Um filme dirigido por Murilo Salles com Leandra Leal.
Baseado na obra de Clarah Averbuck.

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Juliano Gomes

Nome Próprio só aparece na tela no fim do filme, sobre a imagem das Camilas. Parece que a partir daí tudo se acalma; resolve-se a crise. Como se o problema fosse que ela não coubesse em uma só.
Próprio "é o que pertence ao sujeito da oração", e também "adequado, conveniente, que serve a determinado fim, apropriado". Enfim, acho um nome bem feliz pro filme, mas me suscita a curiosidade de saber se é um nome conquistado ou dado, saber o que você acha disso. Não poderia ser um nome comum? Ou impróprio?

(Formado em cinema, jornalismo e publicidade na PUC-Rio, Juliano Gomes trabalhou como assistente de direção no longa Filhas do Vento, de Joel Zito Araújo. Desde então, realiza documentários, ficções e institucionais. Organiza também, desde 2005, o cineclube CINEPUC. Atualmente, é mestrando da ECO-UFRJ e colaborador do DocBlog, organizado pelo crítico Carlos Alberto Mattos. Foi membro do Júri da Mostra Visões do 1º Festival de Cinema Fantástico do Rio de Janeiro – RIOFAN).


MURILO

Juliano, acho que a sua pergunta refere-se mais a questão do nome, se é próprio, ou impróprio, ou comum. Acho que a melhor forma de responder a isso é falando um pouco da história do nome do filme; porque esse filme foi procurando o seu nome próprio.

Ele começou como “Máquina de Pinball”, igual ao livro. Já no primeiro tratamento do roteiro, que feito pela Helena Soares, o filme passou a se chamar “O Mundo Segundo Clarah Averbuck”. Do segundo tratamento em diante, ele virou “Pinball” e ficou “Pinball” durante um tempo enquanto íamos escrevendo. Eu gostava da imagem, não gostava da máquina de pinball, porque não acho que é essa a questão. O que era interessante ali para mim era a bola. Ela é uma coisa que vai daqui pra lá, bate, volta, bate nos pontos, se movimenta. Mas, também não queria que o filme se chamasse bola de pinball. Acabei abandonando essa idéia porque eu queria tornar o meu personagem em autor e não numa conseqüência de comando de um outro autor.

Quando chegou perto da filmagem, como eu estava brincando com essa questão do quê é narrado e o quê é vivido por Camila, pelas duas Camilas, eu transformei o filme em “Uma História Real”. Eu estava brincando com esse conceito, do quê que é verdade, o quê que você posta num blog e o quê você vive na vida real; de como a gente se ficcionaliza. Porque, no final das contas, é essa a questão.

O filmei foi todo feito com a claquete Um História Real; comecei a montar o filme ainda com esse nome. Então, quando a montagem foi chegando no final, além do fato de já ter alguns filmes com nome de Uma História Real, comecei a achar que o filme não é uma história real, aliás é tudo o que ele não é. Fiquei com isso na cabeça, achando que o filme tinha que ter outro nome. Procurei e cheguei ao nome “Impressão Digital”, mas achei que era um pouco literal demais; eu gostava e não gostava.

Até que um dia, fazendo uma sauna com a minha senhora, ela começou a falar que o filme tinha que ter um nome próprio, muito próprio. Quando ela voltou a frisar muito próprio, eu disse assim: “Caramba Deyse! Porque não “Nome Próprio?” E a Deyse adorou. Comentei com o Avellar, que gostava muito do “Impressão Digital”, e dois dias depois ele me manda um texto do Otávio Paes, falando sobre a questão do nome próprio, falando de uma forma tão pungente e pertinente com o filme que até hoje esse texto é a introdução ao filme no meu site. Logo depois disso, comentando com a Viviane Mosé, ela sacou um poema dela, que fala sobre no nome próprio. Era coincidência demais. Apesar de algumas pessoas acharem um pouco pedante esse nome, eu gostei muito. Acho muito próprio o filme se perguntar pelo seu próprio nome. Por tudo isso, acho que esse é um nome conquistado arduamente, um nome que se conquista.

Concordo com você quando diz que pode ser que Camila não se baste em uma, não se caiba em uma. Essa é uma das teses boas para o final do filme.

Juliano Gomes

Os escritos que habitam a tela no início do filme, que ficam entre os espectadores e as imagens, são uma expressão direta de Camila. Num segundo momento, pulando pra terceira pessoa, eles parecem vir de um narrador externo, de quem "faz" o filme. No final, vemos que Camila escreve também em terceira pessoa; o "personagem-narrador" se desfaz.
Queria perguntar até que ponto o filme se deixa contagiar pela Camila e até que ponto ela se contagia pelo filme. Porque me parece que estas partes são diferentes, que as crises da narrativa são "do filme", de como apresentar este personagem, de como fazer cabê-lo na tela. Sinto uma crise de representação no filme e acho que pra viver isso se escolheu uma personagem de convulsões, de montanhas-russas, pra que haja um "ou vai ou racha".

(Formado em cinema, jornalismo e publicidade na PUC-Rio, Juliano Gomes trabalhou como assistente de direção no longa Filhas do Vento, de Joel Zito Araújo. Desde então, realiza documentários, ficções e institucionais. Organiza também, desde 2005, o cineclube CINEPUC. Atualmente, é mestrando da ECO-UFRJ e colaborador do DocBlog, organizado pelo crítico Carlos Alberto Mattos. Foi membro do Júri da Mostra Visões do 1º Festival de Cinema Fantástico do Rio de Janeiro – RIOFAN).


MURILO
A primeira questão é sobre os textos que vão possuindo a tela no início do filme. Esses realmente são escritos da Camila. São todos uma provocação ao Felipe. Há uma ligação direta, os textos estão em “sinc” com ela; vemos os seus dedos digitando e o texto surgindo na tela em seguida.

O primeiro momento de desconstrução é a cena em que ela vai para o Estádio de Futebol. É ali que aparece o primeiro texto de fora: “eu engoli uma pedra. Tem uma pedra dentro de mim. Tem uma pedra. Tudo é dentro”. Esse bonito texto da Viviane Mosé é o primeiro texto que não está em sinc com a ação de Camila e sim com os seus sentimentos.

A primeira intervenção realmente poderosa é logo após ela conhecer o Henry, quando ela está na praia transando com o namorado da amiga. “Nada me resta senão me perder em você, senão morrer um pouco, senão gozar sem saber do que se goza”. Essa fala, que na verdade é da Santa Tereza D’Ávila, é uma violenta ação de um texto sobre a imagem. O texto desfoca a imagem, a sua entrada é avassaladora. O texto possui a imagem. Ali alguém começa a escrever. É ali que começa. É ali que começam todas as questões.

O segundo momento que vc comenta, quando os textos começam a vir na terceira pessoa, começa praticamente só na metade do filme e aparece como uma descontrução. Camila fala em off no presente e na primeira pessoa, enquanto que o texto que aparece na tela é escrito no futuro e na terceira pessoa. É assumidamente uma desconstrução verbal. Queríamos provocar uma sensação de que alguém poderia estar escrevendo aquela fala, que existiria uma outra narrativa por detrás daquelas imagens.

Enfim, Juliano, eu discordo um pouco de você. Esse filme é um filme sobre narrativa, sobre construção de narrativa. Mas, não é porque utilizo um processo de desconstrução, que vai inserindo no filme textos na terceira pessoa e com isso a narração vai sendo paulatinamente tomada por um segundo narrador, que há uma “crise de representação”. Não acho que o personagem narrador se desfaz, pelo contrário, eu acho que ele se constitui. O personagem narrador só se constitui ali no fim. No fim, há uma possibilidade de que aquela segunda Camila seja o personagem narrador. Mas, pode haver outras interpretações também; segundo o Felipe Bragança, aquela segunda Camila sou eu. Eu estou mais para a opinião do Felipe.

Não acho que essa ação de escrever contamina a personagem. É mais do que isso, acho que elas se complementam. É por isso que digo que elas se constituem ao invés de se desfazerem, como você diz. Nada do que é escrito muda a ação da personagem, os textos são muito mais uma complementação da idéia que está sendo narrada. O que está sendo escrito só narra o que a gente está vendo, como na cena final em que Camila sai da festa, entra no ônibus e vai até a casa. Nada do que é escrito faz o personagem mudar qualitativamente. O narrar é uma outra instância, uma instância que está em comunhão com a imagem.

O uso do texto no filme sinaliza esse gradual desvelar de um segundo narrador, de uma segunda instância narradora. Por exemplo, a gente vê em duas cenas uma mão de mulher escrever e-mails de homem. O Daniel existe a partir de e-mails que estão sendo escritos por uma mulher. Toda vez que tem um e-mail do Daniel, com exceção da primeira vez, quando Camila usa o computador do Henry, aparece a mão de uma mulher digitando esse texto. Isso remete a possibilidade de Daniel ser uma invenção sim, dele ser uma coisa da cabeça dela.

Então, eu acho que o filme interage nessas duas camadas, como disse o Felipe Messina, Nome Próprio é um filme em camadas, um filme que fala sobre a paixão e sobre narrativa. As camadas se comunicam, mas não interagem. Elas formam um todo coeso.

Melhor FILME EM GRAMADO!!!!
Que honra!
Vindo de um corpo de jurados de excelência:
Ana Carolina - Presidente do Júri
Carlos Gerbase
Lina Chamie
Roberto Guervitz
E Marcelo Janot - crítico de cinema.






FIZEMOS ESSE FILME COM PAIXÃO, e foi lançado com igual paixão. Transformamos nossa energia nessa FORÇA BRUTA que se chama Nome Próprio
.

Um filme que escreve a sua HISTÓRIA a cada dia!
Sou muito grato por esse carinho enorme e entrega de todos. O lançamento foi uma ação ESPETACULAR da equipe, do elenco e das pessoas que acompanham e participaram diariamente do nosso blog. Fizemos esse filme acontecer na marra! E agora vem esse reconhecimento também ESPETACULAR!

VOCÊS FORAM TODOS RECONHECIDOS NESSE PRÊMIO, pois existe o de melhor diretor e não ganhei, GANHAMOS O DE MELHOR FILME E ESSE PRÊMIO É DA EQUIPE, DO ELENCO E DOS AMIGOS DE NOME PRÓPRIO.

PARABÉNS A TODOS!

Murilo Salles.

FELIPE MESSINA

Camila vive o efêmero. Há, por um outro ângulo, uma relação distinta entre a velocidade com a qual a personagem muda de casa, muda de amigos, muda de amores e a maneira como processa em texto estas experiências. Cada dia de blog é mais um dia que segue, é mais uma página que passa. Mas, ao mesmo tempo, está tudo gravado, é tudo acessível, é tudo passível de se reviver, de se relembrar. Se cada post é um retrato de um dia, de um beijo, de uma angustia; se cada experiência nova é perseguida obsessivamente; se cada página pertence a seu próprio tempo; os tempos se mantém no digital. A escritora persegue certa permanência das experiências e a obra “nunca termina”. Nome Próprio pode ser encarado como um retrato de situações de seu tempo. Um retrato composto por várias mãos. Há nele as intervenções das vivências dos roteiristas, do diretor, da autora, da atriz. Nesta maneira de lançar o filme, o autor busca uma participação ainda maior do espectador e demais sujeitos deste blog. Além disso, o filme e o blog podem passar a ser elementos complementares de forma profunda. Até onde você pretende manter relações de criação com este projeto do ponto de vista da sua intervenção criativa? Em algum momento você pretende tirá-lo do ar ou pretende deixá-lo (filme/blog) correr vida própria? Ou, mais ainda, pretende participar da atualização deste blog continuamente compondo uma obra quase sem fim?

(Felipe Messina, jornalista formado pela UFRJ, cobriu o circuito de festivais de cinema para o site Imprensa Jovem (2000 a 2004). Atualmente escreve para o DocBlog da Globo.com, editado por Carlos Alberto Mattos. Dentre os textos destacados: cobertura e redação de resenhas do É Tudo Verdade (2007/2008) e Festival do Rio (2007). Como realizador, produz com outros parceiros um filme sobre o projeto Semente da Música Brasileira e seus bailes no Clube dos Democráticos)


MURILO

Felipe, estou lendo a sua pergunta hoje, estamos no dia 8 de Agosto, iniciando a quarta semana de projeção do filme. O blog que já teve mil visitas por dia, está hoje com umas quatrocentas e poucas. Eu sabia que ia ter uma tendência de esvaziamento, cheguei até a conversar várias vezes com o Léo Bittencourt, o editor do blog, sobre o quê a gente iria fazer. Eu achava que a gente devia continuar o blog, não apenas como um blog sobre o filme e sim como uma experiência de um espaço existencial, de afirmação existencial de uma galera que está aí perdida pelo Brasil e quer falar, quer fazer arte e quer pensar mais profundamente o seu cotidiano. Sempre achei que o blog poderia ir por esse caminho; mas isso tem que acontecer de forma espontânea, da mesma forma como surgiu a idéia do blog, de forma simples e natural, sem ser forçado.

O Blog do filme Nome Próprio foi criado pela Clarah e pela Leandra no início do lançamento do filme. Foram elas duas que tomaram a iniciativa e criaram o blog. Nessa época, eu estava numa luta desesperada para arrumar dinheiro para lançar o filme e o dinheiro não vinha, tive então uma proposta da “Oi” de disponibilizar o filme num site, no portal da Telemar. Fiquei pensando um tempo sobre o assunto e comecei a achar que aquilo tudo era muito “oficial”, não tinha haver com o filme. Na conversa com um dos parceiros do lançamento, o Beto Topczewski da Big Bonsai, tive a consciência de que o filme não precisava de um site, nem de um super portal, ele precisava ter um blog. Foi junto com o Beto que percebi que a pertinência do lançamento desse filme era ter essa unidade de linguagem; de fazer o filme continuar num blog, dele se perpetuar no relato e na relação direta com as pessoas. Foi nessa época que eu assumi e comprei a idéia de lançar o filme inteiramente através do blog.

É muito legal ler a sua pergunta agora. Porque estamos repensando o blog. Eu sempre achei que o filme poderia continuar no blog. Mas, na verdade, o cotidiano dos Posts e dos comentários tem caminhado para uma direção que eu não esperava. Imaginava que as pessoas fossem se colocar mais, usar mais esse espaço que a gente abriu. Nós provocamos, instigamos, mas não deu muito resultado; com exceção do concurso do trailer que foi um puta sucesso. Os textos e materiais mais filosóficos e artísticos foram enviados por pessoas amigas, parceiros, a Alessandra Cestac, Lucas Bambozzi, Edouard Fraipont, Deisy Xavier e de algumas pessoas da equipe do filme. Agora, poucas pessoas realmente escreveram comentários e textos interessantes, que se colocaram mais pessoalmente. Tivemos boas e gostosas surpresas com a Violet Scott e o Rodrigo Luques, além de outras pessoas que me fugiram o nome agora. Teve um cara que viu o filme lá no Ponto-Cine, mandou uma poesia e a gente publicou, mas foram casos isolados. Enfim, eu meio que desanimei um pouco. Essas coisas têm que surgir de forma espontânea, ou então não faz sentido. Não dá para forçar. Dá para instigar e isso a gente tem feito. Estou mantendo até agora o blog, pagando para ver. Ainda vou escrever mais algumas coisas. Pode ser que enquanto a gente tiver energia aqui no escritório, eu e o Léo, a gente vá mantendo o Blog, vamos ver até quando.

FELIPE MESSINA
O plano pessoal da escritora é a matéria-prima de sua literatura. Mais do que inspiração, trechos de vida Camila são escritos e lidos. Das diferentes interpretações de “Escrevo porque preciso. Melhor, vivo porque escrevo.”, é possível chegar em “Vivo (certas circunstâncias) porque necessito delas para escrevê-las.” Seus relacionamentos são mais do que relacionamentos... são objetos de textos. Se ao final vemos uma escritora que se parte em duas, fundamentalmente ela também se funde em uma só. Seus amantes não são “apenas” amantes, são personagens. Seus tormentos não são “apenas” tormentos, são citações. Camila é sua obra.

Onde está o limite de Murilo Salles em sua arte? Onde está o limite de Murilo Salles em Camila? Em qual medida há Murilo Salles em Nome Próprio?

(Felipe Messina, jornalista formado pela UFRJ, cobriu o circuito de festivais de cinema para o site Imprensa Jovem (2000 a 2004). Atualmente escreve para o DocBlog da Globo.com, editado por Carlos Alberto Mattos. Dentre os textos destacados: cobertura e redação de resenhas do É Tudo Verdade (2007/2008) e Festival do Rio (2007). Como realizador, produz com outros parceiros um filme sobre o projeto Semente da Música Brasileira e seus bailes no Clube dos Democráticos)


MURILO
Onde estão os limites entre Murilo Salles e Camila? Essa é uma boa questão. Quando procurei esse filme, quando eu estava no processo de pesquisa, havia uma coisa que me encantava: a internet. A questão da internet surgiu para mim no meu filme anterior, no “Seja o que Deus Quiser”.

Terminei de filmar o “Seja o que Deus Quiser”, no dia 11 de Setembro de 2001. Estava fazendo as malas para vir para o Rio, quando os aviões entraram nas Torres Gêmeas. Eu vi. Vi ao vivo o segundo avião colidir. Desde essa época, estou ligado nessa questão da Internet. Depois que começou a surgir o fenômeno brasileiro no Orkut, eu passei a ficar ainda mais interessado na relação entre internet e Brasil. Eu via na internet um Brasil possível, um Brasil estranho, bizarro.

Nos meus dois filmes anteriores, “Como Nascem os Anjos” de 1996 e o “Seja o Que Deus Quiser” de 2002, eu estava discutindo um outro Brasil, uma outra visão do Brasil. O “Como Nascem os Anjos”, o filme dos dois garotinhos na favela, é uma tragédia anunciada. O que é óbvio. O quê eu ia fazer ali? Não dava para modificar aquele fim, eu só radicalizei o fim. Mas, na verdade, eu construí aquilo como uma brincadeira, como uma tentativa de discutir o verossímil no cinema. Todas aquelas citações são irreais, são inverossímeis, uma discussão de como a gente consegue criar verdade no cinema. No entanto, o que ficou dali foi a questão da cidade partida; o filme foi visto mais como um precursor da discussão da cidade partida, que pra mim, mesmo naquele momento, já era uma coisa meio velha. Eu não queria focar nisso, até porque as crianças estão brincando com isso, tem um tom de comédia evidente no filme, de brincadeira evidente, como tem no “Seja o que Deus Quiser”. Mas, quando você brinca com divisões, com questões tão grandiosas desse Brasil dividido, desse Brasil desigual, você não é muito perdoado, as pessoas não têm jogo de cintura para brincar com isso e essas duas brincadeiras minhas meio que se deram mal.

Então, resolvi fazer uma outra operação nesse filme novo. Tudo partiu da Internet e do Orkut. Foi por acaso que descobri a Clarah Averbuck. Estava lendo a coluna da Cora Rónai no Globo, quando descobri que naquela época, final de 2002, o Blog da Clarah era um dos blogs pessoais mais vistos no mundo. Fiquei interessado. Mandei um e-mail para a Clarah e ela me respondeu imediatamente. Tudo rolou muito rápido, comprei os direitos do livro com um dinheiro que tinha ganho num desenvolvimento de projeto da Telemar e fechamos o contrato. Foi então que parei para ler o livro. Só que naquele momento eu não estava dando conta, estava finalizando o “Seja o que Deus Quiser” e logo depois eu tinha o projeto do “Árido Movie” com o Lirio. Então, me afastei um pouco do projeto.

Chamei a Elena Soarez e a gente conversou muito sobre a Clarah e sobre essa questão do narrar. Convidei-a para escrever o primeiro tratamento. A pegada da Elena foi mais pela comédia, ela fez um roteiro cômico. No roteiro, tinha a presença de uns dez fãs como personagens. Acontecia uma série de relações, os fãs iam procurar a Camila e não a encontravam nunca; enfim, o filme ia muito por aí.

Esse roteiro ficou guardado por um tempo. Quando reli, quis desistir do projeto. Não me via ali, eu não achava graça naquilo, quer dizer, eu achava graça nessa questão do que é real e o quê é virtual, essa questão de construção de narrativa. Agora, o roteiro da Elena tinha uma coisa muito legal, que é essa estrutura que o filme tem hoje. Quer dizer, eu fiz algumas modificações, tirei os fãs e comecei o filme com a Camila se separando. Quis manter a Camila, a minha Camila, se comunicando com os fãs, mas pouco e totalmente enclausurada. Eu parti para a clausura e a partir daí comecei a descobrir a questão da paixão. Fui me esfregando, tentando me descobrir ali. Até porque, nesse momento, eu já tinha gasto um dinheiro, tinha que fazer o filme. Eu disse: “cara como eu vou fazer esse filme?” Eu tinha que criar uma pega, eu tinha que me jogar inteiro, para dentro.

Então, até que ponto está o Murilo no filme? Na verdade, durante três anos eu fui descobrindo o filme, fui me empenhando profundamente em descobrir o que eu queria. Fui descobrindo as questões da paixão e do transbordamento. Durante três anos fui me tornado a Camila, descobrindo a minha Camila. Eu até brincava com a Clarah, dizia: “Eu sou a melhor Clarah Averbuck”. Porque, na verdade, a escrita é da Clarah, seria da Clarah, só que eu fui descobrindo outros temas. Fui querendo tornar minha personagem mais densa, menos piadista; fui tornando-a mais entregue à paixão, mais desesperada com a busca dos seus contornos, de se jogar e se arrebentar, de se entregar aos homens para descobrir os seus limites. Pois, é assim, homens e mulheres só descobrem os seus limites se entregando às aventuras amorosas e paixões, até que um dia encontramos alguma coisa além, encontramos a nós mesmos.

O Felipe Bragança fez uma piada, lá no Festival de Tiradentes, dizendo que aquela outra Camila, a que aparece no final do filme, sou eu. E ele está certo, eu sou a melhor Camila.

FELIPE MESSINA
O roteiro do filme apresenta uma série de lacunas, desde o princípio. O espectador pode simplesmente ignorar a falta de informação anterior à cena ou pode abstrair e criar seus próprios preenchimentos destas gavetas entreabertas. Do ponto de vista da construção do perfil da personagem, partimos de uma situação em que não sabemos nada sobre a anterioridade da briga entre Camila e seu namorado. As possíveis “razões” que a levaram a ser pega na cama com outro homem são apresentadas em suas falas iniciais, cada um pode construir a pré-separação da forma que quiser. Na seqüência, “conhecemos” melhor os episódios vividos por Camila. A obsessão e a compulsão; a exposição de sua vida pessoal; as repetições dos episódios de transas com outros amantes; o surgimento da mãe e de relacionamentos mais próximos; a entrega que faz à literatura. Expostos em ordenamentos distintos, as facetas de Camila podem gerar ao espectador um apreço diferente pela personagem. As seqüências do filme, em vários casos, poderiam ser apresentadas em outra ordem e construir uma terceira narrativa e ainda conter o sentido principal. Como foi o processo de elaboração do roteiro e o que definiu o percurso de construção da personagem?


(Felipe Messina, jornalista formado pela UFRJ, cobriu o circuito de festivais de cinema para o site Imprensa Jovem (2000 a 2004). Atualmente escreve para o DocBlog da Globo.com, editado por Carlos Alberto Mattos. Dentre os textos destacados: cobertura e redação de resenhas do É Tudo Verdade (2007/2008) e Festival do Rio (2007). Como realizador, produz com outros parceiros um filme sobre o projeto Semente da Música Brasileira e seus bailes no Clube dos Democráticos)

MURILO SALLES

Nome Próprio realmente poderia ter sido apresentado, montado, em diversas ordens, construindo outras narrativas. Inclusive, já tivemos 4 horas e 30 de filme montado, não de material bruto; 4h e 30 de material editado mesmo. Na versão que foi para o cinema, ele tem 1 hora e 54 minutos de filme corrido. Obviamente a gente tirou muita coisa, mexemos em muita coisa, inclusive criamos algumas descontinuidades, o que as pessoas reclamam um pouco.

Mas, eu concordo: poderíamos ter ordenado esse filme de diversas formas. Só acho que aprendi com esse filme que quando escolho uma palavra, uma cena, estou fazendo uma opção de recorte, um recorte pessoal daquele universo. O que tomei mais cuidado no roteiro foi para construir uma narrativa de uma narrativa. Nós filmamos com esse intúito, isso não foi inventado na montagem.

Eu tinha uma versão para o final do filme com Camila escrevendo num caderninho, a câmera saia do caderno e vai subindo até chegar ao olho, até um close. Um plano lindo da Leandra, só o olho dela em foco. Esse era um movimento que eu acreditava representar a passagem da literatura para o cinema. Ela escrevia num papel, toda a imagem fora de foco, quando terminava de escrever, a câmera ia subindo pelo braço dela e só focava quando chegava no olho. Achava que era nesse rito de passagem onde eu inaugurava a questão do cinema. Mas, tudo isso foi tirado.

Estou contando isso pra dizer que eu construí uma narrativa suficientemente suculenta para que eu pudesse mexer depois na montagem. O Roteiro já foi escrito pensando na posse da escritura, dos textos sob a tela; na segunda camada de significados que você comentou na sua primeira pergunta. Mas, você transformou essa questão em três camadas diferentes que se interpenetram. Eu tenho uma tendência a achar que são apenas duas. O tempo todo existe esses dois campos.

Construí o filme de forma a ter opções na manga. No roteiro eu já tinha várias cenas da Camila escrevendo no teclado, pois eu sabia que o tempo todo eu poderia cortar pra tela, enfim, ele já tinha alguns recursos que eu poderia usar e que sabia que seriam úteis na edição. O roteiro não foi feito com nenhuma artimanha, ele foi feito com o que está no filme, aliás, esse filme é muito fiel ao seu roteiro. Eu não improviso, eu improviso na hora de roteirizar. É ali que eu decido o quê quero e o quê que eu não quero. A hora de roteirizar pra mim é a grande hora criativa, é por isso que eu fico dois anos escrevendo um roteiro.

Gosto de escrever de forma que eu já começo a cena no meio; nunca revelo os prolegômenos e tento evitar o fim da cena também. Esse filme já começa com o que eu chamo de liturgia da suspensão. Existe esse desejo meu de criar uma situação sem os seus alicerces. Apesar de eu fazer um cinema narrativo, tento desconstruir as determinações que constroem uma cena. Fico criando o espaço, a cena, quero remeter para o cinema. Não interessa a historinha, interessa sim o cinema.

A primeira cena do filme, por exemplo, remete para um estado suspenso, tão suspenso que várias pessoas acham que a Camila nunca teve uma relação séria na vida. Como assim? Como as pessoas podem achar isso? Isso acontece porque há uma falta do olhar de cinema, dessa questão do tempo. E a depressão de Camila? E a destruição dela e do Felipe? Os dois estão destruindo uma relação, ninguém destrói uma relação desse jeito sem que tenha sido uma relação impactante. Felipe e Camila eram intensos, tinham uma relação séria e de longo tempo; acho que isso está claro no filme.

As pessoas acham que a Camila é uma piranha, por quê? Por causa do machismo dominante. O filme é muito sobre isso. Aliás, eu postei um texto com esse tema: Quem tem medo de Camila Lopes, um texto que discute esse machismo; um machismo que existe inclusive na cabeça das mulheres.

Estaremos publicando ao longo desta semana a entrevista feita por Felipe Messina e Juliano Gomes com Murilo Salles, a cerca do processo de construção do filme Nome Próprio. A cada dia, postamos uma das seis perguntas.

FELIPE MESSINA:

Nome Próprio é um filme focado primordialmente em seu personagem principal. Desde o principio acompanhamos os choques e as rupturas que Camila sofre com seus espaços e as relações que a circundam. É possível absorver uma leitura dual entre uma vivência impregnada de um espírito de liberdade ou de um sabor de aprisionamento. Talvez uma falsa liberdade, talvez uma falsa prisão, talvez uma prisão libertária. Dentre os espaços construídos no filme, notamos fortemente três camadas principais, três espaços principais: o espaço das relações pessoais, o espaço da criação artística e o espaço físico do mundo e seus cubículos de cimento. , A imagem e as relações destes lugares são fortemente construídas do ponto de vista visual. Eles se confundem e se mesclam na trama e no quadro. A vida pessoal com o blog e seus leitores, os quartos e os planos fechados (em circunstâncias que beiram a claustrofobia) e as letras que invadem a tela. Cada qual com uma marca específica mas que, em alguns momentos, transbordam uns para os outros. Como foi o processo de elaboração destas imagens, da formação dessas diferentes camadas? Em que momento do processo de criação do filme esta questão surgiu? Era uma preocupação inicial já na elaboração do roteiro? Como se deram as etapas de construção desta interação dos espaços de Camila?

(Felipe Messina, jornalista formado pela UFRJ, cobriu o circuito de festivais de cinema para o site Imprensa Jovem (2000 a 2004). Atualmente escreve para o DocBlog da Globo.com, editado por Carlos Alberto Mattos. Dentre os textos destacados: cobertura e redação de resenhas do É Tudo Verdade (2007/2008) e Festival do Rio (2007). Como realizador, produz com outros parceiros um filme sobre o projeto Semente da Música Brasileira e seus bailes no Clube dos Democráticos)


MURILO:

Esse filme fala mesmo pela imagem; mas a imagem vista em todo o seu complexo, quer dizer, com texto, com som. Vc fala em três camadas, mas a sonoridade também poderia ser uma quarta camada. O Léo tinha comentado que achava que a quarta camada seria o imaginário de Camila. Eu acho que isso está na mescla dessas três camadas que vc comenta; a quarta camada seria mesmo o som, o uso do som.

O processo de elaboração das imagens foi feito aos poucos, foi sendo construído por camadas mesmo. Existiu primeiro um olhar sobre o trabalho da Clarah Averbuck, sobre o que me interessava na Clarah. Era um olhar sobre as historias dela, não um olhar sobre a sua literatura. A literatura dela não me interessava, nunca me interessou. Me interessava o factual das histórias e também a operação que ela fazia. Na verdade, esse filme fala mais da Clarah do que do livro dela. O que me interessa é a sua operação: uma menina querendo ser escritora, que se isola, que escreve um blogue e que usa a sua vida para criar os contornos da sua literatura.

Existia também a questão sobre a construção de narrativa, que pra mim é também o segundo vértice ou vertente importante. Na verdade, eu acho que esse filme tem duas camadas, com subcamadas que se interpolam. Para mim, existe a camada que é a historinha factual e existe a história que está sendo narrada.

Como você mesmo coloca, Felipe, essa é uma parábola da contemporaneidade; uma falsa sensação de universalidade que a gente tem através da Internet. Esse paradoxo acaba criando uma clausura de verdade. Nós somos obrigados a estar fixados à tela do computador para estarmos conectados com o mundo, e isso é um paradoxo. Hoje em dia, com a Internet mudando para o celular, talvez isso mude. Mas, no momento em que o filme se passa, em 2001, não havia jeito, para ganhar a liberdade virtual você tinha que perder a real, tinha que ficar confinado.

Então, existe o nível das histórias da Camila, da sexualidade de Camila, da afetividade de Camila, dos transbordamentos dela. Mas, tem também existe toda uma intenção de criar um segundo nível, o nível de quem está escrevendo essa história e que vai possuindo lentamente o filme. O primeiro corte tinha uma câmera que era o olhar daquele personagem final. Acabei cortando essas câmeras da montagem porque tive medo de ficar muito claro, de bandeirar demais. Eram câmeras em geral mais tremidas, uma linguagem meio MTV, camerazinha tremidinha, na mão, fechada ... Eu não queria trazer isso para o filme, não tinha nada a ver; esse filme é um filme clássico, ele é filmado classicamente, apesar de ter planos bacanas, ele tem uma tranqüilidade na linguagem que foi muito procurada, pensada.

O que ficou no filme foram as câmeras de cima, que provocam um lugar de um olho, um olhar de Deus. Por exemplo, quando eles estão transando na praia, a Camila e o namorado que ela rouba da amiga, da Mary, é um olhar de Deus, de cima; como se levantasse a pergunta: quem está olhando ali? E não é apenas a câmera que aponta para esse personagem que está "fora". O texto da praia, que aparece escrito sob a imagem da transa, é pungente, domina e avassala a cena. Aquele é um texto que avassala, porque aquilo é um pensamento! Tem alguém pensando aquelas frases, aliás, a estrutura toda da praia; desde a utilização do sambinha. A cena do sambinha foi criada para gerar estranhamento com aquela situação, um distanciamento mesmo, porque aquela música é a única música que não tem nada a ver com o filme. Aquilo é para nos remeter à idéia de que tudo ali pode ser ficcional. Por exemplo, a chegada do Henry na praia, como é que ela se dá? Tudo ali está no limiar. E aquela praia? Onde é aquela praia? Se você observar bem, não tem nenhum carro passando. A gente ficou ali esperando até não passar nenhum carro. É a Av. Atlântica, mas ela está vazia, ninguém passa ao fundo, nenhum carro passa ao fundo, não tem seres habitando aquela cidade, é uma cidade vazia.

É nesse sentido que foi feita toda a construção do filme. A gente filmou em três apartamentos. Tinha uma operação inicial mais radical, que ia desvendar essa questão. Só que, já na primeira montagem, ficou claro que era muito didático. Revelava-se muito claramente a casa, o nome da autora final. A autora final, aquela da última cena do filme, tem um nome, Beatriz. É ela lá no bar com o homem de Ribeirão Preto. É a Beatriz, não é Camila. Enfim, é real. Tudo nesse filme é real, por isso ele se chamava uma história real.

Existe realmente essa tentativa de construir uma operação de alguém que está pensando aquele narrar, possuindo aquele narrar. Por isso, os textos vão para a tela. Isso pode parecer uma outra camada, mas não é. É a mesma camada. Não existe essa quarta camada que o Léo Bittencourt associava à imaginação. Na verdade, esse filme só tem duas camadas: o real, a historinha de Camila, e o pensado, o construído, que talvez seja a história que Beatriz esteja construindo e impregnando o filme, possuindo todo o filme com ela. No entanto, ela só se revela totalmente na última cena.

Tire seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor.
Guilherme de Brito em música de Nelson Cavaquinho.

Este POST é uma homenagem / é tirado do livro ‘O Ponto da Partida’, o novo romance de Fernando Molica
Fernando me fez perceber que a “minha” Camila (que discussão pequena e imbecil!) , na verdade, descobri isso na semana passada, é uma homenagem a Nelson Cavaquinho. Assim se refere a ele o personagem principal do Fernando:
“O Nelson sempre viveu ferrado, sempre tomou porrada, sempre se lixou pra essa porra de mercado. Tava com fome? Vendia um samba, o dono do boteco virava parceiro porque deixou o Nelson comer de graça. Nelson do Cavaquinho foi o compositor mais generoso da música brasileira. Tem parceiro dono de boteco, de puteiro, gerente de hotel vagabundo, de espelunca. Os herdeiros desses caras devem estar até hoje orgulhosos: papai foi parceiro de Nelson Cavaquinho. É, parceiro: entrou com o bife, com o quarto, com a puta. Quer saber? O Nelson estava certo, danem-se. Chegou a dizer isso num samba dele e do Guilherme: “Eu que já vaguei nas madrugadas / E já fui o dono das calçadas / Pra todos aqueles que me estenderam a mão / Dividi meu coração. Olhem só que coisa superior: “Dividi meu coração”. Ele não reclama, não diz que foi salvo, que comeu, que bebeu, que trepou graças aos que lhe estenderam a mão. E, em troca, simplesmente, dividia seu coração. Poderia ter uma vida melhor? Podia. Mas não seria o Nelson Cavaquinho, o dono das calçadas.

Murilo Salles.

Há muitas instâncias em uma mesma arte. Fazer cinema. Pensar o cinema. Pensar o cinema dentro dos próprios filmes, metalingüisticamente. É possível também pensar o cinema ao fazê-lo, pensar de dentro mas olhando de cima, pra fazer melhor.

Foi isso que o Murilo resolveu fazer logo antes do início das filmagens de "Nome Próprio", que ainda se chamava "Uma história real". Esse texto, que vamos publicar em duas partes, propunha à equipe uma reflexão sobre o filme, sobre cinema, pra que todos juntos fizessem o filme que eles queriam fazer, e não o filme que surgisse. Um filme pensado, sem perder a espontaneidade.

Aqui é possível ver (ler) o início do processo de construção de "Nome Próprio". Uma espécie de making of dos pensamentos. Um privilégio, portanto, ter acesso a esse material. É pra ler, reler, e refletir...

Que filme estamos fazendo?

texto escrito em 28/01/2006 e enviado a equipe de Uma História Real

Este texto serve para o exercício de conceituação do filme.

Para ajudar a pensar e a investigar sobre o filme que estamos fazendo.

Esse filme, em primeiro lugar, é uma homenagem à ficção. É na ficção que o homem experimenta o seu melhor e pior, é o lugar onde ele formula seu ideário artístico e existencial, seu sonho, sua utopia; onde exalta de alegria, onde expõe seu sofrimento e sua perplexidade diante do desconhecido.

A ficção é a mais sofisticada forma de "representação" dos humanos. Podemos pensar num quadro de Renoir como uma ficção, ou qualquer outro pintor. A obra de Duchamps é FICCIONAL TOTAL, é pura "produção de pensamento".

Vamos ao que interessa. NOSSAS QUESTÕES:

Que cinema queremos praticar?

Do que trata esse filme?

Essas duas são as questões básicas sobre as quais devemos nos debruçar.

Pensar que tipo de cinema nós queremos fazer, que narrativa queremos construir.

Sem essa reflexão não vamos produzir nada que seja específico, singular, "desse filme", com a personalidade que o filme necessita.

Como fazer deste filme um filme delicado (pois se trata de um filme sobre feminilidade) e brutal (pois fala, ao fim, como sempre, sobre a vida) ao mesmo tempo?

Como filmar a história de Camila?

Essa história tem que emanar muita verdade. Mas não como num documentário, pois documentários são construídos pelo rigor/pensamento -montagem- no uso do acaso.

Na ficção trabalhamos muito mais com a construção de linguagem.

Construir uma história com uso, gasta pela sua trajetória, pelo seu tempo anterior.

Uma história reforçada por detalhes que nós, que trabalhamos criativamente no filme, vamos 'adicionar' de nossas histórias pessoais na história real. Só assim construímos algo com singularidade: verdadeiro?

Quais TEMAS abordamos nessa história real?

1- Desamparo: Camila se largou na vida. O filme é um rito da afirmação desse desamparo. Sem tal enfrentamento, não nos tornamos humanos viáveis. É um filme sobre desamparo, sobre gente desamparada, largada no mundo e que tem que dar conta de tudo sozinha(os)

2- Feminilidade: Um filme encarnado em uma MULHER. Inevitavelmente um filme sobre o feminino. Assunto cabeludo. Podemos iniciar conceituando que é um filme sobre excesso.

Excesso da presença da protagonista: desejos, obsessões, dificuldades, prazeres. Por isso, um filme difícil para mim, Murilo. Para tal tarefa me cerquei de mulheres sensíveis e inteligentes, desde o roteiro e, principalmente, na filmagem. Dependo da sensibilidade e inteligência das minhas companheiras de equipe. Preciso do olhar atento e da razão crítica aguçada das minhas colaboradoras para que o "olhar sensível" do filme seja, se possível, organicamente feminino.

Esse Nome também não é meu.

O texto 'Um Nome que não é meu' da Clarah Averbuck sobre "Nome Próprio" abre com a afirmação: esse filme não é meu. Sim, claro, não é dela. Nem muito menos sobre ela. Por isso tenho notado algum desapontamento nos comments do Blog, dos que vão assistir o filme à procura de Clarah Averbuck. O filme, está escrito na tela, é uma livre adaptação.

Essa história de o que é meu, seu, nosso, vosso e deles serve apenas para a concordância verbal. A relação literatura /cinema sempre existiu. Esse é o terceiro filme que adapto para cinema. Antes de Clarah foram João Gilberto Noll e Fernando Sabino. Sempre é isso, uma violação de intimidade, uma penetração. Relações são construídas assim. Entrar na intimidade é violento, lindo e pode render frutos maravilhosos. E, tudo bem, porque ao final a obra literária estará sempre lá, íntegra e intacta. O quê temer?

Na história dessa relação existem bons exemplos de adaptações fiéis como Vidas Secas, onde filme e livro estabelecem uma tabelinha Pelé/Coutinho; e outra, igualmente feliz, mas muito infiel, a de Hora da Estrela, onde nossa escritora maior foi absolutamente traída por Suzana Amaral, que simplesmente limou de sua narrativa a protagonista da história e fez um belo filme. Cinema e literatura, sabemos, cada qual tem sua especificidade, seu tempo, sua estrutura narrativa.

Ainda por cima, hoje, tudo é um grande texto e o que interessa é o sentido que damos às nossas re-escrituras, como determinamos nossas escolhas. Todas as histórias já foram contadas, inclusive as da Clarah, todos os filmes já foram feitos e dizem que os cineastas filmam o mesmo filme. Eu tenho certeza que sim. Clarah escreve livros, narrativas literárias. Não interessa se fundadas em sua vida real ou imaginada, pois a operação da escrita é uma operação de ficção, pois você exerce o poder do narrar, que é sempre uma escolha, um recorte, uma visão de mundo, uma possessão.

Os livros que adaptamos são da Clarah. A Camila da Clarah foi o início da procura pela minha Camila, que é mais do Fante. E nela estão todas as Clarices, todas as Anas, as Cristinas, as Hildas, as Duras, as Espancas e, principalmente a Margarida. Camila se constitui espelhada num hipertexto de mulheres intensas, ricas, contraditórias, histéricas, generosas, íntegras, corajosas, tais com, inclusive, Santa Tereza D'Ávila que está nas telas copydeskada pelo Murilo:

Nada me resta
senão me perder em você,
senão morrer um pouco,
senão gozar sem saber
do que se goza.


Camila é uma personagem vertiginosa que principalmente existe porque encarnada em Leandra Leal. E que afirma o seu tempo regido por Vânia Debs. Nos 'tempos' da voz interna da Camila/Murilo, da Camila/Leandra, da Camila/Vânia. Camila tinha que encontrar sua voz singular e escrever seus textos no tempo da leitura na tela. E com essa visibilidade ganhar a dimensão poética que a personagem tem no filme. Um tempo e um texto minuciosamente tricotado pelo talento de Viviane Mosé, da Vânia Debs, da Elena Soárez e da Melanie Dimantas. E de todas as mulheres intensas e incríveis que se tornaram presentes.

Nome Próprio precisou dessas vozes para ser o filme que é. Portanto esse Nome também não é o meu. É dele, do filme.

Murilo Salles

Músicas de Camila