meu deus....
Leandra lidera o ranking das musas do FESTIVAL DO RIO
Sejamos sinceros: sob o impacto de Seja o que Deus Quiser!, filme que se perdia na vontade de falar de uma contemporaneidade pelo viés de um humor quase chanchadesco e caricatural, era difícil saber o que esperar deste outro mergulho de Murilo Salles por uma vivência jovem atual. No entanto, o fato é que Nome Próprio talvez seja um dos melhores filmes nacionais a se voltar para os personagens jovens em muito tempo, criando ao mesmo tempo um mergulho radical numa subjetividade sem estereótipos (ou, pelo menos, sem mais do que o tanto deles que nós mesmos acabamos vivenciando no dia a dia) e uma capacidade de traçar um painel de personagens que nunca soa como “exemplificante”, e sim um universo particular.
Dentro da sutileza de construção que o filme quase sempre atinge (há uma ou duas sequências menos felizes), chama a atenção tudo aquilo que ele deixa de fora da trama, para que criemos o universo destes personagens para além da tela: isso está nas caixas que a mãe manda sem se tornar uma personagem de fato no filme (e assim a personagem principal não se torna nem uma “abandonada”, nem uma “revoltada”); está na caixa de emails e no blog da personagem (onde de vez em quando percrustramos outras linhas narrativas propositalmente não exploradas apenas lendo subjects de emails ou trechos de posts no blog); está finalmente naquilo que o filme não revela de vários dos personagens coadjuvantes (o que acontece com Márcio depois que ele some? e com Mari? e a relação anterior de Paula com Camila?).
Embora possamos considerar que parte da força do filme venha dos originais de Clarah Averbuck e dos outros “blogueiros” com que Murilo trabalhou seu material, pelo menos dois elementos puramente audiovisuais são essenciais para o sucesso de Nome Próprio: primeiro, a fotografia do próprio Murilo (dividida com Fernanda Riscali), que consegue um trabalho belíssimo de criação de ambientes nos interiores (principalmente no apartamento da protagonista) e, ao mesmo tempo, quando vai para a rua, dá uma enorme vida e beleza tanto aos ambientes “reais” (estádio de futebol, bares da noite, lan houses) quanto ao pouco que vislumbramos da cidade, principalmente pelas janelas. O filme é um dos grandes triunfos até agora do cinema em digital no Brasil, realizado por uma câmera que ao mesmo tempo que não sofre das limitações da imagem típica do digital (cores, definição, claro/escuro), incorpora à sua linguagem uma série de trabalhos de pós-produção que trazem o digital como ferramente fundamental (destaque aqui para o uso dos textos na tela, que além de adequado à personagem, são usados com bastante inteligência). Murilo dá ainda à sua câmera uma elegância notável, alternando planos fixos com delicados movimentos de traveling e câmeras na mão, sem tornar nenhum destes registros uma “muleta” para construir uma linguagem que preceda a cena: para cada momento, para cada mudança de trajetória, há uma maneira visual de captar o mundo.
Mas, se há pouco dizíamos aqui na revista que um filme como Carreiras deveria ter sua autoria creditada tanto a Domingos Oliveira quanto a Priscila Rozenbaum, o fato é que Nome Próprio é um filme de Murilo Salles e de Leandra Leal. A atriz constrói com sua Camila uma personagem de nuances constantes, incrivelmente explosiva e introspectiva ao mesmo tempo. É uma personagem que nos acolhe nos braços e nos faz querer seguir com ela ao longo da duração (um tanto exagerada, diga-se – o filme poderia ser bem mais poderoso com meia hora, ou uma ou duas subtramas, a menos). Há uma série de momentos francamente impressionantes no trabalho de Leandra, sendo que o maior deles talvez seja mesmo a sequência da transa com o rapaz de Ribeirão Preto (aliás, um dos destaques dentro de um elenco de apoio também incrivelmente preciso): trata-se de uma cena com mudanças de humor e pulsões constantes, que tanto são vividas pelos atores como pela câmera deste plano-sequência nada gratuito.
Nome Próprio revela-se um filme bastante próximo de Cão sem Dono, na relação que traça dos personagens jovens com o mundo à sua volta. E mais do que apenas uma questão temática ou de universo, os filmes se aproximam quando vemos que, mesmo que tenham momentos ou cenas irregulares ao longo de sua duração, os momentos de pungência que atingem são bem mais marcantes, e certamente são o que fica depois do final da sessão.
Eduardo Valente
http://www.revistacinetica.com.br/
"Eu não quero mais dormir sem você. Nunca mais. Eu pedi pra você não largar a minha mão e, mesmo dormindo, você não largou. Eu estou com medo. Você é perfeito pra mim. Muito. Todo. Da voz ao tamanho do pau. Agora eu não acho nada, não penso nada, não quero mais saber de nada. Eu me abandonei em você."
posted by Camila Lopes
"Nada nunca dá certo de vez. Eu sei. Tudo termina sempre acabando. Só o fim permanece. O fim eterno de todas as coisas. Então, me dissolvo antes do fim. Eu me dissolvo."
posted by Camila Lopes
"Eu vou sofrer por dias e noites de solidão, vou perder os brilhos dos meus olhos. Meu cabelo irá cair. Eu não vou conseguir mais dormir, meus dentes azedarão. Irão brotar varizes nas minhas pernas. Eu vou sentir ânsia de chão."

No fim da década passada, o mundo da literatura brasileira era bem chato. Os grandes autores continuavam grandes, e os novos... Bem, os novos nunca deixavam de ser novos. Seguindo o modelo do rock’n’roll, a renovação veio da marginalidade.
A principal efervescência veio do Rio Grande do Sul. Um fanzine distribuído pela internet começou a conquistar o público leitor e, consequentemente, "exportou" seus autores para o mainstream. Saíram do CardosOnline, o tal fanzine, Daniel Pellizzari, Daniel Galera e Clarah Averbuck.
Clarah, nascida em Porto Alegre em 26 de maio de 1979, também escrevia para revistas como Showbizz, Trip e TPM. Ela também teve um breve experiência no cinema, interpretando uma prostituta no curta "Nocturnu", de Dennison Ramalho (mais tarde premiado em Gramado por outro trabalho, "Amor Só de Mãe").
O mundo da literatura não estava preparado para Clarah Averbuck, mas ela venceu na insistência e no talento. Deixou Porto Alegre para trás e encarou São Paulo de frente. Nessa época o CardosOnline chegou ao fim depois de 3 anos e ela criou o extinto blog Brazileira!Preta, onde formou um exército de fiéis seguidores.
A dureza paulistana e a paixão pela literatura resultaram em "Máquina de Pinball", lançado pela editora Conrad em 2002. O livro conta a história de Camila, um alter-ego da autora, que persegue o amor sem pausa para descanso. Ou melhor, com pequenas pausas apenas para o sexo casual. Ah, e ela também escreve. E sofre. E bebe. E usa drogas. "A auto-referência e a estética punk são as principais características, em um mundo repleto de figuras como notívagos, outsiders e afins (dos quais tais artistas fazem parte)", observou o jornal "Folha de S. Paulo" na época do lançamento. A obra também ganhou destaque em outros jornais, como "O Estado de S. Paulo", "Gazeta do Povo" e "Zero Hora", além de inúmeras revistas e sites, da Set ao UOL. "Estar fodida é sair no jornal e não possuir reais para comprá-lo", reclamava Clarah no blog.
O ator e diretor Antonio Abujamra tem uma opinião semelhante. "Difícil ver uma contemporaneidade mais poética em brasilidade", escreveu no prefácio. "É um livro que os que sabem ver a coisas e os que não sabem ver as coisas lerão como alimento indispensável para devorar seus contentamentos." E foi pela adaptação de Abujamra e Alan Castelo que Máquina chegou aos palcos cariocas. Na seqüência, Clarah recebeu uma proposta do diretor de cinema Murilo Salles para a adaptação de sua obra.
Logo depois do lançamento de Máquina de Pinball uma tríade de eventos mudou a vida de Clarah Averbuck completamente: ela descobriu a casa noturna roqueira Fun House. Junto com o lugar veio um dos sócios dele, Marcelo, que rapidamente se tornou namorado dela. Para coroar tudo isso, o casal teve a filha Catarina, em julho de 2003.
Também em 2003 a editora 7 Letras, percebendo o valor e potencial do Brazileira!Preta, lançou "Das Coisas Esquecidas Atrás da Estante", uma reunião de textos do site (e outras coisinhas mais). Paralelamente, Clarah foi publicada pela primeira vez no exterior, em uma coletânea portuguesa de nome sutil: "Putas" e também integrou a coletânea “25 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira”.
Enquanto esperava a publicação de "Vida de Gato" (Editora Planeta), uma espécie de continuação do primeiro livro, Clarah retomou uma paixão antiga e formou o grupo Jazzie & os Vendidos, uma banda de rock com um pé e meio no blues. Ela era a vocalista, Marcelo – seu ex-marido - tocava guitarra e Jonas tocava sax. Além das canções originais, eles costumavam mandar versões para clássicos (ou não) de Ray Davies, Faith No More, Os Mutantes, Rolling Stones e até alguma coisa da trilha de A Cor Púrpura. Apesar desse detalhe interessante, Jazzie não fazia um bando de covers curiosas. A banda era coração e instrumentos. Chegou ao fim em 2005. Mas Clarah está com novos projetos e pretende manter esta chama acesa, afinal, sempre frisa que a música é tão importante quando a literatura em sua vida, e não apenas um hobby passageiro.
A adaptação cinematográfica de "Máquina de Pinball" já está pronta. O projeto – intitulado “Nome Próprio” – foi selecionado entre outros 800 pelo Instituto Telemar e recebeu R$ 1 milhão. O filme será lançado no início de 2008 e conta com Leandra Leal no papel principal.
Enquanto isso, Clarah voltou a manter um blog, agora no endereço http://adioslounge.blogspot.com e está envolvida em diversos projetos: escreveu, com Guilherme Coube, o roteiro de uma série para a MTV, está trabalhando no livro “Delírio de Ruína”, uma parceria com a estilista Rita Wainer, e foi uma das contempladas pelo Programa Petrobrás Cultural com o livro “Eu Quero Ser Eu”, a ser lançado pela Editora Cosac Naify.
- Paulo Terrón
"Eu engoli uma pedra. Tem uma pedra dentro de mim. Tem uma pedra. Tudo é dentro."
Camila Lopes
Assim como a trajetória da personagem, esse filme foi solitário. Acho que juntando todas as diárias de todos os atores não deve ter dado 20 dias, no máximo. No restante dos dois meses e meio, foram só eu, a equipe, a câmera e poucos equipamentos, e o Murilo. Depois já não tinha mais ninguém, todo trabalho era imperceptível e em silêncio, para que eu pudesse ficar sozinha no meio das 15 pessoas que lotavam o apartamento de 2 quartos na Pompéia. Para que eu pudesse esquecer que estava nua, em trajes ou não, e esquecer que fazia frio, um puta frio no mês de maio de 2006 na cidade de São Paulo.
posted by Leandra Leal
senão me perder em você,
senão morrer um pouco,
senão gozar sem saber
do que se goza.
posted by Camila Lopes

























