza de que mestres como Glauber Rocha e Rogério Sganzerla, se estivessem vivos aprovariam essa idéia.

Reproduzido do blog do autor: http://sergiohpg.blig.ig.com.br//2008/29/daqui-a-pouco-a-cr.html
20/7/2008

Longa faz ensaio entre o virtual e o real

Inspirada na escritora Clarah Averbuck, Leandra Leal se destaca como
blogueira em crise no filme de Murilo Salles


Leandra Leal interpreta Camila, blogueira que tenta escrever um livro, em "Nome Próprio"


José Geraldo Couto/ Colunista da Folha de S.Paulo.

Inspirado livremente em livros da escritora e blogueira Clarah Averbuck, “Nome Próprio” não é, como poderia parecer à primeira vista, um filme “sobre internet”, e menos ainda um “retrato da geração atual”.

O que é, então? Uma porção de coisas, mas sobre tudo um ensaio em torno do trânsito – ou hiato – entre o virtual e o real, entre a palavra e a carne.

Camila Lopes (Leandra Leal) mantém um blog em que expressa literalmente suas angústias, seus devaneios , suas reflexões. Sua subjetividade, em suma.

Mas Camila, antes de tudo, é uma mulher em crise permanente. Vive num equilíbrio frágil entre o afeto e a solidão, o hedonismo e a penúria material, a altivez agressiva e a carência mais abjeta. Vive aos tombos, e não é casual que role por uma escada numa cena vital.

Tudo na personagem é intenso, exagerado: o modo como exerce sua sexualidade, a aspereza no trato com os outros, a compulsão em escrever, o uso obsessivo de drogas (álcool, cigarro, comprimidos). Murilo Salles mostra essa personagem como um corpo lançado no mundo.

Já a primeira cena nos situa nesse estado de desamparo. Uma ágil câmera na mão (operada pelo próprio diretor) registra o violento despejo de Camila do apartamento do namorado, a quem, conforme saberemos depois, ela traiu com um desconhecido.

O rapaz arranca roupas do armário, soca-as numa mala, junta em caixas computador, CDs, bijuterias e objetos vários, arrasta tudo aos chutes até a porta da saída. Em meio a essa ação frenética, vemos Camila encolhida num canto, em lágrimas, nua.

Mas, a protagonista não cabe no papel de vítima, e logo vemos sua reação igualmente violenta à brutalidade. Tapas, ofensas, palavrões, uma coisa horrível de se ver.

Relação com a água

Murilo Salles “cola” em sua personagem, assume integralmente o seu ponto de vista, mas não apara suas arestas, não atenua o que ela tem de intratável e de desagradável. Em outras palavras, não facilita a identificação do público com ela.

Um modo possível de se aproximar da personagem é atentar para seus banhos, que revelam as oscilações de seu estado material e psíquico. Lavando-se na pia do banheiro de uma lan house, sentada bêbada e vestida sob a ducha do apartamento, ensaboando-se no box com o novo namorado, quase se afogando no mar à noite, Camila se expõe inteira em sua relação com a água.

Pode-se não gostar de “Nome Próprio”, mas duas afirmações se impõem: Murilo Salles (trabalhando aqui com o digital) filma bem como poucos e Leandra Leal tem uma atuação literalmente assombrosa.

"Nome Próprio"
Produção:
Brasil, 2007
Direção: Murilo Salles
Com: Leandra Leal, Juliano Cazarré
Onde: em cartaz no Espaço Unibanco Augusta e Frei Caneca Arteplex
Classificação indicativa: Não recomendada para menores de 18 anos
Avaliação:
Bom

No site Críticos:

Por Carlos Alberto Mattos

É particular e apreciável a maneira como Murilo Salles, o diretor, tem se inserido no discurso geral do cinema brasileiro desde os anos 1980. Quando começávamos a refletir sobre a ditadura militar como parte do nosso passado, ele retratou a solidão e o vazio de uma nova geração vivendo certa orfandade. Era Nunca Fomos Tão Felizes, um primeiro filme que a gente nunca esquece. No momento em que o governo Collor fodia com a vida brasileira, ele e Sandra Werneck traduziram a situação no curta-protesto Pornografia. Mais adiante, quando apenas se insinuava a onda de violência urbana que assola o cinema brasileiro recente, ele deslocou o ângulo para o imaginário de crianças da favela durante uma ação desastrada. Era Como Nascem os Anjos, um clássico do gênero.

Mesmo no aparentemente menos ambicioso – e muito incompreendido – Seja o que Deus Quiser, Murilo não deixou de surpreender com uma inversão de estereótipos que dizia muito sobre equívocos e obsessões do Brasil atual. A juventude continuava a ser o seu plantel predileto de personagens. E nada mais é que um porre de juventude a sua obra-prima que chega agora às telas. Nome Próprio é talvez o filme mais contemporâneo que o cinema brasileiro poderia produzir neste momento.

Estamos a muitas milhas de distância tanto dos chavões da violência quanto dos xavecos das historinhas bem-comportadas, que têm garantido ao filme brasileiro alguns favores do público. Nome Próprio disputa platéias com os bons filmes europeus e asiáticos da praça, ou com os melhores quitutes provenientes dos EUA. Isso porque , como poucos outros, troca a cor local pelos tons de um “país” interior, mais recôndito e insondável. Sua ação se passa dentro de uma cabeça, e não é de uma cabeça qualquer.

Camila Lopes, filtrada da autobiografia ficcional de Clarah Averbuck, é uma criação arrebatadora de Murilo Salles e Leandra Leal. Uma menina com a alma nas pontas dos dedos e o destino a curto prazo condicionado pelo tempo da conexão discada (estamos em 2001). Algo predadora, dada a barracos, criança e tigresa alternadamente, Camila tenta destilar sua solidão nos encontros de bar, nos copos de vodca e na devora de cigarros, na fantasia de um príncipe online, no corpo-a-corpo com as palavras que espalha pela rede sem esperar retorno nem compensação. Tudo é mar onde ela quer se dissolver. Tudo é vício, paixão e poesia.

Ela é a síntese de uma sensibilidade nova, que o cinema brasileiro ainda não tinha conseguido (na verdade, nem procurado) representar. E o desafio brilhantemente vencido por Murilo Salles foi o de tornar palpável diante de nós os sinais dessa sensibilidade. Sua câmera flutua sobre os corpos, acaricia-os ou espreita-os como um olho livre, sem peso. Mas o que esse olho desmaterializado vê é de uma visceralidade transbordante. As unhas raspadas de Camila; sua relação corporal com o set, os objetos e os demais personagens; a exteriorização das frases como textos sobre a tela – tudo isso remete a um movimento no sentido de transformar o sentimento em matéria exposta. Todas as dicotomias que dilaceram e ao mesmo tempo produzem essa Camila que nos é dado conhecer – angústia e hilaridade, decepção e dissipação, virtualidade e fisicalidade – ganham expressão poderosa nesse objeto fílmico singular.

Ao final, depois de desnudar-se em tantos sentidos quantos possamos imaginar, Camila se reparte em duas para, quem sabe, se apaziguar. A quebra da identidade é a suprema realização de um desejo de dar-se ao mundo e ao mesmo tempo manter-se coladinha a si mesma. Desconfio que Nome Próprio é sobre essa inquietação tão comum em tempos de desmaterialização, interação desenfreada e, contraditoriamente, isolamento cada vez maior.

Trechos das resenhas mais interessantes que já saíram sobre "Nome Próprio":

"Numa trama em que o computador, mais do que utilitário, é personagem, Nome Próprio (futuro concorrente no Festival de Gramado) ganha visceral atuação de Leandra Leal. Aloprada e sem pudores, ela tira do lugar-comum a escritora que imprime sua literatura até nas paredes."
(Ricardo Daehn, Correio Braziliense)

"Murilo Salles (trabalhando aqui com o digital) filma bem como poucos e Leandra Leal tem uma atuação literalmente assombrosa." (José Geraldo Couto, Folha de S. Paulo)

Clarah Averbuck foi capa da Revista do Globo desse domingo, numa matéria sobre a sua trajetória de escritora que estreou para o mundo no fanzine Cardoso Online, de lá seguiu pro blog brazileirapreta, e logo em seguida foi publicada em livro, adaptada pro teatro e agora pro cinema, com "Nome Próprio".

E como a moça é das palavras e é cheia de moral, ao invés de uma matéria com trechos de entrevista e citações, o texto é todo escrito por ela, em primeira pessoa como é a sua marca registrada, contando essa história do ponto de vista privilegiado de protagonista. Pra uma escritora que coloca tanto da vida na obra, e cujo alter-ego - mais uma Camilla, essa a Camilla da Clarah - muitas vezes se confunde aos olhos do leitor com a autora, é uma oportunidade ótima de entender como funciona essa mistura. Coisa que a Clarah já cansou de dizer lá no adioslounge, aliás, mas no jornal O Globo é a primeira vez.

Ainda no assunto da repercussão do filme, hoje no Globo Online tem uma entrevista com a Leandra comparando a Camila de Nome Próprio com a personagem dela na novela das 6. Leiam mais aqui.

As palavras vão se formando, as pessoas vão se aproximando e Camila ganha corpo. Corpo com células de letras.

Cinema para se ver, ouvir e ler!

A cada nova discussão nos blogs, Nome Próprio ganha vida. Uma vida que para ser vivida tem que estar sempre sendo revista, comentada, hospedada dentro de cada pessoa que o assiste. E ontem ele ganhou mais uma. Uma ilustre hospedeira, Milu Leite.

Ela escreveu uma ótima critica sobre o filme no blog overmundo, botando o filme na roda, obrigando-o a se movimentar. Copiamos aqui o texto para que vocês também possam se juntar à dança.


A blogosfera chega às telas

Camila (Leandra Leal), protagonista do novo filme de Murilo Salles, é blogueira. Inspirado em Máquina de Pinball e Vida de gato, dois livros de Clarah Averbuck (blogueira: http://adioslounge.blogspot.com/) , "nome próprio" tem tudo para agitar a blogosfera. É intenso, indefinível e despudorado como todo blog que se preze.

Leandra Leal, atriz que já nos surpreendeu muito bem em outros papéis (a menina de "A ostra e o vento" é inesquecível), dá carne, sangue quente e sentimento à sua personagem de modo quase assustador.

Feita justiça à sua interpretação, me reservo o direito de partir para os elogios ao diretor. Fazer um filme de palavras, quero dizer, transformar palavras em imagens de mesmo peso já não é tarefa fácil para os diretores que se aventuram nas adaptações literárias cujos textos são a grande força da obra, não a história. Murilo enfrentou o desafio de filmar palavras, porque Camila (tanto quanto a grande maioria dos blogueiros) é o que escreve. Não é possível dissociar texto de pessoa. Aliás, não seria esse o motivo de tanta gente falar de si nesses diários pessoais e serem lidas e questionadas, comentadas?

Então, vemos palavras na tela. Muitas. E ouvimos o tec tec tec do teclado, seguimos a setinha do mouse... e Camila vai se desnudando até nos causar dó, ou ódio, ou um nó na boca do estômago. Ela é só sentimento, mundanidade e... palavras. Penso agora que um dos maiores méritos do filme é não adocicar essa personagem tão controversa, desagradável aos olhos de alguns, irresistível aos meus.

Sem meias-palavras, é preciso dizer: Camila é terrível! Mas a sua disponibilidade para o mundo, a sua entrega descabelada aos apelos do amor e do corpo me fazem vê-la com os olhos da paixão.
E é esta paixaõ que sustenta a opção feita por Murilo Salles.
Honesto, entregue, revirado nas emoções. Ele captou tudo e nos deu um presente.
Espero que as pessoas o recebam.

Milu Leite

Bate-papo com Rosanne Mulholland, a Paula de "Nome Próprio", às 19hs no Uol. Participe!

Saiu hoje no jornal O Povo (CE) uma matéria muito interessante sobre criação colaborativa.

O filme também foi citado no SPFW, Pós-Pop, Revista de Cinema, Gafanhoto, Info News, Don't Touch My Moleskine, Triplo Sentido, Eu, ela, o cão e o affair redivivo, E aí, bonitão, Condussão, A discussão pela discussão, Urbanblog, Trash It Up.

Publicada em 02/10/2007 às 13h08m
Texto da leitora Haline Santiago Thaumaturgo

Leandra Leal retorna as telas de cinema em "Nome próprio", filme de Murilo Salles, baseado nos livros "Máquina de pinball" e "Das coisas esquecidas atrás da estante", de Clarah Averbuck.

Em meio a um apartamento sendo esvaziado, Leandra surge na pele de Camila, uma escritora em busca de idéias para seu primeiro livro, uma espécie de alter-ego da autora. Surge nua e é como passa a maior parte do filme, dando a idéia de estar constantemente se despindo diante de quem a está observando.

A história é ambientada em São Paulo e trata de dilemas afetivos, amizade, traição (ou não) e sexo, muito sexo. Tudo isso regado a muita bebida e cigarros. Em resumo, trata-se de vida pulsando e tudo que Camila faz, faz com bastante intensidade. Camila não tem pudores, quebra as regras, é extremamente envolvente e intimida quem não consegue lidar com isso. O sexo é tratado com naturalidade. Pode ser com o amor de sua vida, com um desconhecido ou com a amiga. Camila "come", não é "comida".

Camila não deixa o espectador relaxar, ora bebendo compulsivamente até passar mal, ora limpando freneticamente a casa, raspando o esmalte das unhas ou ainda tentando matar uma barata. Camila não tem paz e não deixa ninguém em paz.

Apesar destes momentos de extrema agonia, Camila consegue ter algum humor e, com isso, mesmo quando não está com a razão, consegue simplesmente desconstruir a idéia de razão. Certo ou errado não existem e o espectador sempre consegue entender sua dor.

O filme reúne cenas quentes de sexo e cenas com alto teor dramático. O maior desafio de Leandra era conseguir prender a atenção por mais de duas horas de filme - embora contracene com diversos atores, tudo gira em torno dela mesma. E este foi cumprido com muito talento.

Para os conhecedores da obra e dos blogs da autora, onde a música (rock, blues, jazz e etc.) é muito presente, ficou faltando uma trilha sonora adequada, mas nada que atrapalhe o conteúdo e a poesia do longa.

Nota: Clarah Averbuck é uma jovem escritora gaúcha, proveniente de uma safra de escritores que utilizam a internet como canal de comunicação, através de blogs e fanzines, como o "CardosOnline", do qual foi colunista até 2001. Escreveu três livros: "Máquina de pinball", "Das coisas esquecidas atrás da estante" e "Vida de gato". Atualmente edita o blog http://adioslounge.blogspot.com/

Músicas de Camila