Um filme dirigido por Murilo Salles com Leandra Leal.
Baseado na obra de Clarah Averbuck.

Esse Nome também não é meu.

O texto 'Um Nome que não é meu' da Clarah Averbuck sobre "Nome Próprio" abre com a afirmação: esse filme não é meu. Sim, claro, não é dela. Nem muito menos sobre ela. Por isso tenho notado algum desapontamento nos comments do Blog, dos que vão assistir o filme à procura de Clarah Averbuck. O filme, está escrito na tela, é uma livre adaptação.

Essa história de o que é meu, seu, nosso, vosso e deles serve apenas para a concordância verbal. A relação literatura /cinema sempre existiu. Esse é o terceiro filme que adapto para cinema. Antes de Clarah foram João Gilberto Noll e Fernando Sabino. Sempre é isso, uma violação de intimidade, uma penetração. Relações são construídas assim. Entrar na intimidade é violento, lindo e pode render frutos maravilhosos. E, tudo bem, porque ao final a obra literária estará sempre lá, íntegra e intacta. O quê temer?

Na história dessa relação existem bons exemplos de adaptações fiéis como Vidas Secas, onde filme e livro estabelecem uma tabelinha Pelé/Coutinho; e outra, igualmente feliz, mas muito infiel, a de Hora da Estrela, onde nossa escritora maior foi absolutamente traída por Suzana Amaral, que simplesmente limou de sua narrativa a protagonista da história e fez um belo filme. Cinema e literatura, sabemos, cada qual tem sua especificidade, seu tempo, sua estrutura narrativa.

Ainda por cima, hoje, tudo é um grande texto e o que interessa é o sentido que damos às nossas re-escrituras, como determinamos nossas escolhas. Todas as histórias já foram contadas, inclusive as da Clarah, todos os filmes já foram feitos e dizem que os cineastas filmam o mesmo filme. Eu tenho certeza que sim. Clarah escreve livros, narrativas literárias. Não interessa se fundadas em sua vida real ou imaginada, pois a operação da escrita é uma operação de ficção, pois você exerce o poder do narrar, que é sempre uma escolha, um recorte, uma visão de mundo, uma possessão.

Os livros que adaptamos são da Clarah. A Camila da Clarah foi o início da procura pela minha Camila, que é mais do Fante. E nela estão todas as Clarices, todas as Anas, as Cristinas, as Hildas, as Duras, as Espancas e, principalmente a Margarida. Camila se constitui espelhada num hipertexto de mulheres intensas, ricas, contraditórias, histéricas, generosas, íntegras, corajosas, tais com, inclusive, Santa Tereza D'Ávila que está nas telas copydeskada pelo Murilo:

Nada me resta
senão me perder em você,
senão morrer um pouco,
senão gozar sem saber
do que se goza.


Camila é uma personagem vertiginosa que principalmente existe porque encarnada em Leandra Leal. E que afirma o seu tempo regido por Vânia Debs. Nos 'tempos' da voz interna da Camila/Murilo, da Camila/Leandra, da Camila/Vânia. Camila tinha que encontrar sua voz singular e escrever seus textos no tempo da leitura na tela. E com essa visibilidade ganhar a dimensão poética que a personagem tem no filme. Um tempo e um texto minuciosamente tricotado pelo talento de Viviane Mosé, da Vânia Debs, da Elena Soárez e da Melanie Dimantas. E de todas as mulheres intensas e incríveis que se tornaram presentes.

Nome Próprio precisou dessas vozes para ser o filme que é. Portanto esse Nome também não é o meu. É dele, do filme.

Murilo Salles

Um comentário:

cartasdemelissa disse...

Bem... verdade é que não conheço ninguém que tenha visto o filme para conversar sobre o assunto, mas não imagino como comparar um com o outro. Entrei no cinema vizualizando a passagem do Maquina... em que Camila passa pelo aeroporto saltitando Kit Kat e nem por isso me decepcionei em nada, tinha tantas outras cenas tão interessantes que não havia motivos pra ficar pensando na outra que estava na minha cabeça, e pensando bem é até melhor, que ela fique aqui e bem guardada.
As pessoas sempre tem que reclamar de alguma coisa, são todos uns ingleses neuróticos.
Abç.

Músicas de Camila